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Você É Seu Limite, Mas Também Sua Fronteira

Coluna 1616

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A neurociência tem trazido um conhecimento fantástico para os campos da patologia, bem como
para a educação e o comportamento humano. Saber como este absoluto sistema complexo opera,
o que ainda em muitas vertentes é um mistério, nos permite evoluir como nunca antes.

O que antes era um limite, hoje se transforma em uma fronteira. Costumávamos dizer, pelo menos
aqueles da minha época (anos 70 para trás), que “Cachorro velho não aprende truque novo.” Isso
tinha correlação com a crença de que nosso cérebro não tinha, o que se chama hoje de
plasticidade, isso é a capacidade de se adequar, evoluir, adaptar-se, em outras palavras de
aprender.

Sabemos hoje, que sim, cachorro velho e pessoas idosas ou meramente adultas podem e devem
evoluir constantemente, não somente devido às condições mutacionais de nossa época, mas
também pelo bem de nossa saúde mental.

Uma das revelações, que para mim tem uma potência enorme para o campo da evolução é
sabermos, até certo ponto, como nosso Cortex Pré Frontal trabalha. Este “pedaço" de nossa
cabeça, também conhecido como mente executiva, ou mente inibidora tem a capacidade de
colocarmos foco consciente sobre aquilo que executamos. Nos permite planejar, pensar o futuro e
sobre ele criar aquilo que no presente pode nos levar até esta imagem idealizada por esta
“casca” (cortex) de nosso cérebro. Nos ajuda a sermos mais sociais e respeitosos, quando nossas
vontades mais animalescas tentam tomar posse de nosso comportamento. Aquela torta de
chocolate, ou aquele brigadeiro dando sopa na mesa ativa desejos deliciosos, mas a mente
inibidora pode e muitas vezes deve, ser treinada ao ponto de conseguir dominar este instinto.
Mas, nem sempre funciona, afinal comer estas coisas é bom demais e nos enche de prazer
imediato. Uma paradoxo entre o desejo de futuro e o prazer do presente.

O que antes nos era colocado como limite, nosso cérebro, ao atingir certa maturidade e com isso
ficando estagnado, passou a ser uma fronteira, agora sabemos que esta maturidade nos traz
potências realizadoras, bem como travas, mas também a capacidade consciente e desejável de
evoluir, de ir além do que um dia foi.

Somos paradoxais. Ao mesmo tempo que somos os “mais inteligentes” somos aqueles que
usurpam a natureza, que a explora sem conseguir usar nossa ferramenta mais poderosa, o
cérebro, em especial o córtex pré-frontal, para entender o quanto ela, a natureza é na verdade
nossa imagem, somos a natureza, somos parte, mas não um pedaço, não aparte, mas sim
criaturas coladas, arraigadas, intricadas nesta natureza. Sua vastidão pode nos trazer a ilusão de
que não somos afetados. Como se ao cortar um dedo, este esteja tão longe, tão distante neste
vasto sistema que não sentimos imediatamente. Mas sentiremos e já estamos sentido isso na
pele, nas barragens, na lama, na vida alheia que deixa de ser vida e torna-se apenas adubo neste
sistema natural. Somos isso, o pó que volta ao pó, ao a lama.

Somos convidados a evoluir em um sentido um tanto quanto bizarro. Este convite é para que
comecemos esta evolução resolvendo os problemas que nós mesmos criamos. Somos clamados
para que nosso olhar busque soluções e não a criação de mais problemas achando que estamos
resolvendo algum problema, geralmente situado no âmbito da ganância. Devemos buscar nossa
evolução resolvendo a nossa involução. Temos que andar para frente todos os passos que
andamos para trás no que tange a relação humana com os humanos e com a natureza. Somos ou
não somos inteligentes? Sim, mas talvez ainda não acessamos esta parte fenomenal que temos
como vantagem bem na nossa cara, bem aqui, acima de nossos olhos atrás apenas de nossa
testa que insistimos em bater na parede de nossa ignorância social, de nossa miopia relacional.

Somos o todo e insistimos em agir como parte. Devemos evoluir como parte, mas conscientes de
que afetamos este todo.

Já não há mais tempo para pensar, mas há tempo para refletir. Sim, vejo isso como duas coisas
diferentes. O Pensar atual está muito voltado ao lógico, ao racional, ao KPI, ao ROI que corrói as
estruturas básicas da convivência. O Refletir viaja em asas mais fortes, dá saltos mais altos, para
dentro de nós mesmos. É uma jornada sem volta, pois quem se permite navegar em suas próprias
águas poderá encontrar a profundidade do que significa ser humano. Refletir usa sim o córtex préfrontal, mas o utiliza como meio para sair da frente de si mesmo, para parar de buscar aquilo que não está ao seu alcance. Refletir é abrir a porta das sensações, do sentir como é estar conectado com o todo e com todos. É sentir o outro e a si mesmo e nesta relação sentir o que é ser inteiro, estar completo. Refletir é a porta das soluções, da criatividade, do empreender em projetos que resolvem muito para muitos e não muito para poucos. Reflexão é diálogo entre o seu todo, a sua lógica o seu imaginar livre e o seu corpo como canal para expressar e entender o mais profundo da existência. Mergulhe em si mesmo e convide todas as suas partes para ir com você. Viaje mais, para dentro de si mesmo e curta isso, envolva-se nisso, viva isso e partilhe com todos.

Boa viagem.

Por Tiago Petreca, diretor fundador e curador chefe da Kuratore - consultoria de educação corporativa. É um dos colunistas do RH Pra Você. Foto: Divulgação O conteúdo dessa coluna representa a opinião do colunista.

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