Em novembro , São Paulo recebeu mais uma edição do RD Summit, um dos principais eventos de marketing, vendas e inovação do país. O RH Pra Você acompanhou de perto algumas das palestras, como a de Ricardo Cappra, filósofo e Cientista-Chefe do Cappra Institute. O pesquisador provocou o público a repensar a forma como lidamos com informação, inteligência artificial e tomada de decisão no ambiente organizacional.

Ao longo de sua fala, Cappra conectou conceitos como paralisia decisória, cultura analítica, inteligência artificial generativa e interdependência humano-dado-máquina, trazendo reflexões que extrapolam o marketing e impactam diretamente o papel do RH na construção de organizações mais conscientes.

Excesso de informação e a crise da atenção

Logo no início da palestra, o filósofo chamou atenção para um paradoxo contemporâneo: nunca tivemos tanto acesso à informação e, ao mesmo tempo, nunca estivemos tão pobres de atenção. Segundo ele, esse cenário afeta não apenas consumidores, mas também profissionais que tomam decisões diariamente.

“Nesse mundo que tem tanta informação, essa riqueza está criando uma pobreza de atenção. A gente está vivendo uma crise de atenção, e isso está nos travando no processo decisório”, afirmou.

Esse fenômeno é conhecido como paralisia decisória, conceito explorado por Daniel Kahneman, prêmio Nobel de Economia. Em ambientes hiperconectados e hiperinformados, o excesso de estímulos dificulta escolhas claras, aumenta vieses cognitivos e gera insegurança, um desafio cada vez mais presente dentro das organizações.

Outro ponto central da apresentação foi o alerta sobre o desequilíbrio entre dados e narrativas. Para Cappra, toda informação é composta por esses dois elementos, mas quando a narrativa pesa mais do que os dados, o risco de distorção da realidade aumenta. “Quando a história narrativa é maior do que os dados que estão por trás, a gente vai ter fake news, distorção de realidade e até máquinas alucinando”, explicou.

Ao mesmo tempo, ele fez questão de destacar que ser “data-driven” não significa eliminar narrativas. Dados fora de contexto também podem ser usados para sustentar versões equivocadas da realidade. O desafio, portanto, está no equilíbrio, o que exige pensamento analítico e pensamento crítico caminhando juntos.

Nesse contexto, o palestrante defendeu a urgência do desenvolvimento do pensamento analítico, entendido não apenas como domínio técnico de dados, mas como uma forma de raciocinar de maneira lógica, questionadora e consciente.

“Pensamento analítico significa pensamento computacional, pensamento crítico e a capacidade de perguntar o que está por trás da informação que a gente recebe”, destacou.

Para o RH, esse ponto é especialmente relevante: formar profissionais capazes de interpretar informações, questionar indicadores e compreender vieses passa a ser uma competência estratégica, sobretudo em ambientes cada vez mais orientados por métricas, dashboards e sistemas automatizados.

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A chegada da inteligência artificial e o conceito de multiagentes

Ao avançar na discussão, o pesquisador mostrou como a IA mudou radicalmente nossa relação com a informação. O que antes exigia conhecimento técnico hoje está acessível a qualquer pessoa por meio de interfaces simples e linguagem natural.

Esse movimento deu origem ao que ele chama de organizações orientadas por inteligência artificial, nas quais decisões são tomadas por humanos e por agentes artificiais simultaneamente.

“A gente estabeleceu um conceito de agência para o ser humano e agora tem um segundo nível de agência, que é uma agência artificial convivendo com a gente”, afirmou.

Ricardo Cappra foi uma das atrações do RD Summit 2025

No Cappra Institute, por exemplo, pesquisadores utilizam diversos agentes artificiais para tarefas específicas, o que exige uma nova lógica de gestão, responsabilidade e governança.

Na sequência do papo, Ricardo Cappra alertou a respeito da responsabilidade sobre as decisões tomadas por agentes artificiais. Mesmo quando uma ação é automatizada, a responsabilidade continua sendo humana, um ponto que muitas organizações ainda não internalizaram.

“A responsabilidade de uma pesquisa ruim gerada por um agente artificial é da empresa. O humano que treina o agente é responsável pela falha do agente”, pontuou.

Esse cenário expõe uma lacuna crítica: enquanto processos rigorosos existem para contratar pessoas, agentes artificiais muitas vezes são implementados sem passar por critérios éticos, culturais ou de governança, um espaço onde o RH pode (e deve) atuar de forma mais ativa.

Seres híbridos e a interdependência humano-dado-máquina

Ao final, Cappra apresentou o conceito de seres híbridos, tema de seu novo livro. Segundo ele, já não é possível separar claramente onde termina a cognição humana e onde começa a da máquina.

“A gente vive uma interdependência humano-dado-máquina. Não dá mais para separar o que é da IA e o que é do humano. Está tudo misturado”, salientou.

Essa consciência, segundo o filósofo, é essencial para que profissionais e organizações não se tornem apenas dependentes da tecnologia, mas consigam utilizá-la de forma crítica, ética e orientada ao bem-estar.

Ele destacou, ainda, que o maior desafio das empresas não está na tecnologia em si, mas na cultura analítica. Uma cultura capaz de integrar dados, inteligência artificial e pessoas de forma saudável, consciente e responsável.

“A cultura analítica é quando a organização consegue conviver com três inteligências: a analítica, a aplicada e a artificial. E isso exige uma camada cultural diferente”, concluiu.