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Informação, interações, diversidade. Isso nos inspira. O conhecimento e a troca de vivências entre empresas e profissionais movem o RH.

Nos últimos anos, questões como a diversidade & inclusão começaram a ter maior destaque no mercado de trabalho. Seja pelas novas exigências dos mais variados perfis de público ou pelo estabelecimento de uma cultura organizacional inclusiva, diversas empresas abraçam as diferenças para montar times com as mais variadas características.

Porém, do mesmo modo que é importante compreender que diversidade e inclusão não são sinônimos e na prática um depende do outro para funcionar de forma efetiva, é igualmente necessário ter em mente que, dentro dos conceitos, enquanto alguns públicos conquistam maior espaço dentro das organizações, outros ainda dependem de mais ações e iniciativas. Um exemplo são as pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA).

No Brasil, é estimado que existam 2 milhões de pessoas autistas, dentro de um total de 70 milhões ao redor do planeta. E os números locais não são animadores nem quando falamos de mercado de trabalho e tampouco no que diz respeito à saúde e ao bem-estar do público citado. 

Em 2019, pelo menos 85% dos adultos no espectro autista terminaram o ano desempregados (80%, no mundo, em relatório de 2020 da Organização Mundial da Saúde – OMS). Além disso, em artigo, a fundadora da Gestão Kairós, Liliane Rocha, nos recorda que 70% das pessoas diagnosticadas com o TEA sofrem de ansiedade ou depressão.

De que modo as empresas podem incluir pessoas autistas?

Estudos apontam que a prevalência do autismo no Brasil pode chegar a 1 em cada 59 pessoas, mas, muitas vezes, os adultos ficam “invisíveis” por não terem sido avaliados corretamente. Vale destacar, por exemplo, o caso do ator norte-americano Anthony Hopkins, vencedor do Oscar em 2021. O astro das telas somente foi diagnosticado com autismo quando já havia chegado à terceira idade.

“É muito comum autistas terem passado boa parte da vida como esquizofrênicos, por exemplo”, diz o geriatra Marcelo Altona, do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, e coordenador do Programa de Envelhecimento do Instituto Serendipidade, que atua com inclusão de pessoas com deficiência intelectual na sociedade. Quando conseguem chegar ao mercado de trabalho, as pessoas autistas encontram várias dificuldades que poderiam ser evitadas se as empresas fizessem pequenas modificações.

Segundo a neuropsicóloga Joana Portolese, da Faculdade de Medicina da USP, estudos apontam que apenas entre 10% e 20% dos autistas considerados leves chegam ao mercado de trabalho ou à universidade. E, quando conseguem, encontram ambientes inadequados. “Eles podem apresentar sensibilidade à luz ou ao barulho. É preciso fornecer meios para que se sintam mais confortáveis”, diz ela citando o uso de fone de ouvido ou até mesmo a realocação do autista no espaço físico para deixá-lo em um local com menor movimentação de pessoas. Joana destaca que, em diversos aspectos, pessoas com autismo podem ser mais eficientes em certas funções do que pessoas fora do espectro.

“Com a propensão ao hiperfoco (estado de concentração intensa), eles respondem muito bem quando têm um planejamento. São excelentes executores quando recebem um roteiro”, diz Joana, frisando ainda que metas a curto prazo também são bem-vindas.

No caso do trabalho remoto, é válido destacar como em alguns casos a família pode ter uma participação importante para que o profissional autista tenha espaço e ambiente que o auxiliem a desempenhar suas tarefas. É um trabalho conjunto entre família e gestores para que se encontre os melhores caminhos para potencializar a produtividade a distância.

Estimular a autonomia do adulto autista também é fundamental, diz a neuropsicóloga. “Quanto mais os adultos conseguem sair sozinhos, dirigir, ir à farmácia ou ao mercado sem acompanhamento, mais fácil se resolvem nas relações pessoais, que são um ponto de dificuldade, já que os autistas não são bons na leitura social”.

Diversidade e apoio

Para Rosane Lowenthal, Professora da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, é muito importante que os líderes e gestores enxerguem a diversidade que existe entre os autistas adultos.

“Alguns gostam muito de detalhes. É importante que o empregador saiba disso, que dê tarefas de classificação, de elaboração de planilhas. Ela lembra que também é necessário dar o tempo necessário para eles se organizarem. “Às vezes, a pessoa autista precisa falar sozinha, precisa ir a algum lugar sem pessoas ao redor”. Ela diz ainda ser preciso intervir na habilidade social, mas frisa que não há um manual. “Tem que ter apoio, oferecer uma intervenção individualizada, não pode falar ‘você age assim ou assado’, cada caso é diferente”.

CEO da Specialisterne, empresa social que intermedia a contratação de pessoas com TEA, Marcelo Vitoriano diz que empregar alguém com o transtorno tem vantagens em várias frentes. “A primeira delas é que a empresa verdadeiramente valoriza a diversidade e inclusão e abre oportunidades para pessoas com diferentes características. Boa parte das pessoas autistas possuem alta concentração nas atividades, raciocínio lógico apurado, são detalhistas e metódicos e podem trazer soluções inovadoras”.

Marcelo diz que a principal iniciativa para uma inclusão com qualidade é a adaptação dos processos de recrutamento e seleção. Não é possível ter uma seleção onde a pessoa seja “reprovada por dinâmicas de grupos ou porque não conseguiu olhar para os olhos do entrevistador”, diz, recomendando ainda que seja dada muita informação para as empresas sobre a realidade das pessoas com autismo e suas características, pois isso facilita o acolhimento adequado.

Diagnosticado com TEA quando criança, Marcos Petry, que hoje tem um canal no YouTube intitulado Diário de um Autista e capacita professores para atender crianças com o diagnóstico, acrescenta ainda uma outra lição: “É importante se aproximar do indivíduo autista, e não do autismo no indivíduo”, diz.

Trabalho que começa desde cedo com a criança no espectro autista

Muitas vezes, a pessoa com o Transtorno do Espectro Autista deixa de ter o seu potencial lapidado pois os pais não têm total compreensão de como lidar com a situação. Não é incomum que crianças autistas sejam retiradas da escola ou não tenham o devido incentivo para desenvolver um talento ou se preparar para uma profissão.

Bárbara Calmeto, neuropsicóloga especializada no atendimento de crianças e adultos com TEA, explica que “o desenvolvimento infantil é uma fase de muitos desafios para todas as crianças, inclusive na fase da adolescência. Para adolescentes com TEA mais ainda porque as demandas sociais são maiores e o bullying começa a acontecer. Para minimizar os danos, é importante buscar uma rede de apoio empática e tolerante com amigos e familiares de amigos que consigam compreender e lidar com as necessidades específicas desse jovem. Além disso, o adolescente deve treinar em suas terapias estratégias de habilidades sociais e vida funcional para que tenha sucesso nas atividades diárias”.

A especialista esclarece que, uma das mais conhecidas características de pessoas autistas é a dificuldade para lidar com mudanças, é preciso, primeiro, não generalizar, e segundo levar informações aos pais e incentivá-los a preparar as crianças para lidar melhor com as mudanças.

“Nem toda criança com autismo tem problemas de lidar com mudanças, mas é um dos sintomas de pessoas que estão dentro do Transtorno do Espectro Autista. Normalmente, o mundo é algo confuso de ser entendido para essas pessoas e a rotina traz uma previsibilidade que ocasiona conforto. Por isso, manter certos rituais é uma estratégia para garantir que a criança com autismo funcione regulada nas atividades que precisa executar. Os pais podem preparar as crianças [para lidar melhor com mudanças na vida adulta] através da estimulação prática de flexibilizações no cotidiano, desde variar o elevador que entra até imprevistos do dia a dia. E usar pistas visuais para ajudar na previsibilidade do que vai acontecer. É importante também observar o que acalma (autorregula) a criança e usar em situações necessárias. Podemos usar slimes, spinners, bolinha de sabão, massagens de pressão, bexiga, etc.”, finaliza a especialista.

Por Bruno Piai


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