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Saúde corporativa e a pandemia... muito além das vacinas

Coluna 805

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As notícias divulgadas pela imprensa, com o início de programas de vacinação contra o vírus COVID-19 criou a impressão (ou a ilusão) de que a vida vai voltar ao normal em breve. Além disso, está claro que as vacinas não estarão disponíveis para serem adquiridas pelas empresas e não se planeja realizar campanhas nas empresas. Ela vai proteger, inicialmente, apenas os mais vulneráveis.

No entanto, sabemos que ainda vai levar muito tempo para a vida voltar ao normal. Continuaremos a conviver com as crescentes desigualdades sociais, com as doenças crônicas não transmissíveis, a violência urbana, a insegurança alimentar, o racismo estrutural, além das dificuldades econômicas e fiscais do nosso país.

A pandemia de COVID-19 que nos assola tem trazido grandes consequências econômicas e sociais no mundo inteiro, e nós ainda não conhecemos seus efeitos a longo prazo. Certamente, as pessoas, as cidades, o país e o nosso planeta não são mais os mesmos.

Não custa lembrar que, antes da pandemia, já estávamos vivendo um cenário de acentuação das desigualdades na distribuição de renda no Brasil, com consequente aumento dos níveis de pobreza. As altas taxas de desemprego, a violência doméstica, o racismo estrutural e a falta de condições básicas relacionadas à qualidade de vida, como saneamento básico já faziam parte do cenário antes da pandemia e se acentuaram com ela.

Um grande estudo, com mais de 45.000 participantes (COVID Comportamentos), constatou que, durante a pandemia, as pessoas estavam menos ativas fisicamente, pioraram seus padrões alimentares, ficaram mais tempo assistindo televisão, consumiram mais bebidas alcoólicas e relataram maiores taxas de sentimentos de tristeza e depressão. Muitos serviços de acompanhamento de condições crônicas foram interrompidos, inclusive no rastreamento e acompanhamento do câncer.

No ambiente corporativo, certamente o home office vai ser mais adotado, mas as áreas de saúde ocupacional precisam criar novas estratégias para o acompanhamento dos trabalhadores. As atividades habituais (presenciais), como feiras de saúde, serviços ambulatoriais, academias corporativas, dentre outras, precisam ser revistas. Não basta uma mera migração das palestras (as quais já tinham pouco engajamento quando ministradas de maneira presencial) para aulas no Zoom, o que somente contribui para aumentar a exaustão dos profissionais. O monitoramento das condições de saúde e seus fatores de risco é fundamental para identificação de situações em que se possa prestar suporte, orientação e tratamento. Questões como a saúde mental, a gestão do sono ou o equilíbrio vida pessoal e profissional ficarão cada vez mais relevantes e será importante buscar ferramentas efetivas. Temos que ir além das “lives” e das mensagens nas redes sociais.

Um ponto importante, na questão da gestão de saúde corporativa é a parceria com os planos de saúde. Neste período, a maioria teve uma atitude reativa, focando principalmente na questão do cuidado das pessoas infectadas pelo COVID-19 e se deixou o cuidado das demais condições para segundo plano. Neste contexto, é muito importante que as empresas, através dos seus setores de saúde ocupacional e recursos humanos demandem programas integrados que enfoquem a promoção da saúde, a prevenção de doenças e a gestão das condições crônicas e dos seus fatores de risco. A telemedicina deverá ser cada vez mais utilizada, mas ela sempre precisará estar integrada ao cuidado, à rede assistencial, com uso de registros eletrônicos e não ser uma solução isolada que traz pouca ajuda para a saúde populacional.

Muitas empresas passaram, nos últimos anos, a fazer abordagens mais amplas e estratégicas como o ESG (“environment, social and sustainability) onde a abordagem ambiental, social e de governança são realizadas de maneira integrada, inclusive reportando os resultados aos acionistas. Surge aí uma oportunidade e um desafio para os gestores em saúde corporativa. Será importante que eles conheçam tais modelos, aprendam a reportar os seus resultados, mas as ações e atividades passarão a ser enxergadas de maneira mais estratégica nas organizações.

Enfim, os gestores em saúde corporativa precisam realizar seus planejamentos, indo além das questões de testagens, adaptações do ambiente físico, vacinas, etc. e buscar analisar, a partir do cenário que vivemos em nosso país (especialmente os determinantes sociais de saúde), as novas formas de trabalho (e o seu impacto na saúde e no bem-estar dos trabalhadores) e a inserção da saúde como elemento estratégico nas organizações.

Por Alberto Ogata, presidente da Associação Internacional de Promoção de Saúde no Ambiente de Trabalho (IAWHP). É um dos colunistas do RH Pra Você. O conteúdo dessa coluna representa a opinião do colunista. Foto: Divulgação.

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