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Vicente Picarelli

Sócio-diretor da Picarelli Human Consulting. Foi sócio na Coppers&Lybrand, Arthur Andersen e Deloitte. Professor da Fundação Dom Cabral e FGV.

A cada dia o mundo fica mais complexo e incerto. Nada mais pode ser considerado como uma referência perfeita que guarde sentido com os acontecimentos. Mudar na mesma velocidade com que a realidade objetiva muda ainda é inimaginável, mas o hiato de tempo que as separam (causa e efeito) está diminuindo.

É possível ver uma aceleração crescente em todos os cenários sociais influenciando, profundamente, todos os campos e atividades da vida humana.

Um recorte específico dessa dinâmica pode ser percebido na pressão e urgência de soluções inovadoras nos modelos de negócios, que por não conseguirem mais atender os desafios do mercado, demandam novos atributos que devem estar presentes, não mais no conceito do próprio desenho organizacional e suas regras de funcionamento, mas nas pessoas que compõem suas estruturas e que podem trazer para a organização flexibilidade, capacidades cognitivas especiais, capacidades humanas duradouras, lideranças conscientes e sensibilidade cultural.

Tarefas, controles, execução, serviços, fluxo de informações, relatórios gerenciais, gestão de relacionamentos, tudo isso, e muito mais, já vem sendo encapsulado pela tecnologia que hoje, também, disponibiliza para as empresas sistemas que desenham cenários de negócios, usam inteligência artificial, facilitam a robotização, fazem análises de tendências, criam realidades aumentadas, além de oferecerem inúmeras técnicas inovadoras.

Uma estrutura anacrônica não consegue potencializar as oportunidades trazidas pela força da inovação; e o objetivo de trazer à tona o novo que quer emergir não é concretizado, frustrando assim a nova vida que poderia surgir.

Na esteira do avanço tecnológico, as organizações vêm incorporando, timidamente, em sua cultura organizacional a formação de times de trabalho, aproveitando o aprendizado do uso de metodologias ágeis que privilegiam a formação de equipes e a prototipagem de micro soluções. Este é um grande aprendizado que as organizações precisam manter vivo e incorporado na sua cultura.

Todos os esforços já empreendidos na melhoraria dos indicativos de papéis e responsabilidades, ou ainda no desenho de uma estrutura organizacional, podem e devem ser repensados. Não são só conhecimentos de processos ou gestão que importam, é também necessário considerar o tema complexidade que exige conhecimentos profundos de abordagens cientificas abrangentes que geram técnicas mais sofisticadas, presentes nos produtos que se quer desenvolver ou nas soluções que se quer entregar.

Ao mesmo tempo, é fundamental preparar líderes e colaboradores para lidar com as incertezas, equilibrando o trinômio pensar, sentir e querer por meio do desenvolvimento das suas capacidades humanas duradouras que direcionam a sua força psíquica para a realização de um trabalho inteligente, útil e de valor para quem o recebe.

Colocando de uma forma mais objetiva, uma organização que conhece sua missão e propósito e os comunica efetivamente aos seus profissionais deve pensar em uma estrutura organizacional onde sejam consideradas as seguintes dimensões de conhecimentos para atender a complexidade dos seus negócios e incerteza dos cenários econômicos e sociais:

1 – Habilidades

Domínio sobre os conhecimentos técnicos usados para a execução de tarefas na elaboração de produtos ou serviços e que ajudam a trabalhar em uma situação específica ou na transação de trabalho.

2 – Competências de Gestão

Conhecimentos atrelados ao uso correto e otimizado dos recursos empresariais tais como planejamento, organização, orçamento, visão de negócios, comunicação, perspicácia financeira, desenvolvimento de pessoas.

3 – Especialidade

Conhecimentos distintos e diferenciados, de alcance amplo e ao mesmo tempo profundo, que sustentam o desenvolvimento de técnicas e soluções muito sofisticadas, de natureza diversa, relacionadas à missão e propósito da organização e que, por exemplo, podem ser encontradas nas profissões de cientistas e pesquisadores como cientista social, cientista de dados, líder e mentor da transformação educacional, arquiteto e designer de investimentos produtivas, condutor da integração social entre muitos outros.

4 – Capacidades Humanas Duradouras

Atributos humanos observáveis que são demonstrados independentemente dos contextos, pois não estão vinculados a tarefas específicas, prazos ou resultados. Eles podem ser aplicados em situações ou necessidades emergentes: imaginação, empatia, curiosidade, resiliência, criatividade, inteligência emocional, pensamento adaptativo.

Evidentemente, toda e qualquer mudança no fundamento que sustenta a estrutura organizacional de uma empresa e o seu sistema de carreira demanda uma mudança de igual magnitude nos principais sistemas de gestão de pessoas, entre eles, uma atenção especial, ao de reconhecimento e recompensa.

As quatro dimensões de conhecimento mencionadas anteriormente podem ser pictoricamente representadas pela letra W, como já acontece em diversas organizações. Neste caso, cada “perna da letra” corresponde a uma escala de progressão profissional em determinada dimensão.

O acompanhamento do profissional pode ser realizado através de avaliações de desempenho, a partir do uso de seus conhecimentos na formação do resultado da organização, combinando habilidades, competências de gestão, especialidades e capacidades humanas duradouras.

A escala de avaliação pode ser desenvolvida atribuindo-se valores aos níveis de proficiência demonstrados pelo profissional em cada dimensão de conhecimento. Os valores finais posicionam o profissional no mapa de responsabilidade da empresa e definem sua recompensa, que pode ser financeira, não financeira, benefícios diferenciados ou uma combinação de todas elas.

Finalmente, é preciso considerar os resultados alcançados e as contribuições individuais e coletivas para o bem do empreendimento, podendo-se adicionar valores variáveis de curto ou longo prazos, dependendo do tempo em que os resultados são alcançados, bem como da abertura jurídica para a concessão de tais remunerações.

A avaliação do profissional e o acompanhamento da sua atuação também irá indicar o melhor programa para o seu desenvolvimento e crescimento na organização.

A formulação dos cálculos e definição das habilidades, competências, especialidades e capacidades humanas duradouras, assim como sua organização, seus valores relativos e harmonia com o sistema de reconhecimento e recompensa, bem como a sintonia com a missão e valores da organização, precisam ser discutidos e ampliados para se encontrar a solução que melhor atenda o momento do empreendimento e o impulsione na direção desejada.

Por Vicente Picarelli, sócio-diretor da Picarelli Human Consulting. É um dos colunistas do RH Pra Você. O conteúdo dessa coluna representa a opinião do colunista. Foto: Divulgação.


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