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Racismo estrutural e o debate sobre a real diversidade nas empresas

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Para que seja possível pensar em igualdade racial no mercado de trabalho brasileiro, antes de tudo, é necessário saber que há um verdadeiro abismo a ser superado. 

De acordo com uma pesquisa realizada no ano passado pelo Instituto Ethos com as 500 empresas de maior faturamento do País, os profissionais negros somente se destacam em números quando os cargos são de nível aprendiz ou trainee (57,7% e 58,2%, respectivamente). As diferenças começam a ser notáveis nas proporções equivalentes a funções operacionais (35,7%), de estágio (28,8%) e de supervisão (25,9%). 

Porém, é quando se fala de liderança e de cargos executivos que o buraco se mostra fundo. Segundo o levantamento, os negros equivalem a 6,3% da ocupação dos cargos de gerência e menos de 5% no quadro executivo e nos conselhos de administração das organizações que mais faturam no Brasil. A análise do Ethos mostra ainda que os negros lideram as taxas de desocupação em todos os graus de escolaridade. Além disso, em todas as faixas educacionais a população negra tem salários em média mais baixos do que os dos profissionais brancos.

Outro estudo, dessa vez do Vagas.com, mostra números igualmente discrepantes e que fazem um cenário mais igual soar utópico para muitos. 47,6% dos mais de 100 mil negros que integram a pesquisa atuam nos níveis operacionais ou de auxiliar, distantes das posições estratégicas das companhias. Enquanto isso, a taxa de diretores não chega a 1%. O panorama é ainda mais grave quando 76% dos respondentes afirmam conhecer alguém que, por conta da cor ou da raça, já foi vítima de preconceito ou humilhação em ambiente de trabalho.

Apesar do contexto desigual de uma realidade que precisa ser mostrada, debatida e combatida, o outro lado da moeda traz esperança ao mesmo tempo que expõe o quão intenso ainda é o racismo estrutural no Brasil. Nas últimas semanas, empresas de grande porte como a Bayer e o Magazine Luiza abriram processos seletivos exclusivos para o público negro, com a justificativa de promover diversidade ao negócio e aumentar a proporção de profissionais e líderes negros, minoria em ambas as instituições.

Contudo, não tardou para que manifestações ofensivas e ataques virtuais, especialmente contra o Magazine Luiza, ganhassem força nas redes sociais. Protagonista da hashtag #MagazineLuizaRacista, a empresa chegou a ser processada - inclusive mais recentemente pelo defensor público Jovino Bento Júnior, que usou termos como “marketing de lacração” para alegar que ações como a da companhia violam o direito de milhões de trabalhadores -, o que revela o quanto a crença no chamado “racismo reverso” é forte no Brasil.

Diante disso, como promover, então, uma efetiva diversidade racial no universo corporativo à medida que a inclusão de negros nas empresas ainda é um fator que incomoda tanta gente? Para falar sobre isso, o RH Pra Você entrevistou Luciano Machado, sócio da MMF Projetos ao lado de Ricardo Mirisola e Igor Ferreira e único líder negro de empresas de projetos de engenharia civil no Brasil.

Formado em engenharia civil com especialização em geologia e o geotecnia, Machado teve, desde cedo, o incentivo da família para buscar uma carreira de destaque. O caçula de três irmãos teve experiências de maior destaque em vendas, atuando em setores bancários e de telefonia, até assumir o protagonismo de sua carreira na área de engenharia civil e na MMF, empresa que desenvolve projetos de infraestrutura, principalmente em áreas de risco. Confira o nosso bate-papo com Machado:

RPV: Luciano, hoje as empresas fazem da diversidade um mantra. Ela vende, dá status. A MMF, inclusive, é uma empresa não só diversa, mas inclusiva. Porém, como as organizações podem enfrentar vieses inconscientes, preconceitos e ter uma diversidade que realmente seja funcional e não somente um troféu para criar uma nova imagem?

Machado: Eu vejo que as mudanças são naturais de acordo com a forma como você constrói o ambiente da sua empresa. Meus sócios, por exemplo, com quem atuo há seis anos, mudaram muito o discurso, as brincadeiras. Sempre fui explícito em relação ao que não gosto. Quando há um incômodo, você deve alertar. E nós adotamos essa linha para o dia a dia da empresa.

O fato de eu ser um dos donos da organização causa um impacto nas pessoas. Nota-se que isso estimula as pessoas a terem um maior cuidado com o que falam, com a forma como abordam determinados assuntos. E como há outros profissionais negros na empresa, na minha ausência esse cuidado ainda se mostra existir, porque nós fizemos da MMF uma empresa diversa, e não só no recorte raça. 

Quando decidimos expandir o negócio, meus sócios já tinham em mente a importância de construir um ambiente diverso, porque pessoas diferentes olham os projetos de formas diferentes. Você constrói um ambiente com diversos linguajares, posturas, o que tem um impacto muito grande. A qualidade do produto muda. Desde o início nós tratamos a diversidade como necessária ao negócio. Portanto, quando treinamos, abordamos o tema com maior naturalidade.

RPV: Quando há um ambiente que oferece naturalidade no convívio entre pessoas diferentes, quem deseja entrar na empresa ou está disposto a nela permanecer precisa passar por uma transformação, moldar determinados comportamentos, eliminar alguns conceitos, falas e vieses que ainda são comuns. De certa forma, então, a MMF não precisa “forçar a barra” para educar sobre diversidade, correto?

Machado: Exato. Quando você entra em uma empresa que já tem um trabalho para que perfis diferentes possam estar juntos, você sente a necessidade de se adaptar, e isso incentiva que algumas mudanças sejam buscadas. 

É como quando falamos em meritocracia, por exemplo. Não é um problema você crer que ela existe, mas é preciso compreender que ela só é real quando todos estão no mesmo ponto de partida. A empresa é diversa quando ela estimula a cultura da igualdade de condições.

O meu caso, por exemplo, não é uma realidade comum. Eu tive, nas minhas experiências, somente um chefe negro. Hoje, para que empresas recebam pessoas que saiam do perfil ‘homem branco’, elas têm que se preparar. Não adianta você contratar uma pessoa cujo ambiente não será receptivo a ela. Você transforma o seu ambiente e sua equipe de trabalho deve se adaptar a ele.

Na MMF trabalhamos com processo seletivo às cegas e, dependendo da vaga, incluímos um teste de aptidão. Houve uma contratação de um estagiário, por exemplo, em que ao final do processo chegaram um candidato que falava quatro idiomas e que já viajou para fora do País, e um outro que pela primeira vez ia à Avenida Paulista. Isso me fez refletir sobre como o cenário é desigual. Os dois chegaram à ‘final’ sob condições tão diferentes.

Os dois certamente dariam conta do recado, mas optei por contratar aquele que estava na Paulista pela primeira vez, um menino negro. A pessoa que mora, que vive em comunidade, tem uma expertise de vida, de necessidade de sobrevivência, que outros não vão ter. A vida exige coletividade, bater na porta de uma vizinho para pedir sal, açúcar porque você está precisando e não pode comprar, e futuramente retribuir porque esse vizinho também vai precisar em algum momento. A capacidade de trabalhar em grupo é natural.

Então, se a empresa tiver a capacidade de olhar o quanto essa pessoa vai agregar, ela vai se beneficiar disso. As organizações ainda não enxergam o valor e o potencial disso.

RPV: Luciano, na sua percepção como empresário, de que modo você enxerga o caminhar da diversidade no mercado de trabalho atual?

Machado: Eu sou muito procurado para fazer indicações de colaboradores. É visível o quanto as empresas serão cada vez mais impactadas pela diversidade. Se há um trabalho real em prol do diverso, as corporações vão sofrer um impacto financeiro. Porém, positivo. 

O racismo estrutural sempre foi maior do que a questão financeira em um país no qual tanto se preza a importância da economia. Sempre se deixou de ganhar dinheiro porque o racismo não era discutido. As posições de privilégio não entravam em debate no Brasil. A Internet tem seus prós e males, mas inegavelmente deu voz a pessoas que eram ‘invisíveis’. O debate foi aflorado e as discussões chegaram ao mercado de trabalho. É um tema que mexe com o bolso.

Além disso, temos que considerar que a escravidão terminou há 130 anos. É muito recente. E nós caminhamos pouco nesse período. Tenho um amigo que diz que “o primeiro dia após abolição é o dia mais longo da história”. Mas hoje há pessoas sérias elevando o patamar e o alcance das discussões raciais. Tenho 42 anos e é a primeira vez que vejo o quanto esse debate se tornou explícito no mercado de trabalho.

É claro que é um panorama que não vai mudar do dia para a noite. Quem está sentindo que seu privilégio está ameaçado, se incomoda. Eu realmente me surpreendo com a capacidade que as pessoas têm, usando o caso do Magazine Luiza como exemplo, de entrar com processo judicial contra o que está sendo feito. Eu brinco: o sujeito é corajoso! Um dia de processo seletivo para negros e a pessoa não suportou, então imagina como é para quem vive a vida inteira passando por algo assim. 

O privilegiado não quer ceder, mas vai precisar entender que economicamente, para o crescimento de uma empresa do País, a diversidade vai ter que existir, goste ele ou não.

RPV: Ainda com o gancho nos processos seletivos como o da Bayer e do Magalu, o caminho é esse? É o momento para que as empresas batam de frente com a hierarquia social que as maiorias querem que se mantenha?

Machado: Se as pessoas não se enxergam nos negócios, elas não o querem. As empresas que não se adequarem ao máximo de públicos possíveis só têm a perder.

O mundo e o mercado, seja por necessidade ou pelo motivo que for, precisam mudar. E para existir essa mudança, você vai ter que lutar. Se o empresário se apegar a essa posição de que nada precisa mudar, fatalmente ele vai perder o seu negócio.

A mudança não é opcional. Quanto mais tardia, mais complexa e difícil ela será. Eu, como negro, não tinha como escolher e precisava consumir o que tinha, mas hoje eu consigo prestar mais atenção a empresas que me valorizam como público. O impacto existe.

E quando nós vemos casos como o do Magazine Luiza, sejamos brancos ou negros, precisamos entender que a empresa não está fazendo um favor. A organização está se colocando em uma posição de mercado. Enquanto um ou outro acha que é “lacração”, os números da bolsa só mostram o quanto o negócio cresce. Além disso, a empresa já se deu conta do ganho que é ter pessoas com pensamentos e ideias diferentes. A necessidade traz o otimismo de que o mercado de trabalho vai mudar.

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