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Por Trás De Um Tabu: O Álcool E As Drogas Em Ambiente Corporativo

SAÚDE E QUALIDADE DE VIDA

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Para muitos profissionais, o período do dia dedicado ao trabalho é superior ao tempo voltado para sua própria vida e família. Não é exagero dizer, inclusive, que existem pessoas que ficam mais tempo em ambiente corporativo do que permanecem em seu lar. Ainda assim, apesar da intensidade da rotina profissional e do excesso de tempo no escritório, o universo empresarial não deixou de ser conduzido por tabus, inseguranças e preocupações. Em outras palavras, ainda é difícil ter a brecha para que aspectos pessoas se manifestem. Quer um exemplo? Quantas vezes em sua empresa temas como álcool e drogas foram abordados em tom conscientização e não de maneira pejorativa ou discriminatória?

Ao mesmo tempo em que temos a compreensão do quanto as drogas ilícitas podem ser destrutivas, pouco nos atentamos ao impacto daquelas que são lícitas. Segundo a Organização Mundial da Saúde, enquanto drogas proibidas matam, em média, 250 mil pessoas ao ano pelo mundo, o álcool resulta em mais de 2,25 milhões de óbitos no mesmo período. Aqui no Brasil, de acordo com o Ministério da Saúde, 12% da população adulta enfrenta a dependência do álcool, algo em torno de 20 milhões de pessoas. Nem mesmo doenças como AIDS, tuberculose e malária, em números, causam estrago semelhante.

Aqueles que enxergam a realidade do problema e não se limitam a piadas de mau gosto ou estereótipos cruéis, sabem que a dependência de qualquer tipo de droga não faz somente vítimas diretas, mas também indiretas. O estímulo à vergonha e não à ajuda faz com que poucas famílias falem abertamente sobre o problema, assim como os próprios dependentes. E se a barreira já é difícil de ser quebrada até mesmo em ambiente familiar, não é no escritório que o desafio se torna menor. Uma realidade que precisa – urgentemente – mudar.

Diante deste perverso cenário, Paulo Leme Filho, dependente químico em abstinência há mais de 22 anos, traz para a sociedade um relato corajoso e sem meias palavras de como deu a volta por cima e reencontrou o caminho do equilíbrio e da vida produtiva em sociedade. Paulo tem 48 anos e é graduado em Direito pela USP, com MBA em Gestão de Saúde pela FGV. É advogado militante, sócio de um renomado escritório de advocacia na cidade de São Paulo e palestrante.

Em parceria com o pai, o médico Paulo de Abreu Leme, abstêmio há 30 anos, Filho escreveu os livros “A Doença do Alcoolismo” (2015) e “Que Mal Tem?” (2019) e teve sua história contada no livro “Vai Valer a Pena” (2018). Ambos trabalhos mostram aspectos da doença do alcoolismo e da dependência, além da experiência vivida. Hoje livre da doença que quase o destruiu, o advogado relata em palestras a sua luta para, dia após dia, conquistar uma nova vitória em sua vida, e os caminhos para ajudar aqueles que enfrentam o mesmo vilão.

Da necessidade nasce a disciplina

Paulo conta que sua mudança de vida em prol de superar o álcool nasceu da necessidade que se fortaleceu pela gravidade do problema. “Eu cheguei a um ponto em que era viver ou morrer. É uma situação que você está perto da morte física e moral. A sensação é de humilhação. Estava sem estudo, trabalho, amigos, um verdadeiro caos pessoal. Enquanto vivenciava isso, fui conhecendo mais sobre o trabalho das terapias em grupo. E ao ver que havia pessoas cuja disciplina as faziam se recuperar, eu passei a acreditar nisso. Era o que eu queria para mim. Eu conversava com pessoas que tinham respaldo para me falar que o sucesso do programa era real”.

Segundo o especialista, um dos principais desafios para promover uma mudança de vida, seja em questão da batalha contra a dependência quanto em relação a qualquer outro problema, é o desenvolvimento da disciplina. Filho explica que, primeiro de tudo, é necessário que o indivíduo se convença do quanto pensamentos e ações positivos, disciplinados, e confiantes o trarão benefícios efetivos.

“No meu caso, por exemplo, ciente da urgência e da necessidade do meu problema, eu me disciplinei a ir a um grupo de autoajuda todos os dias. Eu precisei me disciplinar porque eu sabia que isso era fundamental para mim, por mais trabalhoso que fosse. Enfatizo, não era uma vez por mês, por semana ou de vez em quando, mas sim todos os dias, fizesse chuva ou sol. Era como eu sentia e sabia que poderia me recuperar de maneira plena”. A partir da habituação e uma vez que os benefícios começam a ser colhidos, a disciplina se torna algo natural, não uma imposição. “A disciplina não é um conceito imposto de cima para baixo. Ela faz bem a quem a aplica. Seguinte a isso, passamos a ter maior confiança em nós mesmos conforme notamos que somos capazes de progredir naquilo que nos dispomos a fazer. Aprendi que não se pode protelar, mas buscar melhorar agora e a cada momento”, relata.

De acordo com Filho, não se pode esperar que a jornada de recuperação seja um caminho fácil. O advogado relata que foram diversos os momentos de infelicidade, de reclamações, de dificuldades para se manter firme na disciplina proposta, “mas eu consegui aplicar, porque sabia o quanto precisava daquilo”. O choque de realidade nasce quanto determinadas situações não são mais encaradas como aceitáveis ou normais. “Se você fica uma hora sem beber, já acha que é capaz de se controlar. Se dorme uma noite na rua, acredita que ‘é algo que acontece’. Quando você admite que isso não está certo, isso te motiva a encarar o problema de frente”, diz.

Movimento Vale a Pena e o trabalho com palestras

Desde 2015, Paulo Lima Filho rompeu a barreira de sombras, tão comum aos dependentes que conseguem se recuperar, e decidiu dar sua contribuição por meio de palestras para ampliar o debate e chamar a atenção para os perigos desta doença silenciosa, sorrateira, da qual nenhuma família pode se considerar imune. O seu objetivo é somar esforços, e não dividir forças.

“As pessoas têm muita dificuldade em falar da doença do alcoolismo basicamente por duas razões. A primeira porque nem todo mundo que bebe desenvolve a doença, então logo de cara já existe essa resistência, e a segunda, é porque a esmagadora maioria das pessoas acha que o alcoolismo é uma questão de caráter, um problema moral. Mas, o que muitas ainda não sabem é que a primeira droga que alguém entra em contato antes da dependência química é o álcool”, afirma Leme Filho.

E foi com o objetivo exatamente de informar sobre essa situação que ele decidiu contar sua experiência dos 16 aos 25 anos, período em que conviveu com a doença, e depois dos seus 25 anos, contando como conseguiu se recuperar. “Atualmente, a minha palestra é focada em mostrar como alguns dos atributos que eu desenvolvi ao longo dos anos, como foco, disciplina, atenção à saúde física e mental, podem ajudar as empresas a alcançarem melhores resultados. E o paralelo que eu traço é contando como eu consegui vencer o alcoolismo e a dependência química. Quando você tem uma referência, algo todo dia que faz você enxergar como você é e não como os outros enxergam, isso é algo muito importante”, diz Leme Filho.

Para o advogado, outro ponto que o ajudou foi ter ambição. “A minha ambição não era necessariamente financeira e sim profissional. Eu queria ser um bom advogado. Eu tinha ambição, eu tinha um foco, eu queria algo e me empenhei. Coloquei na minha cabeça que a minha deficiência não era um problema e comecei a correr atrás do que eu queria. E é sempre preciso ter um próximo passo”.

Além disso, Filho Fundou a Movimento Vale a Pena, ONG voltada à prevenção e conscientização acerca da dependência química, em especial junto aos mais jovens (www.vaivalerapena.net.br); e o aplicativo Eu me Importo (https://bit.ly/2nUKU4y), ferramenta disponível para download em sistema Android que reúne, de forma inédita, com mais de cinco mil endereços de grupos de apoio aos dependentes e também informa os dias e horários das reuniões. “Durante as palestras de divulgação do primeiro livro, percebi o interesse das pessoas em saberem da minha experiência no dia a dia. E o Movimento Vale a Pena tem esse propósito: mostrar na prática como consegui superar essa fase difícil que atravessei. Contar essa história é uma forma de incentivar as pessoas a darem o primeiro passo para recomeçar”, esclarece.

A luta contra o pejorativo e o papel das empresas

Tanto nas palestras quanto no trabalho da ONG, um dos maiores desafios de Paulo é quebrar o tabu em torno do assunto que é a dependência e, principalmente, conscientizar sobre o mal que brincadeiras, estereótipos e visões preconceituosas e pejorativas podem causar. “Em primeiro lugar, a gente espera que dentro das empresas o RH tome partida em ações de conscientização e auxílio. Mas a gente não pode exigir que ele faça isso sozinho. É enraizado em nossa sociedade que dependência química ou alcoolismo é questão de ‘vergonha na cara’, de ‘vagabundagem’, então há a crença de que a pessoa para quando quer. Quando passa a ter vergonha na cara, ela para. Eu cansei de ouvir isso dentro de empresas, então, a percepção social geral em sua esmagadora maioria é essa”, pontua. “Eu vejo, muitas vezes, que o RH até está preparado para lidar com o problema, até tem a informação necessária, mas não tem o respaldo da empresa como um todo. Esse mal é da cultura brasileira em geral, não só de organização X ou Y, pois é uma ausência de caráter”, acrescenta.

Filho explica que é essencial, com uma abordagem cautelosa e objetiva, levar esse assunto para dentro das empresas e expor toda a realidade por trás, desde as consequências sociais, como problemas de relacionamento, até as econômicas, como a perda de produtividade. “Também é necessário demonstrar que a doença do alcoolismo, da dependência química, não escolhe profissão, classe social, cor de pele, absolutamente nada. É a doença mais democrática que existe, seja qual for a posição profissional. Hoje, é um cenário extremamente complicado de se lidar, mas é preciso criar um ponto de partida. É fundamental promover programas de conscientização com efetivo conhecimento no tema para sensibilizar os colaboradores. Não é só contar uma história triste, pois isso ele podia ouvir de qualquer um, mas sim investir em campanhas que orientem. É uma doença que atinge uma parcela muito grande da população, o que remete a um contexto grave e que precisa ser tratado e não deixado de lado”, finaliza o advogado.

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