Sentir que não merece as próprias conquistas. Achar que um dia será “descoberto” como uma fraude, mesmo com resultados e reconhecimento evidentes. Esse é o retrato da síndrome do impostor, que afeta profissionais em diferentes áreas e momentos da vida.

Embora não seja considerada uma doença formal pelos manuais médicos, a condição já é reconhecida pela psicologia como um dos fatores que mais abalam a saúde mental no trabalho e na vida acadêmica.

Um fenômeno global e crescente

Estudos apontam que até 70% das pessoas já experimentaram a sensação em algum momento da vida. Pesquisas internacionais mostram prevalência que varia de 9% a 82%, dependendo do público e da metodologia analisada.

No setor de tecnologia, por exemplo, um levantamento com engenheiros de software revelou que 52,7% sofrem com sintomas frequentes da síndrome. O dado expõe também desigualdades: entre mulheres, a taxa sobe para 60,6%, enquanto entre homens fica em 48,8%.

No Brasil, a questão ganha contornos ainda mais fortes. Um estudo da KPMG revelou que três em cada quatro executivas (75%) já enfrentaram a síndrome do impostor no ambiente de trabalho. Muitas relatam que a insegurança é ainda maior quando assumem cargos de liderança: 57% disseram ter sentido isso ao chegar a posições de gestão.

Desenvolvimento da Inteligência Emocional

Impactos reais da síndrome do impostor na vida e na carreira

Mais do que uma insegurança passageira, a síndrome do impostor está associada a estresse elevado, queda de produtividade, esgotamento profissional e até depressão. Pesquisas em contextos acadêmicos e médicos mostram que a sensação de “não ser bom o bastante” pode levar a quadros de ansiedade e burnout, especialmente em fases de transição, como a entrada em estágios ou o início de uma nova função no trabalho.

No Brasil, especialistas da USP também relacionam o crescimento desses sentimentos ao uso intensivo das redes sociais. A exposição a comparações constantes, sejam elas de estilo de vida, carreira ou aparência, alimenta a percepção de inadequação, em especial entre as gerações mais jovens.

Diante da prevalência da condição, como neutralizá-la? De acordo com o psicólogo e especialista em comportamento organizacional Wanderley Cintra Jr., é possível enfrentar esses gatilhos por meio de um método prático que ajuda a recuperar a confiança e desenvolver uma relação mais saudável com a própria trajetória profissional.

  1. Mapeie seus momentos críticos

Sabe aquelas situações específicas que disparam a insegurança? Elas podem acontecer durante reuniões com a liderança, ao receber elogios ou ao se comparar com colegas mais experientes. “O primeiro passo é fazer um registro semanal desses episódios para identificar padrões comportamentais e entender quando a síndrome costuma aparecer com mais força”, comenta. 

  1. Separe o fato da ficção

A mente tende a distorcer a realidade quando estamos sob o efeito da síndrome do impostor. “Liste evidências concretas tanto de suas competências (feedbacks positivos, promoções, projetos bem-sucedidos) quanto de supostas ‘provas’ de incompetência. Na maioria dos casos, a pessoa descobre que os fatos contradizem radicalmente suas inseguranças, revelando o caráter ilusório desses pensamentos negativos”, destaca Cintra Jr. 

  1. Invista em uma rede de apoio confiável

Mentores, colegas de confiança ou até grupos de desenvolvimento profissional podem funcionar como “espelhos realistas”.

“Ouvir feedback sincero e construtivo de pessoas que reconhecem suas habilidades é um dos caminhos mais eficazes para dissolver a sensação de impostor”. 

  1. Ressignifique situações

Reenquadre pensamentos automáticos que alimentam o ciclo do impostorismo. Substitua frases como “Só deu certo por sorte” por “Me preparei para isso”, ou “Eles vão perceber que não sei” por “Tenho direito a aprender”. “Técnicas simples, como colocar lembretes visuais com afirmações positivas no local de trabalho ou criar um arquivo de conquistas, podem reforçar essa mudança de mentalidade a longo prazo”, pontua o especialista. 

  1. Crie um “antídoto”

Desenvolva rituais específicos para cada gatilho identificado, por exemplo, exercícios de respiração antes de apresentações importantes, revisão de e-mails de reconhecimento após feedbacks ou listas das habilidades únicas que você domina quando surgir a tentação de se comparar com outros profissionais. “Ter uma resposta preparada para cada situação ajuda a reduzir a ansiedade e a transformar insegurança em ação”, finaliza Cintra Jr.

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