Desde cedo, as mulheres são socializadas para assumir o papel de cuidadoras, ouvindo que a maternidade é uma vocação natural e um compromisso inquestionável. Já os homens, muitas vezes, não são cobrados de maneira proporcional em relação à paternidade, sendo vistos como provedores financeiros, não necessariamente como responsáveis pelo cuidado cotidiano dos filhos e outros entes da família. A legislação atual perpetua essa perspectiva e os dados confirmam essa realidade. 

Um estudo recente da Diversitera, consultoria de pesquisas, realizado com mais de 90 mil profissionais do trabalho formal em todo o Brasil, revela que as mulheres dedicam, em média, 186 horas anuais a mais do que os homens nos afazeres domésticos e cuidados com a família. No caso daquelas que escolhem maternar, a chegada de um filho, sem o apoio de uma licença-paternidade estendida, intensifica drasticamente essa disparidade.

Para Ana Paula Hining, especialista em Gênero na Diversitera, a conexão entre a curta licença para os pais e a sobrecarga feminina é direta.

"A necessidade de divisão do trabalho doméstico e de cuidado é uma pauta urgente para a equidade de gênero. A ausência do pai em casa nos primeiros meses de vida do bebê, institucionalizada pela cultura da curta licença paternidade, consolida a mulher no papel de cuidadora principal. Isso cria uma 'penalidade pela maternidade' que a acompanha por toda a sua trajetória profissional, dificultando promoções, negociações salariais e até mesmo sua permanência no mercado", diz.

Consequências da licença-paternidade curta para mulheres 

Uma vez que os filhos e membros da família passam a ser prioridade, os estudos e a vida profissional ficam em segundo plano. Para as que deixam o mercado para dedicação exclusiva, o retorno é duro: preteridas, acabam sendo absorvidas em posições mais baixas e salários menores. Os efeitos dessa sobrecarga são visíveis nos indicadores de carreira. 

De acordo com os dados da Diversitera, além do trabalho de cuidado não remunerado, mulheres enfrentam um cenário de explícita desvantagem profissional no mercado formal:

  • Menos promoções: mulheres recebem 20% menos promoções em relação aos homens.
  • Disparidade salarial: a diferença de renda média entre mulheres e homens é de -25%. Mesmo quando ocupam os mesmos cargos, elas ainda ganham 21% a menos.
  • Baixa representação em cargos de alta liderança: a presença feminina em cargos de alta liderança (diretoria, c-level) é de apenas 35%.
  • Vulnerabilidade das mães solo: a situação é ainda mais crítica para mães solo, que apresentam uma renda média 32% inferior à de outras mulheres.

Sync 2025

Legislação e o papel paterno

Atualmente a legislação brasileira permite a licença-paternidade estendida, de 15 dias adicionais, apenas para funcionários de empresas inscritas no Programa Empresa Cidadã, um número ainda insuficiente se observarmos o universo de CNPJs ativos no Brasil. O Projeto de Lei "Pai Presente", que tramita no Senado, propõe a ampliação do benefício por até 60 dias e é visto como um passo importante para mudar esse cenário.

Para Maurício Nisiyama, especialista em paternidade e cofundador da Diversitera, e pai do Marcelo, a questão vai além de um benefício trabalhista exclusivo das mulheres, tratando-se do reconhecimento do papel social de todos os agentes familiares no desenvolvimento de uma criança, que é também cidadã e, portanto, sujeito de direitos. 

"O Brasil precisa entender que licença é um direito de presença que deve ser garantido a todos os cuidadores legais de uma criança. Às empresas, trata-se do cumprimento de um pressuposto constitucional: o de assegurar às crianças tratamento de absoluta prioridade pela família, sociedade e Estado."

Para além da Licença-Paternidade, o modelo Parental Neutro

A ampliação da licença para os pais é um avanço indiscutível e necessário. Mas, se o objetivo final é de fato socializar o cuidado e romper com papéis de gênero, por que parar aí? A discussão pode e deve evoluir para um modelo que abrace a diversidade de todas as configurações familiares: a licença parental neutra. Essa abordagem, já adotada em países como a Suécia, não faz distinção de gênero e permite que o tempo de cuidado seja distribuído entre os responsáveis legais pela criança.

"A licença parental neutra diz respeito a uma premissa de socialização dos cuidados, que não ficam mais circunscritos apenas às mães, mas a todas as pessoas cuidadoras, desde que legalmente responsáveis pela criança", explica Maurício.

Para as empresas que buscam se posicionar como verdadeiramente inclusivas, adotar políticas de licença parental equitativas é uma decisão estratégica que fortalece a marca empregadora, retém talentos e promove um ambiente de trabalho mais humano e justo para todos.