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Uma breve retrospectiva de 2020

Coluna 984

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Começa 2020 e seguimos as tradicionais rotinas estruturantes e engajadoras de início de ano, desdobrando os objetivos, realizando as reuniões de alinhamento e comunicação, liderando e/ou participando das convenções anuais. Passado então o Carnaval, adentramos o ano cheios de esperanças. Planos táticos bem feitinhos no “papel” e a felicidade por ter aprovado alguns orçamentos relevantes (afinal a economia do Brasil imbicava para cima, com o objetivo do PIB em 4% e as empresas, no geral, apostando em crescimento orgânico mais incremental). A vontade de colocar em prática projetos e iniciativas estava tão grande que, para isso, até mesmo planejamos participações em cursos, eventos e congressos de aperfeiçoamentos (esmagadora maioria presenciais). 

Em paralelo a todo esse entusiasmo de início de ano, escutávamos que algo estranho estava acontecendo pelas bandas do leste continental. Chegamos a ficar chocados com informações sobre a China e evolução na Itália, mas certamente incrédulos dos impactos no Brasil, seguimos vivendo normal. Talvez por achar, irracionalmente, que do mesmo jeito que a onda do mar tende a perder força no tempo e na distância, essa grande e inusitada questão, quando chegasse nas bandas de cá, seria só uma “coisinha”, um efeito “marola” passageiro.

E embalados por essa “fé”, seguimos os dias olhando para os nossos centros, sublimando totalmente as previsões mais técnicas e factuais do cenário global. Mas, bem que de repente, o Brasil registra oficialmente o primeiro caso de Covid-19 em 26/02/2020. Literalmente do dia para noite nos vimos imersos num mundo paralelo, desconhecido e urgente. Um mundo onde ter coragem seria fundamental. Coragem para decidir e agir com pouquíssimas informações. Coragem para contar com o bom senso, empatia, civilidade e colaboração alheias, de todos, sem restrição ou priorização por posição hierárquica/social, experiência ou potencial.

Se tivemos a chance de prevenir para mitigar as principais questões vividas e aprendidas nos países anteriores, “decidimos” reagir aos efeitos.  No começo o medo era tão grande que a “adrenalina” fez sua parte, nos dando foco, energia e poder de ação. Tínhamos uma missão clara: isolar as pessoas em casa ou protegê-las ao máximo nos ambientes de trabalho, mantendo, dentro do possível, a produtividade operacional. E assim seguimos. Regidos por uma diretriz difícil, mas de certa forma objetiva e bem específica. 

Os dias passaram e o objetivo específico também. A complexidade e ambiguidade chegaram ferozmente. Dentre outros fatores, a incerteza, foi o que mais incomodou no início. Informações contraditórias, vaidades políticas, mercenários oportunistas, falta de previsibilidades e desconhecimento, trouxeram rapidamente e para bem próximo das nossas vistas tristes e desalentas percepções sobre as nossas próprias fragilidades, vulnerabilidades, inseguranças e falta de acolhimento (diante das batalhas nebulosas que evolvem mais que um simples propósito).

Realmente, o ano de 2020 levou muitos de nós ao limite. Porém, em meio as frustações coletivas humanas com o próprio humano, prevaleceu o mais básico dos instintos: independe de tudo (e todos) temos que nos unir para sobreviver e evoluir. Com certeza, foi a partir de ponto que começaram os movimentos coletivos de reflexões profundas e empíricas sobre o humano.

Orbitadas sob um cerne chamado emoções, questões como as exemplificadas abaixo percorreram cabeças dos mais brilhantes e maduros intelectuais a jovens profissionais:

  • Qual o significado da nossa existência?
  • Por que fazemos o que fazemos?
  • Estamos felizes? Estamos fazendo felizes outras pessoas?
  • Qual o impacto social e pró futuro do que fazemos? Qual o impacto das pessoas, empresas e questões que apoiamos ou financiamos?
  • Devo ter planos “Bs” para suportar os imprevistos?
  • Como ser verdadeiramente independente? Devo dar mais atenção a minha autonomia e auto cuidados?
  • Qual o equilíbrio entre viver o aqui agora e preparar o futuro?

Em congruência a tais reflexões vimos também alguns movimentos de mudança progredirem:

  • Novas dinâmicas de trabalho serem rapidamente implementadas. (numa ponderação imprecisa das pesquisas disponíveis, aproximadamente 50% das empresas esperam adotar pelo menos uma versão hibrida do HO para as funções aplicáveis);
  • Simplificação e essencialismo da vida, rotinas, processos e produtos;
  • Preocupação com a segurança e higiene;
  • Mundo digital povoado cada vez mais também pelos mais velhos;
  • Mais modulação entre clientes e fornecedores, também entre empregados e empregadores;
  • Ressignificado da casa como função geral, lazer, celebração;
  • Releituras das competências de profissionais mais relevantes para o futuro;
  • Novos estilos de liderança sendo demandados – liderança humana;
  • Mudanças no enfoque da comunicação interna e externa;
  • Mais ênfase nos alinhamentos e bons sensos;
  • Nunca se usou tanto os termos flexibilidade, híbrido e felicidade.

Dezembro chegou com muitas esperanças.

Será o momento da transição do velho para o novo, do que era para o que sonhamos ser? Sabemos que não é bem assim, e tudo bem. Compreendemos que não será em 01 de janeiro que acordaremos sem Covid-19 e sem todas as angústias de 2020. Também acho cedo para dizer o que realmente ficará de aprendizados de 2020, ou seja, o que 20 vai mudar na humanidade de forma estruturante e definitiva e quais serão os legados reais do que vivemos. Inclusive, é previsto um efeito rebote ao confinamento e privações que irão nos inquietar e até chocar nos primeiros momentos, mas a boa notícia é que a tendência é ser temporário. Como diz a música: “me sinto uma mola espremida”. E esse é o ponto, depois de passarmos pelos extremos do confinamento e pós confinamento, começaremos a enxergar o que realmente ficará, o que vai prevalecer, quais serão os novos valores, os novos hábitos e as novas rotinas incorporadas.

Por isso, eu tenho uma sugestão para você. Ao invés de divagar nesse amplo, incerto, complexo e volátil momento sem dar um norte claro para os seus planejamentos futuros, o que você acha de endereçar uma questão pessoal, como: afinal, como trabalhar para viver (e não viver para trabalhar)? Já alertava Peter Drucker: “Ganhar a vida já não é suficiente, o trabalho tem que nos permitir vivê-la também”. Se você está lendo esse artigo, assim como eu, tem ganho a vida de várias formas, do nascimento a superação da pandemia. Mas está vivendo-a em plenitude? Se ainda tem oportunidades para responder essa inflexão com confiança, talvez seja mesma uma boa questão para planejar seu 2021.

Meus sinceros votos de ótimos momentos de celebração. Que 2021 seja um ano feliz com muitas realizações.

Aline Sueth é palestrante, mentora e diretora de gente e gestão do Grupo Elfa. É uma das colunistas do RH Pra Você. O conteúdo dessa coluna representa a opinião da colunista. Foto: Divulgação.

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