- Início

- Conteúdo

É possível evitar uma epidemia de transtornos mentais pós-pandemia?

Coluna 119

Compartilhe Este Post

“Tudo o que estamos vivenciando globalmente é de tamanha dimensão e complexidade que pode ter impactos significativos e devastadores na saúde mental da população. A boa notícia é que, em meio ao sofrimento compartilhado e a um mar de incertezas, podemos lançar mão de estratégias e recursos que nos fortaleçam, alimentem a nossa esperança de dias melhores e nos ajude a passar por este período com crescimento e resiliência.”, Rosalina Moura

 

Os efeitos de uma pandemia

Passar por uma pandemia sem precedentes como a do Novo Coronavírus tem exposto a população mundial a níveis elevados de estresse por um tempo prolongado, o que gera impactos psíquicos significativos. Sabemos que reações comuns diante de uma situação ameaçadora e desconhecida podem evoluir para transtornos. Em uma epidemia as implicações psicológicas e psiquiátricas tendem a ser subestimadas, o que aumenta o risco de adoecimento psicológico como mostram pesquisas relacionadas às epidemias da Sars na China, em 2002, e de Ebola na África em 2006.

Segundo a OMS, uma falha em levar o bem-estar emocional das pessoas a sério agora implicará em altos custos sociais e econômicos a médio e longo prazos para a sociedade. A pandemia atual nos coloca diante do risco de uma segunda pandemia, a de Transtornos Mentais, com todas as suas consequências devastadoras para as pessoas e a sociedade.

Estressores duradouros

As grandes transformações no modo de viver, trabalhar e nos relacionarmos impôs a necessidade de adaptações de forma abrupta e sem qualquer aviso prévio. Nos consultórios de psicologia (agora virtuais e a cada dia mais cheios) acolhemos as angústias e o sofrimento das pessoas e famílias que têm que lidar com muitos estressores como:

  • isolamento social
  • interrupção das rotinas das escolas e do contato com colegas e professores
  • confinamento de crianças e jovens
  • convívio com o medo constante
  • trabalho remoto forçado
  • exposição de quem precisa sair de casa para trabalhar
  • insegurança, incerteza e medos em relação ao futuro
  • sentimento de ameaça à saúde e à vida
  • desconhecimento sobre a doença e tratamentos
  • impossibilidade ou restrição de toque físico e abraços
  • morte de entes queridos
  • conflitos conjugais e familiares potencializados pelo confinamento

Subjacente a tudo isso vivemos muitas perdas:

  • perda da “liberdade”
  • da possibilidade de fazer escolhas
  • da sensação de segurança e previsibilidade
  • das risadas e encontros com os amigos
  • dos passeios de final de semana
  • dos rituais de despedida de pessoas queridas
  • do encontro real com o outro
  • dos planos para o futuro
  • das festas comemorativas em família
  • de poder aquisitivo, entre tantas outras

Estamos vivendo um luto coletivo, que precisa ser reconhecido e elaborado. No contexto atual tudo o que foi exposto pode ser vivenciado de forma traumática. Embora o mundo seja essencialmente dinâmico onde as mudanças fazem parte da vida e da nossa existência, a pandemia chegou sem aviso prévio, forçou mudanças de forma antinatural e apressou a necessidade de mudanças, desafiando a nossa capacidade de adaptação.

Diante do exposto podemos afirmar que estamos experienciando estresse elevado e excessivo por um tempo prolongado, o que agrava os seus impactos nocivos.

 

 

Como saber se o estresse está excessivo?

Sob estresse o nosso corpo libera hormônios em alta dosagem como adrenalina e cortisol, a pressão arterial aumenta, os músculos se contraem, a frequência cardíaca se eleva. Na fase aguda estas reações nos ajudam a lidar melhor com as situações, mas quando prolongadas geram efeitos muito nocivos. A ativação do sistema nervoso simpático pode se manter por muito tempo, aumentando a vulnerabilidade a doenças físicas e psíquicas. E um dos impactos do estresse crônico é a queda da imunidade.

Uma das formas de saber se o stress está atingindo patamares elevados é por meio da identificação dos seus sintomas e sinais. Abaixo os principais e que têm sido comuns:

  • irritabilidade excessiva
  • sensação de alerta e tensão constante
  • cansaço e falta de ar
  • distúrbios de sono
  • pensamentos recorrentes em torno do mesmo assunto
  • baixa imunidade e adoecimento frequente
  • dificuldades para criar e ter ideias novas
  • diminuição ou perda do apetite sexual
  • perda de interesse e baixa motivação
  • dificuldades para manter a concentração e a atenção
  • problemas de memória
  • problemas de pele e gastrointestinais
  • dores e tensão muscular

Dados de um levantamento de saúde mental na pandemia

Uma pesquisa online realizada pela consultoria Rumo Saudável com 183 pessoas residentes no Brasil (142 mulheres e 41 homens, a maioria entre 25 e 54 anos), em maio de 2020, revelou que:

  • 54% apresenta sintomas de estresse excessivo. Quando separamos por sexo temos 62% das mulheres com sintomas de estresse excessivo contra 45% dos homens.
  • 32% apresenta sinais de Depressão
  • 25% apresenta sinais de Transtorno de Ansiedade

Em relação aos hábitos de vida neste período:

  • 57% das pessoas referem estar com uma carga de trabalho maior do que antes da pandemia
  • 48% percebe que está realizando menos no trabalho em função de questões emocionais ou estresse
  • 56% refere não conseguir gerenciar bem o tempo e equilibrar as necessidades do trabalho e da vida pessoal e familiar
  • 90% referiu não praticar qualquer técnica de relaxamento ou meditação
  • 15% já estava está fazendo acompanhamento psicológico
  • 30% refere estar sentindo necessidade de buscar atendimento profissional
  • 9% das pessoas referem ter pensado que seria melhor acabar com a sua vida (em pesquisas realizadas pela Rumo antes da pandemia, esse índice variava de 3 e 5%).

Como fazer uma limonada desse limão?

Como minimizar os impactos negativos desta fase que deixará marcas profundas e transformará a todos? Crises sempre contém oportunidades de aprendizado e crescimento. Mesmo que não possamos mudar a realidade, existe algo que está ao nosso alcance: mudar a forma de encarar e enxergar as situações. Algumas perguntas reflexivas podem ajudar neste processo:

  • Como estou encarando e vivendo tudo isso?
  • O que posso fazer diferente para lidar melhor com as mudanças?
  • Existe algo que ainda não experimentei que pode me fazer sofrer menos?
  • O que preciso mudar em mim?
  • O que recarrega a minha energia?
  • O que pode alimentar a esperança de dias melhores?

Cuidar de si mesmo física e emocionalmente é crucial para enfrentar os desafios, evitar o estresse tóxico e passar por esta fase com resiliência. A seguir algumas coisas que você pode fazer e como podem te ajudar.

10 atitudes para reduzir os níveis de estresse

1. ACEITAR o que não pode ser mudado – como a pandemia, as mudanças na rotina, as restrições. > A aceitação diminui a ansiedade e o sofrimento e nos ajuda a focar nas ações que estão ao nosso alcance.
2. Descobrir FORMAS NOVAS E CRIATIVAS para lidar com as situações e os problemas em um novo contexto. > “Sempre foi assim” precisa deixar de existir e abrir espaço para “como pode ser agora, diferente?”
3. Investir no desenvolvimento da INTELIGÊNCIA EMOCIONAL > Invista no autoconhecimento e consciência de seus sentimentos, pensamentos e reações
4. Manter RELACIONAMENTOS e buscar o apoio de pessoas, mesmo à distância > Relacionamentos são mediadores do estresse e contribuem para que nosso corpo libere substâncias protetivas da nossa saúde física e mental
5. Incluir MEDITAÇÃO e práticas de relaxamento no seu dia – vale fazer algumas respirações conscientes, sentindo o ar entrando e saindo de você. > Vários estudos científicos comprovam a sua eficácia e os inúmeros benefícios para o alívio do estresse, melhora da saúde mental e física.
6. Ter uma ROTINA que inclua alimentação nutritiva, a prática de alguma atividade física e um bom sono (com horário para dormir e acordar). > Estes 3 elementos são fundamentais para aumentar a imunidade e proteger nosso corpo e mente dos efeitos negativos do estresse
7. Realizar ATIVIDADES RELAXANTES como desenho, artes manuais, cuidar de plantas, tocar um instrumento... > Nosso corpo libera substâncias como a dopamina, serotonina e ocitocina, que aumentam a sensação de bem-estar.
8. Tenha um DIÁRIO e pratique GRATIDÃO- pode ser um app, bloco de notas ou um caderno velho. Registre pensamentos, sentimentos e gratidão. > A parada para o registro diário ajuda a enxergar as coisas por outras perspectivas, amplia a visão e as possibilidades.
9. Pratique a AUTOCOMPAIXÃO, especialmente diante dos desafios complexos, dificuldades ou sofrimento. > Seja gentil com você mesmo como seria com uma pessoa muito querida. Se pergunte: “o que eu preciso agora?”.
10. Todos nós precisamos de AJUDA na vida. Não deixe de procurar um psicólogo, psicóloga ou psiquiatra se sentir necessidade. > Seja gentil com você mesmo como seria com uma pessoa muito querida. Se pergunte: “o que eu preciso agora?”.

 

Rosalina Moura é Psicóloga Clínica, Organizacional e Coach. Sócio fundadora da Rumo Saudável, empresa que atua no segmento de bem-estar, saúde mental  e gerenciamento do estresse em Organizações. É um das Colunistas do RH Pra Você. Foto: Divulgação.

www.rumosaudavel.com.br 

[email protected]

Você também vai gostar