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Sobre caos e bem-aventurança

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Somos bombardeados rotineira e constantemente por histórias e mais histórias de sucesso e grandes feitos através das redes sociais. São receitas para conquistar, exemplos a serem seguidos e modelos a serem copiados. Como se, assim, tudo fosse dar certo. Como se o pote de ouro estivesse garantido no final do arco-íris.

Todos estão mais ocupados do que nunca com a própria empreitada, em uma busca sem fim pelo ouro prometido. Vinte e quatro horas por dia de conexão. Não há tempo a perder, afinal de contas, na realidade atual, o ócio é visto como um erro quase fatal e imperdoável.

Por outro lado, aquelas pessoas que, por algum motivo, conquistaram a notoriedade (ou fama) através dos resultados obtidos são percebidas como super-heróis, com superpoderes e, sendo assim, são privilegiados, donos de talentos natos, imunes a infelicidades e frustrações. Afinal de contas, a receita é: o sucesso nos levará à felicidade e só o que importa é o resultado final.

Ledo engano. Não existem super-heróis e muito menos superpoderes, e a falta de entendimento de que somos humanos, falíveis e frágeis naturalmente tem levado milhares de profissionais a quase que literalmente entrarem em pane, sofrendo de um mal que chamo de “excesso de futuro”.

Conforme algumas pesquisas realizadas no Brasil, pela consultoria de recrutamento Talenses, 75% dos profissionais apresentam ou já apresentaram algum transtorno mental ligado ao estresse no trabalho, e 85% das pessoas conhecem alguém próximo que já apresentou algum problema mental. Entre os transtornos mais recorrentes, estão o transtorno da ansiedade generalizada, depressão, pânico e medo.

E agora, um inimigo microscópico e invisível ameaça aquilo que, até então, para nós, era mais precioso: o nosso futuro, pleno de sonhos, objetivos e metas a serem alcançadas, e, com ele, inevitavelmente, a nossa felicidade. O Coronavírus (COVID19), nosso mais novo e hostil rival, infelizmente já foi capaz de tirar milhares de vidas humanas ao redor do mundo. A incomum pandemia tem espalhado medo e pânico por onde passa!

Em meio às diretrizes rígidas que o cenário nos impõe, a incerteza do que o futuro nos reserva, há também a possibilidade de nos reconciliarmos com o presente, o aqui e o agora tão esquecidos na era da informação.

Estar e cuidar dos nossos entes queridos é o primeiro passo e o menos difícil. O maior desafio (e oportunidade) na conjuntura atual é o compartilhar com nossos semelhantes espalhados pelos quatro cantos do mundo, em prol do bem comum, da segurança de todos. E, assim, conheceremos a verdadeira natureza da palavra compartilhar: “partilhar com” (e isso envolve renúncia).

Renuncio sair de casa, pelo bem daqueles que precisam estar na rua. Renuncio estocar mantimentos para que outros tenham a possibilidade de tê-los. Renuncio à minha indiferença para observar que é hora de pensar no próximo.

Estamos mais humanos e frágeis como há muito não se via, em uma busca eterna pela felicidade. Porém, é possível sermos felizes todos os dias, observando que a felicidade pode existir mesmo com a presença de dificuldades, problemas, frustrações e metas não alcançadas. Ao contrário do que nos ensinaram e pregam, o pote de ouro não está no final do arco-íris, ele está ao longo da jornada! E é a própria jornada, vivida plenamente na nossa natureza social, que nos aproximará dos nossos sonhos e objetivos, mesmo que o arco-íris, de vez em quando, fique cinza.

Temos a possibilidade de transformar a tragédia na mais nova e poderosa cultura colaborativa. E é sempre uma questão de escolha.

Por André Heller (capa), Palestrante e ex-atleta de vôlei (campeão olímpico em 2004)

Foto por Benhur Santi

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