O fantasma da demissão assombra todo profissional, inclusive os executivos. De acordo com uma pesquisa feita pelo grupo estrangeiro MPS com mil gestores, pelo menos um terço deles já passou por esse momento tão delicado na carreira. Entre os motivos listados estão fatores internos e externos, como a obtenção de resultados abaixo do esperado, mudança do CEO, recessão nos negócios e abusos emocionais.

No entanto, o desafio seguinte está ligado à busca de uma nova oportunidade: como explicar os motivos do desligamento para os headhunters e as empresas envolvidas nos processos seletivos?

Marcus Giorgi, sócio da EXEC, empresa especializada na seleção e desenvolvimento de altos executivos e conselheiros, afirma que nenhum profissional está livre de vivenciar essa situação e que o headhunter precisa entender qual é o contexto da saída ao entrevistar um candidato que passou por isso.

“Esses desligamentos acontecem com frequência, pois quanto maior o cargo, maior a cobrança, a pressão, algo que acontece principalmente em empresas muito orientadas por resultados”, diz.

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Um dos cenários que podem influenciar na demissão de um executivo é a troca do alto comando da empresa ou quando há algum M&A. “É algo que está fora do controle e o profissional fica sem margem de manobra. Tanto na troca do presidente quanto em um processo de fusão e aquisição, chegam novos gestores que, tradicionalmente, trazem seus líderes de confiança, mais afinados com sua cultura e com a da empresa que passa a ser a nova ‘dona’ do negócio. E muita gente acaba perdendo o emprego nessa hora. Ninguém está 100% blindado desse tipo de ocorrência”, explica Giorgi. 

Outra situação que pode gerar a saída involuntária de um executivo é a ocorrência de algum problema de compliance. “Ele pode ter tido algum desvio de conduta que vai contra as regras da empresa. Ou até mesmo estar sentado no ‘lugar errado na hora errada’, ou seja, pode ter sido vítima de um desligamento em massa de uma organização que está envolvida em algum escândalo econômico ou político, por exemplo, mas não ter nenhuma ligação direta com a situação”, ressalta o sócio da EXEC.

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Compromisso com a verdade 

Giorgi é categórico: nessa hora – e em qualquer outra que envolva a necessidade de explicar uma demissão – é preciso ter um compromisso com a verdade, por mais difícil que seja. “Normalmente, quando o caso é mais delicado, há uma certa resistência por parte do executivo em abrir o jogo. Ele tende a amenizar os motivos da saída, dizendo que foi algo definido em comum acordo, não assumindo o seu lado na história. Isso é prejudicial, pois uma hora a verdade vem à tona”.

O sócio da EXEC conta que ele busca entender do candidato os motivos que levaram à sua demissão. “Além de ouvi-lo, busco referências com pares e ex-liderados, e converso com elas para entender um pouco mais sobre o executivo e o que ele passou. Eu preciso trazer os reais subsídios para a organização, que também do seu lado levanta dados sobre o possível contratado, já que ele vai ocupar um cargo importante”.

Por isso, de acordo com Giorgi, é importante que o candidato tenha um discurso muito bem-preparado sobre a saída da última companhia. “Ele precisa ser transparente, pois, muitas vezes, o desligamento ocorreu por uma estratégia que ele adotou que não deu certo. E não há problema algum em admitir isso, muito pelo contrário. É nobre da parte dele e é visto como uma virtude e uma atitude de um profissional que mostra maturidade e senioridade. Há empregadores que vão gostar disso, pois sabem que ele não vai cometer mais esse tipo de erro”.

Resiliência e inteligência emocional

Ao vivenciar uma demissão conturbada por problemas de compliance, por exemplo, Marcus aconselha os executivos a repensarem os rumos da carreira e buscarem novos ares. “Quando ele esteve envolvido em algum tipo de escândalo, a situação é bastante delicada. Dificilmente, a empresa não vai questioná-lo sobre isso. Para ele não entrar em uma lista negativa, vale a pena ele esperar baixar a poeira e pensar em trabalhar em outro segmento, que não denigra a sua carreira”.

E quando eles estão em uma entrevista, Giorgi aconselha que, quando chegar a pergunta sobre o desligamento, que o executivo nunca fale mal do antigo empregador. “Nessa hora é preciso mostrar resiliência e inteligência emocional, relatando somente os fatos ocorridos. Um comportamento desses diz muito sobre a pessoa e, dependendo do que ele falar, pode prejudicar a carreira dele”.

Demissão é algo que faz parte da vida. O desafio é estar 100% preparado na hora que ela bate na porta, seja pelo motivo que for. Ninguém está.

Por Redação