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Quarentena em xeque: é o momento para retomar o trabalho presencial?

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Por conta da pandemia do novo coronavírus, empresas de todo o País mudaram a sua dinâmica de trabalho. Pensando na saúde e na segurança de seus colaboradores, organizações promoveram alterações em sua rotina, como a implantação do home office, uma das práticas mais estabelecidas para diminuir os riscos de contaminação da COVID-19 e que se estendeu após estados brasileiros decretarem o isolamento social

Porém, com a retomada gradual de comércios e outros serviços não-essenciais e o afrouxamento da quarentena, as instituições começam a retomar o seu “dia a dia tradicional” de trabalho presencial, inclusive para funções que poderiam seguir com o trabalho remoto. E o questionamento é inevitável: é mesmo o momento certo para seguir com o retorno ao ambiente físico corporativo?

Medo ou alívio?

O home office não foi e não é uma opção para todos. A cabeleireira Daiane Costa*, que atua há dois anos em um salão na cidade de Bragança Paulista (SP), se vê diante de um cenário que ela própria define como “assustador em muitos sentidos”. Mãe de duas crianças pequenas, Daiane seguiu com a sua rotina de trabalho durante toda a pandemia, uma vez que o salão optou por adotar medidas internas de segurança ao invés de suspender o seu funcionamento durante o isolamento social. Se sentindo exposta, a profissional revela que convive diariamente com o medo de ser contaminada pelo vírus e, consequentemente, transmiti-lo a sua família.

“As pessoas, infelizmente, não entendem realidades diferentes das delas. Já ouvi de muita gente: ‘peça demissão’, ‘pense nas suas crianças’, você precisa mesmo disso?’. Busquei outras alternativas nessa pandemia, até mesmo sugeri ao salão a opção de montar um espaço em casa para atender as minhas clientes, porém, não houve negociação. Diante disso, sigo com a minha rotina, pois não posso ficar desempregada. Meu marido trabalha em escritório, está no ritmo do trabalho remoto, mas não conseguimos pagar todas as contas somente com a renda dele. Quem diz para eu pensar nas minhas crianças vai nos ajudar a lidar com todas as contas? A empresa dele ainda não solicitou o retorno ao trabalho, e ele teme que isso aconteça. Duas pessoas trabalhando fora, nesse momento, é um risco às nossas filhas”, conta a cabeleireira.

A realidade de Daiane e seu marido vai ao encontro a de muitos brasileiros. Enquanto, para alguns, o trabalho presencial durante a pandemia é um verdadeiro alívio - especialmente por conta de demissões e paralisações nas contratações que a crise causou, além da falta de adaptação ou estrutura interna para desempenhar um ritmo produtivo no home office -, para outros é motivo de medo.

CFO da Bullet, agência que oferece soluções para comunicação e negócios, Adriana Ribeiro (foto abaixo) pontua que é preciso que as empresas tomarem cuidado com o seu processo de retomada. “É imprescindível que seja feita uma pesquisa com todos os colaboradores referente à volta ao ambiente de trabalho. E, nesse questionários, as pessoas devem ser absolutamente sinceras. Precisamos ter empatia, principalmente com a nossa equipe, que será o nosso maior ativo para uma retomada”.

A executiva alerta que as necessidades das pessoas devem ser ouvidas, ainda mais em um momento tão delicado no qual a saúde deve ser a principal prioridade. Adriana aponta que muitos profissionais, com o questionário em mãos, serão realistas ao dizer que não se sentem à vontade para sair de casa neste momento. E o seu temor precisa ser considerado.

“Precisamos entender o porquê desse receio. Diversos profissionais moram com pessoas do grupo de risco e alguns deles fazem parte, também, deste grupo. É necessário pensar sobre o caminho das pessoas ao trabalho, onde vão almoçar e como retornarão às suas casas. E como ficam as mães que não têm onde e com quem deixar seus filhos? Temos que pensar nelas”.

Adriana conta que na Bullet já foi iniciado o processo de protocolo para o retorno ao trabalho, tanto para a administração da agência quanto para os profissionais, mas ainda não há previsão. “Iremos retomar aos poucos, com segurança e quando todos estiverem confortáveis com a volta. Além disso, é neste momento que o RH ganha um papel mais importante. Ele deverá estar focado a escutar e entender o profissional. É ele quem deverá direcionar os gestores quanto a este retorno e a segurança de todos”.

Desde o dia 16 de março a Bullet trabalha com toda a sua equipe em home office. Aos colaboradores que precisavam de auxílio com a infraestrutura, profissionais de TI foram alocados às casas para instalar todo o equipamento necessário. Foi criado também um manual para orientar líderes e equipe sobre a rotina remota. “Estamos há quase 100 dias e todo o processo foi um sucesso. Temos reuniões diárias, os líderes estão sempre atentos a não extrapolar o horário de trabalho e os jobs foram entregues dentro do prazo”, diz a CFO.

Adaptar e fortalecer

No caso da Mutant, empresa voltada para o Customer Experience (CX), mais do que somente um processo de mudança e aprendizado, a pandemia trouxe às empresas o estabelecimento de práticas já anteriormente experimentadas.

“Acredito que a principal lição disso tudo que estamos enfrentando é que iniciativas já tomadas anteriormente, como horizontalização corporativa e flexibilidade de horários, têm tudo para continuar dando certo. Mas é um trabalho contínuo, em que muitas vezes podemos antecipar necessidades de um mundo novo que venha a surgir”, elucida Guilherme Almeida (foto), Diretor de Marketing & Comunicação da empresa.

A Mutant encarou com naturalidade as mudanças no dia a dia empresarial, uma vez que práticas como o home office já eram comuns na organização. A maior atenção se estendeu a recomendações de saúde e segurança para todo o time de trabalho. E sobre o processo de retomada, “estamos tratando a retomada de uma forma muito orgânica e sem nenhuma pressão, seguiremos à risca quaisquer que sejam as orientações das autoridades e, ao mesmo tempo, estamos aptos a produzir e atender com excelência nossos clientes em qualquer ambiente”, esclarece Almeida.

Entretanto, assim como Adriana, Guilherme deixa claro que a retomada ao trabalho não deve partir somente da gestão e que a decisão deve levar em consideração o momento e o sentimento do colaborador.

“A Mutant sempre colocou nosso maior ativo em prioridade máxima: o colaborador. Jornadas flexíveis, apoio médico e psicológico e todo o respaldo necessário seguirão à disposição seja presencialmente, seja remotamente. Além disso, criamos um programa interno de apoio remoto ao colaborador, no qual podemos assessorá-lo em questões que vão desde ergonomia durante a jornada de trabalho até alimentação. Em uma pesquisa realizada recentemente, a grande maioria dos colaboradores se considerou satisfeito ou muito satisfeito em trabalhar em casa”, pontua.

Do escritório ao campo

Assim como a Bullet, a Yara Fertilizantes precisou adaptar e promover mudanças em sua rotina normal de trabalho para lidar com a crise do novo coronavírus. Porém, a empresa de agronegócio se viu diante de um complexo desafio: como garantir a segurança de uma equipe grande de trabalho que não poderia ficar em home office?

Carlos Lienstadt, Vice-Presidente de RH da organização, explica que, por ser um serviço essencial, foi preciso muita cautela para conduzir todas as mudanças necessárias. No contexto das funções administrativas, em uma semana, 1.300 pessoas foram colocadas em home office, o que o VP revela ter sido um aprendizado e uma ‘quebra de crenças’, especialmente porque muitas pessoas ainda crêem que o agro é algo somente artesanal e com pouca tecnologia presente. Porém, por outro lado, foi preciso administrar a rotina dos trabalhadores que não entrariam no regime remoto.

“Nossa empresa, no meio do agro, é uma empresa de fertilizantes. Ela está no início da produção de alimentos. Sem esse trabalho, daqui alguns meses teríamos a falta de alimentos nas prateleiras. As operações, que contam com quase 4 mil pessoas, continuaram em campo durante esse período. E nos questionamos sobre como fazer valer um princípio que sempre existiu na Yara: o fato da saúde e a segurança dos colaboradores estarem à frente de qualquer outra coisa. Então, como operar de forma saudável em meio à essa pandemia foi motivo de grande reflexão para nós”, explica Lienstadt (foto).

O vice-presidente salienta que todas as regulamentações dos órgãos de saúde foram implantadas à risca, como medição de temperatura, uso de máscara, distanciamento, entre outras medidas, e a empresa foi além nos cuidados prestados. “Promovemos, também, mudanças consideráveis em nossos refeitórios e cantinas em relação ao espaçamento, horários diferenciados de entrada e saída, e adicionais que visam o máximo de precaução com a saúde das pessoas”.

Carlos revela que as ações foram intensificadas também para cuidar da saúde mental dos colaboradores, uma vez que a Yara compreendeu que a rotina normal de trabalho externo poderia causar uma sensação de preocupação aos colaboradores. 

“Assim como nos preocupamos com a saúde física, igualmente nos atentamos ao psicológico da nossa equipe. Criamos, por exemplo, o programa ‘Bem-Estar Yara’, que dentre ações que vão desde ginástica laboral a workshops online, conta com o termômetro do bem-estar, disponível diariamente a todos os colaboradores para que eles, espontaneamente, se manifeste sobre como está se sentindo. Se ele estiver mal, ele tem a opção de recorrer a um médico do trabalho que vai contatá-lo e encaminhá-lo a um especialista, o que inclui psicólogos e psiquiatras se necessário. Outro ponto que trabalhamos para levar mais tranquilidade ao nosso time é uma garantia de remuneração. No início da pandemia, sem termos ideia do quanto ela duraria e do que poderia acontecer, decidimos que se for preciso fechar unidade ou dispensar algum colaborador, vamos garantir mais três meses de remuneração”.

Há um ‘novo normal’?

Termo que se tornou recorrente durante a pandemia, o ‘novo normal’ vai ao encontro do momento de aprendizado vivido pelas empresas, no qual ações implantadas “à força” por conta da COVID-19 foram bem-aceitas tanto por gestores quanto colaboradores e tendem a continuar após a crise passar. O home office é um exemplo, uma vez que empresas que sequer já trabalharam com o modelo remoto tiveram retornos positivos de adaptação, produtividade e resultados com a prática. “Particularmente, não gosto desta expressão o 'novo normal'. Ou será novo ou será normal. Todo novo tem o seu aprendizado e todo normal já entrou na rotina”, ressalta Adriana Ribeiro, que reforça o quanto os impactos do novo coronavírus serão fortes no mercado.

“No mercado de live marketing e comunicação, por exemplo, os impactos serão brutais. A relação cliente e agência terá que mudar, principalmente na sustentabilidade financeira. Para as agências, este período está sendo mortal e a retomada só se dará com uma relação de valor entre o cliente e a agência. Não poderemos ter mais concorrências com muitas agências trabalhando de graça, um prazo de pagamento extremamente estendido e negociações absurdas sobre honorários e taxas. As agências terão que se posicionar na negociação, pois não terão mais fôlego financeiro ou captação de recursos para a "tentativa" do gastar para ganhar”, revela.

Para Guilherme Almeida, o novo e a normalidade dependerão da maturidade corporativa de cada empresa. De acordo com o especialista de Marketing, “quando o olhar está apenas no presente, invariavelmente gestores seguirão inseguros e inconsistentes, pois a gestão corporativa é e sempre será uma constante evolução. Crises sempre existirão. A questão é quanto preparada a cultura interna e processos de cada empresa estão maduras”.

A discussão do ‘novo normal’ esbarra também com as novas habilidades exigidas para os profissionais e que devem ser ainda mais cobradas após a pandemia. A Eureca, consultoria que conecta e desenvolve jovens com o mercado de trabalho, registrou um aumento da demanda por treinamentos com foco na nova realidade imposta pela pandemia de COVID-19. Além de adotar o trabalho remoto para atender as medidas de contenção da transmissão do novo coronavírus implementadas pelas autoridades sanitárias, muitas empresas passaram a exigir de seus colaboradores novas competências e habilidades relacionadas à capacidade de enfrentamento dos impactos da pandemia. 

Com isso, assuntos como inteligência emocional, resiliência, autogestão, trabalho remoto, como inovar e fazer mais com menos estão entre as qualificações mais requisitados atualmente pelas áreas de Recursos Humanos das companhias. “As empresas e profissionais que não buscarem esse tipo de capacitação desde já, provavelmente sofrerão no futuro próximo”, comenta Carolina Utimura, Chief Revenue Officer da Eureca. 

O cenário pós-pandemia também ressalta a discussão sobre diversidade e inclusão nas organizações. A consultoria estima que a lacuna entre o que as faculdades ensinam e o que o mercado de trabalho demanda, conhecido no setor como "skill gap", tende a aumentar, já que grande parte das instituições de ensino levarão alguns meses ou anos para atualizar seus currículos, que já são bastante defasados. Como consequência, mais jovens, principalmente os estudantes com menor poder aquisitivo, entrarão no mercado de trabalho despreparados, deixando para as organizações a responsabilidade de capacitá-los.

“As empresas levaram algum tempo para se estabilizar após o choque causado pelo COVID-19. Primeiro, cuidaram de assuntos emergenciais como a saúde de seus colaboradores e as condições para se trabalhar em home office ou isolamento social. 50% dos projetos de treinamento que aplicamos nas corporações foram iniciados nos últimos quatro meses”, finaliza Carolina.

Confira também o nosso podcast "Como preparar o ambiente de trabalho para a volta ao escritório?".

 

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