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Quem é Carolina Ignarra, uma das 20 mulheres mais poderosas do Brasil

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A edição de março da revista Forbes dá a deixa da importância da empresária Carolina Ignarra, fundadora da Talento Incluir, consultoria que promove a relação entre profissionais com deficiência e o mercado de trabalho, no mundo corporativo: ela foi eleita uma das 20 mulheres mais poderosas do Brasil. O reconhecimento vem de um trabalho a frente de uma empresa que há mais de 12 anos tem papel importante no fortalecimento da cultura de inclusão.

Formada em Educação Física com pós-graduação em dinâmicas dos grupos, a especialista em neuroaprendizagem ficou paraplégica após um acidente sofrido em 2001, e passou a se movimentar com cadeira de rodas. Em 2004, ingressou em programas de implantação de cultura de diversidade e inclusão em empresas para a inclusão sócioeconômica de profissionais com deficiência.

A partir daí, a executiva descobriu que poderia ajudar a incluir pessoas que, como ela, sentiam-se excluídas do mercado de trabalho. Seu trabalho, desde então, se tornou referência a favor da inclusão e, do mesmo modo, sua voz inspira muitas mulheres que buscam superar as barreiras e preconceitos enfrentados em ambiente de trabalho.

Na nossa terceira matéria sobre o especial do Dia Internacional da Mulher (não deixe de ver os conteúdos lançados na segunda-feira e ontem, terça), confira abaixo o nosso bate-papo com a Carolina e descubra por que ela se tornou uma das profissionais mais importantes e relevantes do País:

RH Pra Você: Quais foram as suas principais motivações para criar a Talento Incluir e começar a desenvolver esse trabalho a favor das pessoas com deficiência?

Carolina: Minha maior motivação para ter construído a Talento Incluir é poder levar às pessoas com deficiência as mesmas oportunidades que eu tive quando adquiri a minha deficiência e voltei ao trabalho. E a minha volta tem tudo a ver com oportunidade, com a gestão acreditando no meu potencial antes mesmo que eu acreditasse que poderia voltar a trabalhar. Me motivou acreditar que a minha história poderia levar outros gestores, outras empresas a abrir caminhos para pessoas que tem potencial, mas muitas vezes não tem a oportunidade.

A criação em si, no começo, era um projeto pequeno de dar aula de ginástica laboral na consultoria que me recebeu após o meu acidente. Aos poucos eu conquistei parceria de sociedade com as donas da empresa para esse projeto em específico e, como costumo dizer, os “trens foram passando”.

Eu consegui, em 2008, a confiança da minha melhor amiga em acreditar no que eu estava fazendo, e como eu já estava procurando clientes e fazendo uma receita interessante, ela passou a investir no meu negócio e esse investimento me possibilitou crescer. E hoje nós vamos desenhando as estratégias.

RH Pra Você: Existe um estereótipo ainda muito presente que é o famoso "o RH é uma área boa para mulher trabalhar”. Ainda assim, o segmento também é desigual no que diz respeito à liderança e os homens assumem, em maior escala, cargos mais altos. Como você enxerga essa desigualdade corporativa em relação às mulheres em cargos de liderança? Você vê com otimismo uma mudança nesse cenário? 

Carolina: Esse estereótipo é realmente muito reforçado. Quando eu faço uma reunião com a presidência ou a diretoria das empresas, dificilmente há mulheres. E, quando há, geralmente elas são do RH. Isso tem mudado de uns anos pra cá e eu encontro mulheres ganhando espaço na diretoria de outras áreas. Porém, de fato, ainda é um estereótipo comprovado por prática.

Eu acredito muito na força da mulher, inclusive faço parte de diversos grupos de empreendedorismo feminino. Então, não só dentro das grandes organizações, há mulheres fazendo grandes negócios e comandando empresas. A mulher tem condição de assumir qualquer área e o que conta são as habilidades, o potencial.

A cultura, os rótulos que até então inibiam a mulher de chegar à liderança ainda existem. Há líderes que não querem contratar gestantes, ainda muitas mulheres com filhos têm dúvidas sobre deixá-los um pouco de lado para poder focar na carreira, então é uma nova cultura que ainda está em construção.

RH Pra Você: Qual é a força do seu empoderamento? Quais são os suportes que te conduzem nas causas que você defende?

Carolina: Eu entendo a luta e a militância. Inclusive, quando vejo os direitos adquiridos pelas pessoas com deficiência, como a Lei de Cotas, eu reconheço a militância. Reconheço que nós tivemos pessoas com deficiência que intercederam e que foram brigar pelos seus direitos, que precisaram ser bravos, processar pessoas. Porém, não é com esse caminho que venho conquistando, principalmente, o respeito e o espaço de fala.

Eu acredito que a melhora está acontecendo. Já foi muito mais difícil convencer pessoas do que é atualmente. O meu poder de convencimento vem da maturidade, de exemplos, conjuntos. Dessa forma, tem dado resultado para o meu principal tema de defesa, que são as pessoas com deficiência, e todos os outros que hoje vem somando nos marcadores sociais que a diversidade traz. É o caminho que acredito que tenho que seguir, mas claro, não foi fácil.

Eu já tive empresas que sequer aceitaram me receber quando eu dizia que era cadeirante, então achavam melhor eu não ir. A gente, da Talento, também já conversou com outras pessoas – algumas com deficiência, inclusive -, que não acreditam em como nos posicionamos em relação à inclusão e que duvidaram de até onde chegaríamos. Não foi fácil, mas nosso posicionamento é com exemplo e com muita empatia. 

RH Pra Você: Nesse Dia Internacional da Mulher, que mensagem você deixa às mulheres que buscam empreender, crescer e conquistar o seu espaço no mercado de trabalho? 

Carolina: Eu acho essas datas incríveis, como o Dia Internacional da Mulher, porque coloca questionamentos na cabeça das pessoas. Eu entendo cada questionamento como um passo importante para a gente fazer transformações no nosso comportamento. Por exemplo, quando chega o Dia da Mulher, os homens falam “ah, mas não existe o Dia do Homem”, e nisso nós temos a oportunidade de dizer: o homem não está em desvantagem social, o homem não foi criado para ficar cuidando de filhos, o homem não foi criado para não ascender profissionalmente.

É uma data que dá a oportunidade de informar, de fazer as pessoas pelo menos refletirem sobre o quanto os vieses inconscientes e os comportamentos preconceituosos prejudicam determinados grupos. E são injustos, o que nunca é positivo. Aproveito, então, para deixar a mensagem de que nós mulheres não podemos acreditar no que as pessoas falam para nos desmotivar. Temos que conhecer o nosso potencial, saber que somos tão fortes quanto frágeis. Não é assumir uma armadura, mas sim humanizar essa inclusão.

Temos que aproveitar positivamente o nosso rótulo estereótipo de sensibilidade e encarar isso como vantagem na hora de se posicionar. As diferenças que existem não precisam ser escondidas, então vamos levar vantagem com elas, usá-las a favor do nosso empoderamento, espaço de fala e conquista dos nossos sonhos.

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