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Inteligência emocional na prática

Coluna 223

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O desafio de hoje é entendermos melhor o que chamamos de inteligência emocional, ou seja, compreendermos a capacidade que temos para administrar nossas emoções, objetivando o alcance de determinados objetivos.

A partir desta simples definição do que é inteligência emocional, é possível entender por que as pessoas devem saber lidar com seus medos, inseguranças e insatisfações. Em outras palavras, apenas administrando essas emoções é que alcançamos êxito nas atividades. Nesse momento de profunda instabilidade e insegurança, a inteligência emocional é o que garante um equilíbrio saudável nas nossas vidas.

Leandro Karnal, ao citar um sábio, afirma que estamos passando por uma situação que se assemelha a uma travessia de um caminho onde, de um lado existe uma geleira muito grande e do outro lado uma enorme fogueira. É nessa travessia que a inteligência emocional pode nos trazer algum conforto interno. Estamos passando um período bastante diferente, de isolamento social para alguns, para outros de negação, mas de grande adequação a várias coisas, de diversas mudanças de comportamentos e é quando mais precisamos ter um bom equilíbrio emocional para lidarmos com essas questões e nos sentirmos bem.

Mas... como lidarmos com nossas emoções? Como controlarmos nossos impulsos? Por que quanto mais desenvolvida a inteligência emocional, melhores relacionamentos teremos? Como podemos lidar com as emoções num momento tão complicado quanto o atual onde a emoção dominante é o medo? Existem emoções boas e ruins?

A primeira consideração a fazer é que não existem emoções boas ou ruins, e o que se pode administrar são os impactos que elas nos causam.

O que a inteligência emocional nos fala do medo?  O medo é um sentimento cuja finalidade é nos proteger e está ligado ao nosso instinto de sobrevivência. Ajuda-nos a manter nossa integridade física. Assim, é necessário, principalmente nesse momento de pandemia, impedindo-nos de correr riscos desnecessários. No entanto, quando perdemos o controle do medo, essa emoção inicialmente positiva pode virar pânico e paralisar-nos.

Assim, todas as emoções são bem-vindas e o que precisa ser desenvolvido é o modo como lidamos com elas, a partir do entendimento que temos, direcionando-as para uma ação proveitosa.

Para isso, Daniel Goleman, psicólogo que trouxe com mais clareza os conceitos da inteligência emocional, explicitou 5 pilares para que se desenvolva essa competência.

O primeiro pilar, trata da autoconsciência. É a partir deste pilar que se monitora e analisa o padrão emocional, ou seja, como se reage a situações de estresse ou de sucesso, por exemplo.  A autoconsciência é o primeiro passo para que se desenvolva a inteligência emocional. Trata-se do autoconhecimento.  É quando se presta atenção às emoções e se identifica quais são as mais presentes, as mais difíceis de serem administradas e as mais fáceis. Mas, e quando não temos tempo para pensar nas emoções e elas escapam do controle?

Daniel Goleman fala em sequestro emocional, que é quando não se tem tempo necessário para canalizar a emoção em direção ao que se deseja, ou seja, a informação não passa pelo crivo da consciência e vai direto para a parte emocional do cérebro, liberando de forma descontrolada a energia da emoção. O sequestro emocional faz perder a racionalidade e a emoção toma conta, podendo originar atitudes agressivas e imprudentes.  Assim, o antídoto é ter a percepção de nossos sentimentos e afastar-nos da situação, dar um tempo, respirar fundo para que a razão assuma o comando e não permita que a ação se descontrole por conta da emoção mal direcionada.

Uma boa prática para entender as emoções é criar o hábito de anotá-las, analisando a forma como se lidou com cada uma delas, bem como o gatilho que as desencadeou.

Quando se faz a conexão entre mente e coração, o motivo da ansiedade, da irritação, ou até mesmo da felicidade vem à tona e, assim entende-se o porquê do equilíbrio ou desequilíbrio das emoções durante um determinado episódio.

Um aspecto que ajuda a desenvolver a inteligência emocional é viver no aqui e agora, o que garante a presença do segundo pilar que é a automotivação. Trata-se de encontrar estímulos dentro de nós para alcançarmos determinados objetivos, direcionados ao nosso propósito.

A automotivação direciona a energia a um propósito, o que garante o alcance de metas.  A automotivação é tudo, quando amamos aquilo que fazemos.  Por mais que determinadas emoções interfiram, o propósito nos ajuda a lidar com essas emoções.  Quem não tem um propósito sofre muito, porque não tem onde se apegar. Problemas todos temos, mas o problema é não ter propósito que gere a automotivação suficiente para lidar de forma positiva, até com as situações mais negativas e desafiadoras. O propósito unido à inteligência emocional ensina a dar valor para o que realmente tem valor.

Outro pilar destacado por Goleman é a sabedoria do relacionamento interpessoal. Trata-se de se ter boas relações, guiando as emoções dos outros. É saber lidar com tudo o que está à volta para ter uma melhor qualidade de vida e melhorar os relacionamentos mais próximos. Os gatilhos para os sequestros emocionais são mais fáceis de serem disparados quando se está com pessoas de nosso convívio, pois a guarda é baixada e o indesejado acontece. Com pessoas mais distantes, é mais fácil parar para pensar, estabelecer o equilíbrio e reagir de maneira diferente.  Atenção em tudo e em tempo integral é uma das maneiras para perceber quais gatilhos podem ser disparados sem que se faça nada para se proteger.

Mais um pilar a se construir é a empatia. É aprender a se colocar no lugar do outro, entender suas emoções, compreendendo os comportamentos, partilhando os estados emocionais, o que pode tornar o relacionamento mais aberto pela maior sensibilidade e abertura estabelecida.  

Às vezes falamos muito, mas entendemos pouco de empatia. Por que ficamos irritados com uma situação ou com uma pessoa? Porque essa pessoa é vista por nós com o nosso olhar e não com o olhar dela. Dificilmente nos colocamos no lugar da pessoa e indagamos o porquê do comportamento em determinada situação. Por não sentirmos empatia ficamos irritados, pensando somente na situação que nos desagrada e não em como a pessoa está se sentindo. A empatia é ter a sensibilidade de ouvir alguém na essência, é entender e vivenciar seus desconfortos e alegrias.

A irritação vem porque se fica no próprio lugar, apenas olhando a situação, o que torna o processo da empatia muito complicado e difícil de ser implementado. Normalmente, desse lugar, percebem-se apenas as necessidades de um dos lados e não as do outro. A beleza da empatia é quando se sente a dor do outro e se consegue equilibrar a própria dor para tomar a melhor decisão.

O último pilar é a capacidade de lidar com relacionamentos. A inteligência emocional pode ser desenvolvida se for prática. Esse pilar pode ser considerado a base mais complicada, porque quando se precisa lidar com outra pessoa é necessário se individualizar, saber o que é seu e o que é do outro.

Todos temos a tendência de misturar as falas, pensamentos e emoções, criando uma dificuldade enorme em separar o que é o seu pensamento e o que é o pensamento da outra pessoa, o que é sua emoção e o que é emoção da outra pessoa, trazendo para si o peso do que não é seu, ou responsabilidades que não lhe foram atribuídas. Um exemplo interessante: quando uma pessoa reclama pode estar reclamando de um produto, de um processo e não necessariamente de você.  A partir do momento que nos confundimos com as questões, é difícil sustentar a inteligência emocional.

Enfim, só consigo lidar bem com o outro quando consigo lidar bem comigo mesmo.

Então, depois dessas ideias, pode-se concluir, ainda que com poucos dados, sobre a importância da inteligência emocional. Isso nos leva ao desejo de conduzir nossas vidas por um caminho de maior maturidade, emoções mais alinhadas, com mais harmonia interna e externa. No entanto, é uma construção diária, onde acontecem acertos e erros. É uma caminhada que não é simples, é exigente, mas oferece grandes privilégios àqueles que conseguem fazê-la.

Profa. Dra. Fátima Motta, Sócia-Diretora da FM Consultores. É uma das colunistas do RH Pra Você. O conteúdo dessa coluna representa a opinião do colunista. Foto: Divulgação.

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