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Há uma frase do saudoso ex-piloto de Fórmula 1, Ayrton Senna, na qual ele diz que “uma maneira de preservar sua própria imagem é não deixar que o mundo invada sua casa”. Hoje, a privacidade se tornou um dos assuntos mais discutidos – e polemizados. Afinal, o quanto, hoje, nós conseguimos manter a nossa? E o quanto a privacidade é algo “real” em ambiente corporativo?

O modelo de trabalho a distância não é necessariamente uma novidade. Porém, foi com a pandemia que o home office e o teletrabalho tiveram um verdadeiro “boom”, o que naturalmente faz com que seja necessário um período de adaptação à prática por parte de líderes e colaboradores. 

Contudo, tal adaptação não se resume somente ao cumprimento de tarefas e ao ritmo de produtividade, mas também ao acompanhamento da jornada de trabalho do empregado. E é nesse ponto que muitos gestores podem estar, talvez, pecando pelo excesso.

Monitorar ou controlar?

Em ambiente empresarial, muitos profissionais estão acostumados com a utilização de câmeras e outros mecanismos de monitoramento, tanto por questão de segurança presencial quanto digital. É até natural que haja uma “vigia” e que, para determinadas situações, a liderança fique mais próxima do que os colaboradores estão fazendo, em questão de acompanhamento. Porém, e quando o trabalho é fora da empresa?

Nos últimos meses, alguns relatos curiosos foram compartilhados no LinkedIn. Alguns deles falam sobre a implantação de softwares “espiões”, ferramentas que capturam tela e mostram quais telas estão sendo visitadas. Alguns medem os e-mails que foram enviados e até mesmo a contagem de cliques e rolagens no mouse. Outra situação de exemplo para o novo ritmo de monitoramento é a exigência para que o colaborador passe todo o expediente com uma câmera ligada.

De acordo com Thiago Balieiro, Head de RH do Grupo Sorte Online, situações como as exemplificadas extrapolam as chamadas “boas práticas de liderança” e tendem a ter consequências mais negativas do que positivas.

“A pandemia ‘obrigou’ muitas empresas a abrirem mão do principal e mais prejudicial paradigma da liderança: o controle. Existe uma diferença entre controle e gestão. O controle é uma ilusão, você não consegue controlar tudo o que as pessoas fazem. Já a gestão é o entendimento do que está sendo feito, como e por qual razão. Quando o líder faz a gestão do projeto e das pessoas, a relação é mais funcional. Você se concentra nos processos que realmente importam. Imagine você estar em uma ‘sala de vídeos’ monitorando as pessoas em casa, tendo que estar a par até da ida delas ao banheiro. É um modelo de gestão que não funciona”, diz.

Para Thiago Balieiro, uma boa gestão não deve ser pautada pelo controle

Para Balieiro, a falha no processo não se limita ao home office. O excesso é prejudicial também no presencial. O especialista esclarece que a dinâmica profissional está mudando, uma vez que as pessoas buscam uma rotina de trabalho mais flexível. Portanto, as lideranças precisam ter uma nova postura e ser treinadas para lidar com modelos mais inovadores e disruptivos de trabalho.

“O que mudou hoje no mercado não volta mais. Os modelos que ganharam força na pandemia vão continuar. Então, preciso olhar para o que está sendo produzido e como as pessoas estão se sentindo enquanto produzem. Dentro do Sorte Online, por exemplo, há um ambiente virtual controlado do ponto de vista de acessos, mas é devido à segurança da informação. Com a LGPD todos os negócios precisam cuidar do seu ambiente cibernético. E o nosso controle não cruza essa linha. O trabalho é desenvolvido em torno de uma gestão. A vigilância precisa cuidar de pontos que são efetivamente estratégicos”.

Na Sorte Online há um trabalho voltado ao engajamento e aos cuidados com a saúde da equipe de trabalho. Entre as políticas e processos internos que estão sendo desenvolvidas para lidar melhor com o home office e a saúde mental dos colaboradores estão: o conceito de “anywhere office”, em que você pode trabalhar de onde quiser, inclusive do escritório; a política de feedback baseada em desenvolvimento pessoal e profissional; definição clara de objetivos da empresa para todos os colaboradores (OKRs).e o envolvimento de todos da empresa na participação de resultados. 

A linha do bom senso

Em tempos de Big Brother Brasil (BBB), é inevitável que a questão do monitoramento entre em pauta. No reality, um grupo de participantes tem cada passo vigiado por inúmeras câmeras durante 24 horas por dia. E qualquer pessoa que faça parte do público do programa pode, a qualquer momento, acompanhar o que os integrantes da “casa mais vigiada do Brasil” estão fazendo.

Nas empresas, o monitoramento não é tão contínuo quanto em um BBB, mas não necessariamente se limita ao horário de trabalho e tampouco a plataformas exclusivamente corporativas. As redes sociais, por exemplo, oferecem a líderes e empregados a oportunidade de se “vigiarem” a qualquer momento. E para muitas empresas, o espaço, mesmo que pessoal, pode impactar em ações do negócio, que vão desde o processo de recrutamento até eventuais desligamentos.

Para Henrique Costa, CEO da Accell, o monitoramento das redes sociais não deve ser um dogma a ser seguido, uma vez que a gestão de um negócio tem outras prioridades, mas nada impede que ela seja um ponto de análise que justifique a tomada de decisões.

“Nós frequentemente colocamos em pauta o que a empresa está fazendo, mas também é preciso se atentar ao que o funcionário está fazendo. Na pandemia, por exemplo, nós temos um protocolo muito sério para cuidar da saúde dos nossos colaboradores. Mas de que adiantaria nós construirmos toda uma estrutura e um plano de segurança, se ao sair da empresa o colaborador fosse direto para uma festa, para uma aglomeração?”

Segundo o autor do livro “Eu: Líder contemporâneo de alta performance”, é importante trabalhar a autoconsciência e a autorresponsabilidade dos colaboradores. Diante de uma pandemia, a segurança não é um processo de mão única e depende de igual atenção de todas as partes envolvidas. 

“Estou a par de casos de pessoas que alegam não poder comparecer presencialmente ao trabalho por questão de medo, de insegurança, mas que no final de semana se reúnem em praias, festas e postam as fotos em suas redes sociais. E esse comportamento não pode ser ignorado. Não há perseguição por parte das organizações. Se a pessoa expõe algo nas redes sociais é porque ela quer ser vista e, consequentemente, pode ser vista por algum colega de trabalho”, explica o executivo.

Segundo Henrique, as redes sociais precisam ser geridas com cautela e responsabilidade, mesmo que sejam de uso pessoal

Por contar com os colaboradores em modelo presencial de trabalho, na empresa todos os funcionários tem sua temperatura aferida logo na entrada. E se der acima de 36ºC, o colaborador é transferido para a enfermaria que solicita o teste de covid-19 e faz os encaminhamentos necessários. Os grupos de risco estão em home office. E se algum funcionário apresentar qualquer problema de pânico, depressão, ou algo parecido devido a pandemia, é acionado o médico para atendimento individual, e se caso for preciso é encaminhado ao psicólogo.

Já no caso do home office, Costa salienta que por mais que o home office seja solução para a realidade de muitas empresas durante o período pandêmico, não se pode simplesmente colocar as pessoas para trabalhar de casa. O CEO reforça que é necessário treiná-las e educá-las para a prática. “Nós ainda não temos uma cultura para o home office. Ela está sendo criada. Ainda não temos total disciplina e completa aptidão para trabalhar com ele”.

O que diz a lei

De acordo com a advogada trabalhista Larissa Martins, embora práticas de monitoramento não necessariamente sejam proibidas, ainda assim é necessário que alguns cuidados sejam tomados.

“Muito por conta dos softwares de monitoramento ou de uma rede privada criada pela empresa, se questiona se as implantações podem ser feitas somente em computadores que pertencem à empresa ou se também podem estar em máquinas pessoais. A resposta é que, legalmente falando, a empresa pode fazer tal monitoramento mesmo em equipamentos que sejam do próprio colaborador. O que é veementemente proibido é monitorar dados e informações de uso pessoal, assim como divulgá-los”, explica.

Não é só com relação ao home office que é preciso ter atenção. Larissa orienta que, segundo a Constituição “são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação”, portanto, mesmo em ambiente corporativo, o que diz respeito à intimidade ou à privacidade do colaborador deve ser respeitado.

“Você pode usar câmeras, mas não em banheiros ou vestiários. Pode monitorar ligações, mensagens, downloads e qualquer forma de uso de um celular corporativo, mas não do aparelho pessoal. Sobre e-mails corporativos, a mesma lógica. Por mais que, talvez, exista um login com o nome da pessoa e ela própria possa definir a senha, o e-mail corporativo é de propriedade da empresa, por tanto não deve ser usado para fins pessoais. Mas a maior e mais segura recomendação é que toda forma de monitoramento seja previamente informada. Evite pegar os colaboradores de surpresa, além de desagradável, pode prejudicar a moral de todo o time. E deixe os limites alinhados com a sua equipe”, finaliza.

Por Bruno Piai


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