- Início

- Conteúdo

Orientação política nas empresas: a 'guerra' chegou ao seu negócio?

Compartilhe Este Post

Realizada no ano passado, a pesquisa ‘A Diversidade e a Inclusão nas Organizações do Brasil’, conduzida pela Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (Aberje), revelou que entre o público que já sofreu algum tipo de discriminação em ambiente de trabalho, em 36% dos casos a razão foi a orientação política.

Não é difícil entender porque a política é uma das principais causas de bullying corporativo. Passar alguns minutos do dia em qualquer rede social é o suficiente para compreender o quanto opiniões políticas diferentes são rebatidas com discursos violentos que incluem ofensas, gozações, mentiras e até mesmo ameaças de morte. Em alta, a polarização política se tornou um problema que pode ter consequência negativa para negócios de todos os portes.

Segundo Hamilton dos Santos, diretor-geral da Aberje, os dados levantados pelo estudo mostram que o cenário é decorrente mais por conta do momento do país do que propriamente do clima organizacional da empresa. “Apesar de entendermos que estamos vivendo um momento intenso de polarização política, é preciso que líderes e gestores fiquem atentos para que eventuais conflitos não se tornem crônicos e contaminem a organização como um todo”, enfatiza.

O RH deve discutir política?

Na opinião de Reinaldo Passadori, Fundador e CEO da Passadori Comunicação, Liderança e Negociação, e um dos colunistas do RH Pra Você, "as empresas devem se preocupar com suas políticas, com a econômia, com o bem-estar de seus colaboradores e também na geração de um clima organizacional saudável para se trabalhar". Por conta disso, o especialista enfatiza que a organização tenha em seus valores o respeito como um condutor de ações. "As pessoas são como são, então as empresas precisam trabalhar em práticas que estimulem o respeito entre quem não pensa diferente. Deve-se criar um ambiente sem preconceitos, mas também evitar que os colaboradores tenham a liberdade para fazer comícios políticos".

Para a fundadora e CEO da Future Minds e do RH Que Inspira, Lilian Cidreira, é importante que as empresas avaliem a existência de dois cenários antes de tomar qualquer ação referente a problemas de ambiente que a orientação política possa causar. O primeiro, se já existe na organização um “clima de guerra” estabelecido. Já o segundo diz respeito às empresas que não querem correr o risco de tê-lo.

“Para aquelas que já possuem [um clima ruim por conta de opiniões políticas diferentes], um ponto inicial para quebrar esse tipo de situação é efetivamente começar com algum tipo de punição. Não é fácil conseguir quebrar algum tipo de cultura que já foi pré-estabelecida de maneira errada. Nesse caso, é importante entender que intolerância não vai ser aceita e que de alguma maneira essa não aceitação vai ter consequências, como uma advertência ou uma não possibilidade de promoção. São opções que dão início a uma alteração natural na cultura a partir de uma nova regra. Se olharmos para o passado, a lei que obrigava o uso dos cintos de segurança dos automóveis foi, na verdade, algo impositivo que alterou a cultura”.

A especialista alerta que mesmo as empresas que possuem um ambiente corporativo saudável não devem se acomodar. “Há sempre a necessidade de se precaver, como a inclusão de debates que trazem pontos de vista diferentes ou uma cultura que estimule que as pessoas tenham a liberdade para defender suas crenças”.

Já de acordo com Marcelo Furtado, Cofundador da Convenia, é fundamental que os RHs tomem ações sempre demonstrando isenção de qualquer viés. “É importante para a manutenção da cultura da empresa que as pessoas se respeitem e, para isso, as discussões acaloradas podem acontecer de forma saudável mas também podem sofrer interferência se houver necessidade”, salienta. 

O executivo reforça o ponto de vista trazido por Lilian ao comentar que “o RH e as lideranças devem colocar limites nas discussões, principalmente quando elas ganham tons ofensivos”. Furtado pontua que é necessário ter cuidado com as abordagens e acompanhar situações que podem se estender em brigas ou problemas para a empresa. “Estamos vivendo um período onde as pessoas, em geral, ouvem mais para contra-argumentar do que para compreender a opinião do outro”.

Os cuidados com o posicionamento

Hoje, as marcas vivem um panorama de certa complexidade ao decidir por tomar ou não partido diante de determinadas situações. Empresas que se manifestam a favor da diversidade, por exemplo, ao mesmo tempo que ganham elogios e conquistam novos públicos, por outro lado são retalhadas e até boicotadas por pessoas mais “tradicionalistas” que se veem incomodadas pelo posicionamento assumido. Já organizações que não se engajam em causas sociais ou que não expõem o que especificamente defendem, convivem com constantes cobranças para que “saiam de cima do muro” e assumam algum lado. E a mesma lógica do exemplo utilizado vale para a orientação política (quem não se lembra do caso Havan?!).

Furtado orienta as marcas a se atentarem mais com os conjuntos de valores estabelecidos do que com posicionamentos políticos específicos. Para ele, não é necessário se expor politicamente para, ainda assim, conseguir construir uma marca forte. “Todas as pessoas têm o direito de exprimir a sua opinião. É importante também que todas as pessoas entendam que suas opiniões têm impacto e consequências. Na minha opinião, se a empresa quer manter uma cultura de diversidade e segurança psicológica, ela não deveria se envolver diretamente em discussões políticas sob pena de atrair pessoas que se alinham apenas ao seu modo de pensar”.

Com ponto de vista semelhante, Passadori reforça que as empresas devem ter muito cuidado ao se posicionar politicamente. "Posso ter uma posição hoje e mudá-la amanhã. É um aspecto que pode prejudicá-la como marca. Eu penso que cada líder, gestor, empreendedor, colaborador possa ter a sua opinião própria, mas não usar a empresa para divulgar suas ideias", comenta.

Por outro lado, Lilian traz à tona a lembrança de que as empresa também tem a sua parcela de responsabilidade social, o que é um incentivo para que elas não se omitam em questões políticas.

É necessário reforçar que precisamos ter essa discussão de desenvolvimento da sociedade, é importante que as pessoas tenham consciência de que todas empresas possuem uma parcela de responsabilidade social e que todos os colaboradores que estão ali tem a oportunidade de contribuir para fazer algo em prol da sua comunidade e da empresa. Então esse tipo de promoção é importante e não vale somente para a área de responsabilidade social, é uma posição ampla e importante de se ter para que todas as pessoas realmente se coloque em uma posição de refletir sobre como elas ajudam a transformar o mundo e a sociedade em um ambiente melhor”, finaliza.

Você também vai gostar