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Um novo giro na roda do movimento humanista?

Coluna 384

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Eu gostaria neste artigo de fazer uma comparação com a época do humanismo, que antecedeu o renascimento (séculos XV e XVI) e o atual momento que estamos vivendo (séculos XXI e os próximos).

Interessante notar que o humanismo foi um movimento que trouxe ao ser humano a consciência do intelecto. A semente e os nutrientes necessários ao seu desenvolvimento foram sendo constituídos lentamente nos séculos precedentes. O palco de sua eclosão foi Florença, mais precisamente em meados do século XV, na era da família Médici, tendo à frente Lorenzo Médici, conhecido também como o Magnífico! Dotado de grande visão política e diplomática, possuidor de grande fortuna, deu o impulso necessário para que pensadores, artistas e cientistas trouxessem para Florença novas ideias.

A cidade italiana tornou-se o centro do mundo e recebeu cidadãos dos mais diversos e das mais diferentes regiões do planeta. Esse amalgama cultural, livremente construído, trouxe novas formas de pensar e de se ver o mundo.

Neste período houve a invenção da imprensa móvel por Gutemberg, que incentivou o aprendizado da leitura, escrita, e nutriu o interesse das pessoas em conhecer mais sobre as eventualidades da vida.

A introdução da perspectiva nas pinturas levou os seres humanos a desenvolver capacidades imagéticas que os levaram a ver os acontecimentos do mundo com outros critérios.

A mudança do método escollástico de educação, cuja base de ensino era a absorção do conhecimento através de documentos com conteúdo dogmático, deu lugar a uma educação voltada para a prática e o livre pensar, alimentada pelo compartilhamento de ideias e experiências.

Num espaço curto de tempo, a realidade nesta parte do mundo mudou dramaticamente. O conhecimento que estava ao alcance somente dos eruditos começou a ficar disponível para uma grande parcela da população. 

Como resultado de todo esse movimento acontece o Renascimento. Uma nova percepção da cosmovisão que traz para o mundo uma nova concepção de homem, o “homo novus”!

O mundo do “homem novo”, após o Renascimento, ganhou velocidade e entre grandes descobertas e conflitos chega aos dias de hoje! Está mais rico intelectualmente e continua pobre moralmente.

De repente, 500 anos depois, em pleno século XXI, em meio a uma estonteante revolução tecnológica, o mundo sofre uma pandemia e para, obrigando todos a ficarem em suas casas e manterem um seguro distanciamento entre si. Este fato, inusitado nos dias de hoje, tem obrigado as pessoas a pensar diferente. E este pensar diferente pode vir a ser a semente para impulsionar um novo giro na roda do movimento humanista!

Como podemos entender essa possibilidade? O movimento humanista trouxe em si a oportunidade de os seres humanos ganharem conhecimento e enriquecerem intelectualmente. Mas o conhecimento, por si, não foi suficiente para trazer paz, justiça e bem estar a todos os que habitam este planeta. A ciência é estupenda, maravilhosa, mas plenifica somente o intelecto e não alimenta o moral.

A pandemia obrigou as pessoas a se recolherem não só fisicamente, mas também no seu íntimo. E este contato, por mais tempo, com o seu interior, propiciou à grande maioria uma redescoberta de si mesmo, percebendo os acontecimentos ao seu redor não mais com as suas capacidades sensoriais e físicas, mas com os sentimentos da alma. Ao dar aos seus pensamentos mais vida e qualidade, elas estão redescobrindo o outro numa dimensão de empatia e compaixão, se preocupando e ajudando os que estão próximos e distantes, colaborando genuinamente com aqueles que não têm posses e participando ativamente das decisões das autoridades, cobrando os políticos por soluções mais justas e inteligentes.

O que estamos vendo hoje é que, além da fala, as pessoas estão também usando a linguagem do coração. Esta é uma nova forma de pensar! Pensar com o coração é colocar qualidade e moral nas ações, promovendo sempre um bem-estar, não somente para si, mas para muitos.

O novo pensar, cujo provedor é o coração, não é o desenvolvimento de uma linguagem discursiva como se faz pelo intelecto, mas sim uma linguagem de imagens e símbolos cujos significados nutrem os sentimentos mais dignos presentes dentro dos seres humanos, mas constantemente desafiados pelo intelecto.

O desenvolvimento da comunicação entre a inteligência e o coração cria a ponte entre a alma do intelecto e a alma da consciência! Isto tem um profundo significado, pois o ser humano deixará fluir para dentro do seu interior o que já está disponível para si no cosmos que o envolve: a imaginação, a inspiração e a intuição, elementos despojados do conceito de materialismo e que surgem para dar maior qualidade moral e alcance ao que é pensado e realizado.  

Conhecimentos são gotas frias que caem na alma e só se transformam em sabedoria quando aquecidas pela essência interior!

Ao inovar algo, escaneie sua criação com o coração e perceba o que ele está querendo dizer, porque, como disse Carl Jung “sem emoção, a obscuridade não pode ser transformada em luz, nem a apatia em movimento”.

Por Vicente Picarelli, fundador da Picarelli Human Consulting e professor e consultor da Fundação Dom Cabral. É um dos Colunistas do RH Pra Você. O conteúdo dessa coluna representa a opinião do colunista. Foto: Divulgação.

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