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Quase Nunca É Por Mal

Coluna

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Quem nunca se sentiu deixado de lado por um amigo que atire a primeira pedra.

Às vezes acontece: um WhatsApp não é imediatamente respondido, você não foi convidado praquele churrasco com a turma do vôlei e muito menos pro batizado do filho. Os fins de semana não são como antigamente.

Acontece com todo mundo. Em alguns casos nos sentimos vítimas, mas observe que em outros somos nós quem nos afastamos.

Somos pessoas de fases. Os interesses mudam, as prioridades mudam. Quase nunca é por mal.

Relacionar-se é algo inerente ao ser humano. No entanto, amizade tem mais a ver com ciclos e círculos e do que com listas. Segundo estudo realizado por Robin Dunbar, somos capazes de administrar até 150 amigos por vez. Isso mesmo, por vez. Isso porque a estrutura de como os organizamos é dinâmica. Se um amigo some de vista, o cérebro parece que detecta isso e diz: há lugar livre. Talvez na camada dos conhecidos você nem note, mas nos primeiros círculos você detecta esse vazio e o preenche.

Isso não significa que somos descartáveis. Mas é uma maneira de sobreviver ao que quase sempre classificamos como rejeição.

A rejeição é uma das feridas emocionais mais profundas que existem. Se sentir ignorado, desprezado, recusado cria em nós um filtro perigoso. Através das suas lentes achamos que tudo é pessoal: “ele não gosta mais de mim”, “ela não valoriza os amigos que estiveram ao seu lado em momentos difíceis”, “eu fui apenas usada”, “minha felicidade está incomodando”.

Eu mesma já senti isso muitas vezes. Pessoas muito importantes pra mim se afastaram. Com algumas mantenho contato, com outras faço festa como se as tivesse visto ontem e tem aquelas sobre as quais não tenho notícias.

É estranho pensar que aquela turma não é mais a sua, que aquele amigo confidente está tão diferente, ou que aquele casal não viaja mais junto com você. E as redes sociais potencializam tudo.

Quase nunca é por mal. A vida tomou outro rumo, novas pessoas surgiram, um trabalho novo absorve nossa rotina, você entra num grupo de corrida, a agenda do fim de semana começa a ser preenchida com festinhas infantis, o tempo é curto pra dar tempo da gente abraçar tanta gente.

Além disso, é importante lembrar que diferentes amizades exigem esforços diferentes. Às vezes um está mais disposto que o outro. Às vezes o mais disposto cansa. E basta um sentimento de “ah, sou sempre eu que procuro por ele. Vou esperar que ele tome a iniciativa agora” para que vocês não se vejam por anos. Acontece e quase nunca é por mal. Foi um teste e a “amizade” não passou por ele.

Por vezes, o afastamento acontece de forma tão natural que é exatamente quando sentimos saudades que concluímos o quanto nos afastamos. O algoritmo da rede social colabora e a pessoa some até da timelime. E quando você vai nela, vê que seu amigo está lá, sobreviveu ao afastamento e tá tudo bem.

Segundo Zygmunt Bauman, autor de Tempos Líquidos, os tempos são “líquidos” porque tudo muda tão rapidamente. Nada é feito para durar, para ser “sólido”. No atual estágio “líquido” da modernidade, os líquidos são deliberadamente impedidos de se solidificarem. Difícil pensar que toda e qualquer relação está sujeita a essa liquidez.

Mas assim é a vida. As vezes amizades se solidificam. Às vezes sublimam. É no apertar e afrouxar da vida que relações se fazem e se desfazem. Mas quase nunca é por mal.

Essa sensação de “sou substituível”, de "nada dura para sempre", de "um ciclo acabou" muitas vezes nos impede de fazer aquela ligação dizendo “Sinto sua falta. A correria do dia a dia nos afastou, mas adoraria te ver. Vamos marcar algo?” Outras vezes é mesmo difícil administrar tantas amizades. Por vezes, simplesmente passa. Não se pode ter infinitos amigos porque seus recursos de tempo e capacidade são limitados. Acontece. Quase nunca é por mal.

Seguimos em frente, mas deixamos rastros e é esse pedacinho da gente o que realmente fica na vida do outro. Existe uma frase atribuída a Madre Teresa de Calcutá que diz que “não devemos permitir que ninguém saia da nossa presença sem sentir melhor e mais feliz”. Às vezes fazemos isso sem querer, às vezes de propósito. Mas se sentimos falta, se bate aquela saudades é porque o outro importa e seria justo deixar isso claro pra ele. Nem todas as pessoas que convivem conosco têm a consciência do quanto são importantes para nós. 

Relação tem a ver com reciprocidade, com abrir mão, com baixar a guarda. Devemos nos desafiar a compreender antes de julgar

Meu desejo é que a gente possa sorrir mesmo quando sentimos aquela dorzinha de estar longe quando a gente queria mesmo é estar perto. A maior demonstração de amor que podemos dar uma pessoa não tem a ver com presença física. Tem a ver com estar feliz com a felicidade do outro, com torcer mesmo de longe.

Por que não manifestar a vontade de estar de perto mesmo que não dê? É que às vezes não dá mesmo. É muita coisa, muita gente, muita prioridade... a vida têm dessas coisas.

A intenção precede a ação. O importante é ampliar o olhar, é se colocar no lugar, é ter momentos pra lembrar e reconhecer que nessa bagunça que nos afasta e nos aproxima muita coisa se atropela e quase nunca é por mal.

Amizade não é sobre quem vem ou quem vai. Amizade é sobre o que fica e foi bom.

Por Carolina Manciola, sócia diretora da Posiciona Educação & Desenvolvimento. É uma das colunistas do RH Pra Você. O conteúdo dessa coluna representa a opinião do colunista.

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