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Vidas Importam? Sim! Vidas Negras Importam

Coluna 6552

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No momento em que enfrentamos uma pandemia, em que alguns acreditam seriamente que aprenderemos, que sairemos melhores desta crise, como pessoas, outras crises fazem com que venham à tona questões tão antigas quanto a nossa existência. Crises de Ódio.

Já passamos pela peste bubônica no século XIV, pela varíola que durou mais de 3 mil anos e só foi erradicada em 1980, pela cólera entre 1817 e 2019, pela gripe espanhola em 1918. E em meio a tudo isso, pergunto: foram registradas melhorias disruptivas nas atitudes e comportamentos humanos em nossa sociedade? Não. Não deixamos de registrar crimes, de toda ordem. Mas, existem crises que se arrastam na esteira da existência humana movidas pelo ódio.

E o que é o ódio se não emoção negativa e intensa, causada pela crença de que o odiado é um ser desprezível, detestável e por isso não merece qualquer consideração?

O ódio pode ser contra indivíduos, grupos, comportamentos, pensamentos divergentes e até objetos, seres inanimados.

Negros odiados até à morte. Até quando?

Quando os europeus iniciaram a escravização por causa da raça, a raça foi a negra. Não temos como mudar o princípio, mas podemos mudar o final dessa história.

Antes, a prática da escravização ocorria ou não entre povos da mesma raça, etnia, mas principalmente em decorrência do aprisionamento dos perdedores em conflitos, por conquista de mais poder, espaço geográfico, riquezas e até como pagamento por perda em jogos.

Ao escravizar negros, toda uma gama de atributos negativos precisavam lhes ser atribuídos para justificar o injustificável: a escravização. A crença religiosa, a linguagem, seus costumes, todos tidos como profanos, indignos da convivência com os dominadores, foram exacerbados ao máximo, causando medo e repulsa à convivência. Assim, era muito mais fácil delimitar espaços pela limitação financeira decorrente da inacessibilidade à educação, trabalho e renda.

Pessoas foram ensinadas a odiar para garantir o status quo, mantendo ódios ancestrais, que perpetuam até hoje, ambições de poder, transmitidas de geração para geração.

A frase acima, de Nelson Mandela, é ratificada pela biologia que tem atributos que predispõem o ser humano a odiar, mas que precisam estar associados a outras questões tais como socioculturais, econômicas, sem abrir mão da visão histórica.

E o que nos diz a neurociência? “O sentimento de ódio coincide com a ativação do cérebro de estruturas como o córtex frontal medial, envolvido na capacidade de argumentar. Tais estruturas do cérebro também participam da percepção do desdém e do nojo.” Ou seja, assim somos ensinados e estimulados a odiar.

O que é ser negro no Brasil?

O Dr. Milton Santos, geógrafo, intelectual, professor e um dos maiores pensadores brasileiros traduziu nesta frase: “Ser negro no Brasil é, com frequência, ser objeto de um olhar enviesado. A chamada boa sociedade parece considerar que há um lugar predeterminado, lá em baixo, para os negros.”

Negros incomodam, na medida em que ascendem socialmente e amedrontam os racistas que os odeiam. Precisamos falar sobre racismo para identificarmos o que é ser antirracista.

E a resposta é a violência.

  • 77% dos jovens assassinados no Brasil são negros que vivem em favelas e periferias. Essas mortes terminam sendo banalizadas e naturalizadas.
  • Apenas 8% dos homicídios viram de fato um processo judicial (Conselho Nacional de Justiça).
  • 50 milhões de brasileiros com mais de 16 anos perderam um amigo, parente ou alguém próximo assassinado (Fórum Brasileiro de Segurança Pública).
  • 429% em 20 anos. Eis o crescimento do número de mortes de crianças e adolescentes negros até 19 anos, de 1997 até 2017, neste País (Fundação ABRINQ).

Agora, no auge da crise da COVID-19, ao falar em João Pedro Matos Pinto, 14 anos, negro, assassinado no dia 18 de maio, no Rio de Janeiro, com um tiro de fuzil, que o atravessou da barriga ao ombro, e da sua casa marcada com setenta e dois disparos, tivemos em Brasília, no dia 31 de maio, um manifesto de grupo de mascarados carregando tochas acesas...

O ódio irriga todos os podres poderes, alheios ao genocídio negro: ou morrem em decorrência da pandemia, porque são as pessoas mais vulneráveis socialmente, pela precariedade de recursos próprios e dos de responsabilidade do Estado, ou são assassinados, por apresentarem o estereótipo de pessoas do mal: cor da pele, cabelo. Depois perguntam ou não, quem é você, negro?

Impunidade: Não conseguimos mais respirar.

A reação global ao vídeo da morte da George Floyd, afro-americano que morreu em 25 de maio de 2020, depois que o policial Derek Chauvin, de Minneapolis se ajoelhou no seu pescoço por pelo menos sete minutos, enquanto ele estava algemado e deitado de bruços... É uma boa mostra que tudo cansa; tudo tem seu fim.

Manifestações vindas da Grécia, França, Nova Zelândia, Alemanha, Inglaterra, Brasil, mostram que está ocorrendo uma tomada de consciência por parte também do agressor, quando polícias americanos se postam de joelhos diante dos negros.

Policiais estão cansados de serem chamados de assassinos. Esta será a grande virada: termos representantes dos agressores juntando-se aos agredidos, pois se foram ensinados a odiar, também podem ser ensinados a amar, ou melhor, a tomarem consciência que juntos sempre seremos mais fortes e os resultados devem ser para o todo; não para as pequenas partes, opressoras.

(1) https://brasil.elpais.com/brasil/2017/12/12/ciencia/1513073061_342064.html

(2) https://anistia.org.br/um-pacto-pela-vida-dos-jovens-negros/

Por Jorgete Lemos, sócia fundadora da Jorgete Lemos Pesquisas e Serviços - Consultoria. É uma das Colunistas do RH Pra Você. O conteúdo desta coluna representa a opinião do colunista. Foto: Divulgação.

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