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Transição De Carreira: Mais Cedo Ou Mais Tarde Você Fará A Sua!

Coluna 1606

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Ontem li uma frase no jornal que definiu o tema da minha coluna deste mês. Ele já vem rondando a minha pauta de temas há algum tempo, pois como os mais próximos sabem, estou vivenciando a minha própria transição de carreira.

Mas voltemos à frase, dita pela Chanceler alemã, Angela Merkel, provavelmente (no meu ranking pessoal, com certeza) a mulher mais poderosa do mundo e uma profissional cuja carreira eu admiro muito: “Algum dia quero encontrar o jeito certo de sair da política”. Como vocês devem saber, ela anunciou recentemente que está deixando a presidência de seu partido, e sua sucessão é um assunto de Estado, não só na Alemanha. Mas o curioso é que esta frase foi dita por ela em 1998, ou seja, há 20 anos (!!!), quando ainda não ocupava o mais alto cargo do governo alemão, comandando a economia mais poderosa da Europa.

Sabemos que alemães são os reis do planejamento, mas começar a pensar numa transição de carreira 20 anos antes de concretizá-la me deixou reflexiva, sobre como este tema é tratado pelos pobres (ou ricos!) mortais aqui no Brasil.

Tendo trabalhado os últimos 20 anos em grandes corporações, sempre tive a impressão que a transição de carreira das pessoas nunca era muito bem planejada. Ou a empresa decidia que chegara sua hora, sem uma participação muito ativa da parte do funcionário, ou o próprio funcionário num momento de “saco (muito!) cheio” se mandava, também de forma repentina, sem se preocupar muito com sua sucessão ou com o quê a empresa pensava sobre aquilo.

Claro que há exceções: cargos mais seniores na organização, cujos ocupantes são preparados por mais tempo para a transição, ou também pessoas com idade mais avançada que, vendo a aposentadoria chegar ou a previdência privada poder ser acionada, fazem suas contas e cálculos na esperança de uma transição com poucas surpresas e poucos traumas.

Com a expectativa de vida aumentando e com todos os problemas previdenciários que nos rondam, além dos malefícios do “sedentarismo ocupacional” cada dia mais conhecidos, me parece que o futuro chegou! Não faremos só uma transição de carreira, do escritório para o sofá da sala. Faremos, na verdade, várias transições ao longo da vida profissional, sendo que uma das mais importantes vai acontecer ali por volta dos 50-55 anos de idade (novo mid-life?) e talvez não será a última.

Mas as perguntas que não querem calar:

  • como se preparar para essas transições ou ao menos para as mais importantes?
  • Será que temos, assim como a Angela Merkel, que começar 20 anos antes?
  • É possível um planejamento de tão longo prazo no mundo em transformação como já temos vivenciado e que com certeza ficará ainda mais volátil?
  • Tem como fazer uma transição sem traumas para as partes?

Claro que não tenho as respostas... E, mesmo achando tudo muito complicado, vou compartilhar com vocês algumas reflexões e experiências pessoais. 

  1. Planeje o quanto der: eu comecei a planejar minha própria transição de carreira um ano antes dela acontecer. Como trabalhava em RH, queria que ela fosse um bom exemplo de “transição não-traumática” para todas as partes. Fiz pesquisas, contas, fiz até ppt imaginária com pilares de sustentação com um mini-plano estratégico. Conversei muito com muita gente e tive a sorte de estar em uma empresa e com chefes à minha volta que estavam dispostos a me ouvir.
  2. Prepare-se para não estar pronto: mesmo com algum planejamento, não será simples. A verdade é que na hora “H”, você, como CEO da sua carreira, também terá que tomar decisões difíceis e se sentirá solitário. E terá medo, inseguranças e perderá o sono. As mesmas coisas das quais você queria se libertar quando decidiu que era hora de fazer algo novo, de se aventurar na transição.
  3. Traduza com carinho as mensagens das outras pessoas: muitas pessoas têm me falado da minha coragem (sempre acho que quando me dizem isso é porque fiz alguma bobagem), outras dizem que pareço mais feliz (será mesmo? Acho sempre que é projeção dos seus próprios desejos). Algumas falam que tomei a decisão correta, pois estou mais perto do meu propósito (a maioria nem conhece o meu propósito verdadeiro...como podem saber?). Uma pessoa me disse que eu tinha feito a transição “perfeita” porque mudei, mas não muito. Continuo lidando com os mesmos temas, só que finalmente posso ver mais rápida e concretamente o resultado do meu trabalho (essa não preciso traduzir. Talvez concorde.)
  4. Conte com chateações: mesmo tendo se livrado de um monte de coisas de que você não gostava na carreira anterior, prepare-se para novas (às vezes nem tão novas) chateações. Elas são inerentes ao processo de viver. Vai aparecer gente chata, gente mais sabida, gente cobrando (inclusive você mesmo), gente de todo jeito no seu caminho. Se sua nova opção de carreira tiver algum tipo de responsabilidade, vai ter chateação. Exatamente como antes. Mas talvez sejam novas, sejam diferentes e você poderá aprender e vivenciar sensações que não conhecia antes. Este é o lado bom.
  5. Trace objetivos: assim como na sua carreira anterior, coloque objetivos e monitore-os.  Isso, igualzinho na empresa. Mas faça para você, não para seu chefe ou para o sistema ou por causa do bônus. Veja se algumas das coisas que você pretendia alcançar ao fazer a transição estão acontecendo, se você está mais próximo de alcançá-las. Se sim, ótimo. Se não, recalcule sua rota.
  6. Lembre-se que a atual pode não ser a última: como já mencionei, acredito que as pessoas farão mais de uma transição de carreira durante sua vida profissional. A imagem que me vem à cabeça é que o caminho para alcançar os objetivos da transição não seja uma viagem de avião, do tipo “decolo em A e aterrisso em B”. Imagino que esteja mais para uma escada, com vários degraus, várias etapas até você realmente alcançar seu objetivo final da transição.  

Com certeza a Frau Merkel não terá dúvidas e nem precisará rever seus planos, já que ela, como boa alemã, está pensando nisso há 20 anos. Mas se você é, como eu, só uma simples mortal brazuca, boa sorte!

Joana Rudiger, apaixonada pela educação, e Presidente da Enactus. É uma das colunstas do RH Pra você. Foto: Divulgação. O conteúdo dessa coluna representa a opinião do colunista.

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