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Propósito de vida, sonhos e autogestão de carreira

Coluna 361

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Foi aos 20 anos, ao ler o meu primeiro livro fora do contexto escolar, que peguei o gosto pela leitura. Até então eu tinha certeza de que seria jogador de futebol profissional — habilidade, potencial e vontade sobravam — e estava prestes a ingressar em um grande clube paulista. Nessa ocasião aconteceu algo que determinou uma mudança na minha vida. Minha mãe, querendo me ajudar a entender que o conhecimento poderia abrir mais portas para um jovem sonhador, presenteou-me com um livro que argumentava que eu poderia ser não somente um jogador de futebol, mas também exercer outras atividades. Deixei-o em um canto do quarto por um bom tempo, até que certo dia, ao olhar abandonado aquele exemplar de Seu Diploma, Sua Prancha, de Roberto Macedo, senti despertar uma imensa vontade de lê-lo.

Ao ler as primeiras páginas, senti minha cabeça explodir de animação. O livro não trazia fórmulas mágicas, milagrosas e nem indicava caminhos fáceis. Pelo contrário, trouxe uma série de dúvidas e perguntas próprias de um jovem recém-saído da adolescência com sonhos de jogar futebol na Europa. Oferecia poucas respostas e compartilhava dicas valiosas para a descoberta do autoconhecimento

Aquela leitura ajudou-me a procurar as melhores ações para meu desenvolvimento pessoal e profissional. Também me estimulou a buscar continuamente por informações sobre condução de carreira, como encontrar a empresa dos sonhos, avaliar os diferentes segmentos de mercado, trocar e aproveitar melhor as experiências profissionais vividas e como complementar a formação com outros cursos e atividades. Passados 20 anos, reli-o — e não é que se mantém atualizado? Até o assunto “clareza de propósitos”, um tema muito comentado nos dias de hoje, está lá, bem explicado.

Entendi que gostava de futebol, mas essa não era necessariamente a carreira dos meus sonhos - descobri que queria mesmo era ser empreendedor. A fim de me preparar melhor, fui estudar Administração de Empresas (minha mãe foi minha professora na universidade). A identificação com as disciplinas do curso foi grande e, passados alguns anos, recebi um prêmio da universidade, concedido apenas a quatro pessoas até aquele momento, reconhecendo-me como um dos ex-alunos com maior destaque na vida profissional.

Ao terminar o curso, decidi fazer um MBA em Tecnologia da Informação, pois na minha percepção, informação, tecnologia e análise de dados é que conduziriam os profissionais ao sucesso. Ao terminar a pós, outra descoberta, vi que o futuro seria conquistado por gente talentosa, preparada, focada na realização dos seus propósitos e que soubessem desenvolver e analisar as informações geradas pelas novas ferramentas da tecnologia.

Decidi trabalhar na área de recursos humanos (RH) — a estrutura mais próxima das relações entre as pessoas dentro das organizações. Comecei a participar de alguns processos seletivos para programas trainees, com certo frio na barriga, pois eles geralmente atraem milhares de candidatos. Dei uma ajuda para a sorte preparando-me com afinco e cheguei à fase final em três grandes organizações. Por aproximação de valores e crenças, escolhi e fui escolhido para trabalhar como trainee na área Recursos Humanos atendendo o departamento comercial de uma grande cervejaria familiar do interior de São Paulo. A empresa naquele momento estava com planos de expansão e virada, mas como atuava em um mercado tradicional, o desafio era grande. A partir daí, cresci rápido e, em oito anos, já estava em outra organização, sentado na cadeira de principal executivo de RH em uma empresa que faturava bilhões de reais e com mais de 25 mil colaboradores. Minha equipe era composta por 250 pessoas.

Hoje, caminho para a sexta empresa. Já atuei em 13 diferentes negócios e segmentos e me aprimorei estudando no Brasil, Estados Unidos e Europa. Além de executivo de RH, atuo também como conselheiro de administração. Recebi reconhecimento em premiações nacionais importantes como um dos RHs mais admirados no Brasil, Top of Mind na categoria dirigentes de RH e HR Influencers da América Latina.

Conto sobre a minha rápida ascensão ressaltando que não tenho dúvida em creditá-la ao fato de estar sempre conectado ao meu propósito de vida; em seguir meus sonhos trabalhando naquilo que gosto e acredito. Minhas conquistas são consequências de ter aprendido a gerir de forma consciente meu plano de vida profissional, independentemente das empresas em que trabalhei. Plano de carreira é plano de vida.

Como profissional de RH, noto que muitos colegas, dentro e fora das organizações em que atuei, não estão autogerindo suas carreiras, não têm planos, sonhos profissionais definidos e nem sabem para onde estão sendo levados. Deixam seus planos de vida serem decididos pela empresa em que trabalham. Com isso, ficam presos ao paradoxo do sucesso e da estabilidade.

A caçadora de tendências Sabina Deweik costuma compartilhar em suas palestras: “No passado se buscava mais emprego do que trabalho”. A diferença entre trabalho e emprego é que o trabalho é alinhado ao seu propósito. No passado, os empregos eram lineares, o profissional podia começar como apertador de parafusos júnior e terminar como vice-presidente apertador de parafusos. O crescimento acontecia por tempo de serviço e as pessoas trabalhavam 20, 30, 40 ou até 50 anos na mesma empresa. O objetivo maior era guardar dinheiro para uma boa aposentadoria. Para isso, “engoliam sapos” impostos por chefes, muitas vezes tiranos e incompetentes.

Tempos depois surgiu uma nova geração e o sucesso profissional passou a representar sucesso econômico. Foi nessa época que apareceram os workaholics — gente viciada ou doente por trabalho. Eles deixavam de lado a família e hobbies, abafando sua personalidade e esquecendo-se das suas crenças. Trabalhavam até altas horas, não curtiam os feriados, fins de semana e nem tiravam férias de maneira adequada. A maioria adoecia portando o falso orgulho dos seus sobrenomes organizacionais e os status que conseguiram com tanto esforço — pura máscara organizacional. Foi essa geração que criou o costume do happy hour ao final do expediente, pois durante o horário do trabalho não se podia ter horas felizes.

Os filhos da geração seguinte presenciaram suas mães entrarem no mercado de trabalho e com elas muito tempo fora de casa, acabaram sendo criados por terceiros: parentes, babás e televisão. Seus pais, para compensarem o tempo despendido no trabalho e não com eles, sentiam-se culpados e atendiam quase todos os seus desejos. Assim, formou-se uma geração que não sabe lidar com a frustração, com o não pode e o não deve — fazem apenas o que gostam de fazer. Ao entrarem no mercado de trabalho, fizeram o turnover das empresas explodir. O fazer o que se gosta trouxe para esses jovens o encontro com as suas essências e, em consequência, o senso de propósito, liberando seus verdadeiros talentos e veias artísticas. Esta geração sabe procurar por empresas que tenham a mesma conexão com suas crenças e isso acabou mudando o jogo de forma positiva.

Cuidar do alinhamento entre propósito, alegria e talento muda a nossa vida, principalmente à medida que o conceito de lifelong learning ganha força. Essa mudança de perspectiva ultrapassa a visão de que a educação se limita aos sistemas escolares formais. A aquisição de conhecimentos e habilidades ocorre ao longo da vida, cuja expectativa aumenta a cada ano.

Com esta visão, aproveitei a pandemia e a quarentena e me permiti sonhar que poderia escrever um livro, e que este pudesse ajudar os leitores da mesma forma como aquela minha primeira leitura não acadêmica me ajudou. O sonho se tornou realidade, lancei-o na semana passada com o título O Acaso não Existe (Editora Zik), e agora o meu desejo é que ele possa tirar as pessoas do piloto automático e que elas passem a conectar suas carreiras, sonhos e propósitos às mudanças pelas quais o mundo está passando.

Se você for um leitor dele peço que as possíveis reflexões que ela irá gerar, sejam compartilhadas comigo e aí conseguirei sentir se o meu sonho e objetivo ao escrevê-lo foram realizados — como uma corrente do bem.

Obrigado e grande abraço.

Gustavo Mançanares Leme - Executivo de RH, Conselheiro e Mentor de Startups, com experiências em processos de transformações culturais e turn around de modelo de negócios. Estrategista e especialista em práticas de excelência em desenvolvimento e performance organizacional. É um dos colunistas do Rh Pra Você. Foto: Divulgação. O conteúdo dessa coluna representa a opinião do colunista. Foto: Divulgação.

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