Durante muito tempo, a saúde mental foi tratada no ambiente corporativo como um tema periférico, normalmente restrito a benefícios opcionais ou ações pontuais. Esse cenário, no entanto, está em nítida mudança. Cada vez mais organizações compreendem que cuidar da saúde emocional das pessoas não é apenas uma questão de bem-estar, mas um fator estratégico para a sustentabilidade do negócio.
O Janeiro Branco, movimento dedicado à conscientização sobre saúde mental, surge como um convite para que empresas revisitem suas práticas e reflitam sobre o papel que exercem na vida das pessoas. Mais do que campanhas de comunicação, o desafio está em criar estruturas permanentes, com governança, indicadores e envolvimento real das lideranças. E, claro, com um RH incentivado e empoderado para encabeçar mudanças que, de fato, façam a diferença.
Um exemplo desse caminho é a criação de programas corporativos que tratam a saúde mental como pilar estratégico, um aspecto que vem regendo a estratégia da Sodexo nos últimos anos.
“Na Sodexo, a saúde mental é pilar fundamental da sustentabilidade do negócio e da experiência das pessoas”, afirma Vana Fiorini (capa), Diretora de Serviços de RH da marca. Segundo ela, esse movimento ganhou força quando a empresa passou a olhar para o ciclo completo de vida do colaborador, entendendo que bem-estar, engajamento e performance caminham juntos.
Saúde mental como agenda de liderança
Um ponto central dessa abordagem é não concentrar a responsabilidade apenas no RH. A governança do tema é compartilhada, com participação ativa da alta liderança e desdobramento no cotidiano das equipes. “Acreditamos que saúde mental não se sustenta apenas com programas, mas com uma cultura que valoriza escuta, respeito e responsabilidade coletiva”, diz Vana.
Na prática, isso significa preparar líderes para conversas sensíveis, estimular uma postura de acolhimento e reforçar, constantemente, que buscar ajuda não é sinal de fraqueza. Esse cuidado com a liderança é um dos fatores que ajudam a construir um ambiente de segurança psicológica, condição essencial para que as pessoas se sintam confortáveis em falar sobre dificuldades.
“A segurança psicológica é construída no cotidiano, e não apenas comunicada”, reforça a executiva. Capacitações contínuas em escuta ativa, empatia e gestão humanizada fazem parte desse processo, assim como uma comunicação clara sobre confidencialidade e não julgamento.
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Ações que saem do discurso
Entre as iniciativas implementadas estão ações de mobilização e letramento em saúde mental, rodas de conversa, grupos de acolhimento em situações críticas, formação de embaixadores internos e canais permanentes de apoio. O objetivo é oferecer diferentes portas de entrada para o cuidado, respeitando perfis e necessidades distintas.
A rede de embaixadores, por exemplo, é composta por colaboradores voluntários de diferentes áreas, capacitados para atuar como pontos de escuta e orientação inicial. “Eles não substituem profissionais especializados, mas exercem um papel fundamental de acolhimento, identificação de sinais de alerta e direcionamento para os canais adequados de apoio”, pontua a Diretora de RH, que explica em mais detalhes as ações:
- Mobilização: Foram realizados workshops, ações de letramento e orientações sobre saúde mental, impactando mais de mil colaboradores em quatro eventos anuais. Além disso, o programa contou com campanhas de e-mail marketing, materiais para conversas nas unidades e atingiu um NPS médio de 99.
- Rodas de Conversa: Espaços seguros para troca e escuta ativa, como os 11 grupos de acolhimento realizados após as enchentes no RS, com mais de 110 participantes. Destaca-se o NPS de 94% e o relato de melhora por 75% dos envolvidos após a ação.
- Embaixadores de Saúde Mental: Formação de mais de 50 colaboradores como embaixadores e socorristas, reforçando a rede de apoio interna.
- Teleterapia: Adesão acumulada de 20% dos colaboradores e evolução clínica de 44%, evidenciando o impacto positivo das ferramentas oferecidas.
- Canal de apoio 24h social, psicológico, financeiro, jurídico e nutricional: adesão de 2,5% mais de 200 casos atendidos no pilar de psicologia.
- A empresa passou a acompanhar os indicadores de forma recorrente, revisitando dados em fóruns estratégicos e ajustando as iniciativas conforme as necessidades identificadas. O entendimento é claro: diagnóstico sem acompanhamento não gera transformação.
No dia a dia, os relatos mais frequentes envolvem ansiedade, dificuldades de relacionamento, sensação de isolamento e desafios pessoais que acabam impactando o trabalho. Muitas vezes, o simples fato de ter alguém preparado para ouvir já representa um primeiro passo importante.
Dados como aliados da estratégia
Outra frente relevante é o uso de dados para orientar decisões. Pesquisas internas e censos de saúde mental ajudam a mapear tendências e prioridades.
“O que mais costuma surpreender a liderança é perceber como fatores organizacionais, como clareza de papéis, qualidade da liderança e equilíbrio entre vida pessoal e profissional, têm impacto direto na saúde mental das pessoas”, comenta Vana.
O cuidado, nesse processo, é tratar informações sensíveis de forma ética, com análises agregadas e preservação do anonimato. O foco não está em expor indivíduos, mas em identificar oportunidades de melhoria em processos, políticas e práticas de gestão.
Prevenção ainda é o maior desafio

Apesar dos avanços, ainda há temas pouco explorados no debate corporativo. Para a executiva de Recursos Humanos, um deles é a corresponsabilidade das organizações na promoção da saúde mental. “Muitas vezes, o debate se concentra apenas no indivíduo, quando, na realidade, fatores como cultura, estilo de liderança, carga de trabalho e clareza de expectativas têm um peso enorme.”
Outro ponto é a necessidade de olhar para o desenvolvimento emocional como competência essencial para o futuro do trabalho. Cuidar da saúde mental não é apenas tratar adoecimentos, mas criar condições para que as pessoas se desenvolvam de forma integral.
O Janeiro Branco reforça que não existe fórmula única, mas alguns princípios parecem comuns às organizações que avançam nessa agenda: visão de longo prazo, envolvimento da liderança, ações integradas, escuta ativa e uso responsável de dados.
Mais do que perguntar “que benefício oferecer?”, talvez a reflexão mais importante seja: que tipo de ambiente estamos construindo diariamente? “Cuidar da saúde mental não é uma ação isolada, é uma escolha estratégica. E escolhas estratégicas moldam culturas, relações e resultados”, finaliza Vana.