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O Surto do Coronavirus e o "novo normal": temos muito a aprender

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Li um artigo do MIT Sloan Management Review, publicado nesta semana, dia 16 de Março de 2020, com o título “Is the COVID-19 Outbreak a Black Swan or the New Normal?” (O Surto do COVID-19 é um Cisne Negro ou o Novo Normal, em tradução livre). O termo “Black Swan” é uma referência ao livro “A Lógica do Cisne Negro” (“The Black Swan”, em inglês) de Nassim Nicholas Taleb, publicado em 2007.

Taleb define Cisne Negro como um acontecimento improvável, algo espantoso, curioso e que desafia totalmente as crenças atuais da sociedade, mas que, depois do ocorrido, as pessoas procuram fazer com que ele pareça mais previsível do que realmente era. É uma analogia à antiga crença europeia de que os cisnes só existiam na cor branca, mas que foi quebrada no século XVII quando ingleses avistaram cisnes negros pela primeira vez na Austrália.

Façamos um paralelo desta história com nossa atual situação de pandemia do COVID-19, o Coronavírus. A data da publicação deste artigo do MIT ficou marcada aqui no Brasil pelo período dos apelos de agentes da saúde para que a população ficasse em casa, obrigando as pessoas a mudarem suas rotinas e as empresas a adotarem, quando possível, um modelo de trabalho remoto, a parir de suas casas (home office). O que ficou muito evidente é que nem todos estavam preparados para isso, demonstrando o primeiro cisne negro desta crise.

Voltando ao livro, Taleb diz que estes tipos de acontecimentos possuem três características principais: são imprevisíveis, causam impactos gigantescos e, depois que ocorrem, centenas de explicações surgem para tentar afirmar que são menos aleatórios e mais previsíveis do que realmente foram. Ou seja, querem tornar o evento um fato comum e diminuir o medo das pessoas, sua ansiedade e euforia em relação ao novo, ao desconhecido. Seguindo o raciocínio, é uma obviedade falar que o Covid-19 é um fato imprevisível, mas e seus impactos? Quantos deles são óbvios? Quantos de nós estamos preparados para encarar as mudanças que agora somos obrigados a fazer? Como os negócios reagem à volatilidade e à incerteza do momento, somados à complexidade que nós mesmos criamos no passado? Como tomar decisões rápidas com informações tão ambíguas? O que acabo de mencionar já foi tema de centenas de eventos nos últimos anos e poderia continuar citando uma dúzia de livros que usam o termo VUCA (Volatilidade, Incerteza, Complexidade e Ambiguidade), inclusive na capa. Isso apenas reforça que estamos há anos tendo indícios sobre como o mundo se comporta na atualidade, com poucos se preparando de forma efetiva para enfrentar essa nova realidade.

Os impactos desta pandemia estão sendo devastadores, mas vamos focar somente no modelo de trabalho vigente na maioria das empresas. No ano passado, diversos autores falaram que os empregos tradicionais estavam por acabar, que a tecnologia estava aos poucos substituindo os humanos e que muitos empregos estariam com seus dias contados. Os atuais acontecimentos não invalidam este raciocínio, mas nos mostram que ainda estamos longe desse cenário apocalíptico do trabalho descrito nos últimos anos. Ainda somos, e ao que me parece, seremos por um bom tempo, dependentes de seres humanos para realizar alguns serviços básicos e, muitos desses, pouco valorizados em tempos “normais”. Alguém já pensou se o caixa do supermercado estivesse fazendo home office? Ou se os garis parassem por uma semana?

Sem entrar em discussões éticas, vamos nos restringir às questões tecnológicas e comportamentais. O que estamos percebendo é que o COVID-19 está forçando o mundo a se adaptar a uma nova realidade, uma realidade em que o trabalho pode e deve se tornar remoto. Isso trouxe à tona fragilidades e dependências do contato humano, da intervenção humana. Vejo questionamentos e conselhos nas redes sociais sobre como manter a produtividade em home office.

Queremos ser digitais nos serviços financeiros, mas nesta mesma semana, um amigo meu, cujo pai é idoso e tem problemas de saúde, foi obrigado a sair de casa para leva-lo até o banco a fim de fazer prova de vida para dar continuidade à sua aposentadoria. Não parece incoerente, um representante do grupo de alto risco ter que se deslocar para assinar papéis com todos os recursos digitais existentes nos dias de hoje? Por mais que o atendente (novamente demonstramos a dependência da sensibilização e empatia humana) foi até o carro e coletou sua assinatura, ainda vivemos num mundo extremamente analógico, ou melhor, mecânico. Ainda fazemos coisas exatamente igual ao que fazíamos há décadas, como assinar papéis, mesmo com todo o avanço tecnológico existente.

Acredito que é possível aprender em todos os momentos e estamos percebendo que falta muito para evoluirmos como sociedade na direção do futuro tecnológico, que irá permitir receber comida em casa sem colocar outro ser humano em risco, que não dependa de assinaturas em papel, e que o trabalho remoto não seja interrompido por que a internet caiu. Todas essas âncoras que limitam nosso avanço ao futuro tecnológico são os verdadeiros Cisnes Negros da atualidade que serão vistos como o novo normal num futuro próximo.

Andrew Winston, autor do artigo do MIT que citei no início deste texto, fala que a resiliência econômica, diante destes cisnes negros, exige das empresas uma forma diferente de atuar. Nosso modelo econômico, segundo Winston, é baseado na eficiência, na busca de formas mais rápidas e baratas de se fazer algo. Este é o modelo de competitividade, baseado em tempo e custo. Então, olhando para as fraquezas evidentes de uma sociedade totalmente dependente do ser humano, analisando a afirmação de que empresas desejam encontrar maneiras rápidas e baratas para obter vantagens diante de sua concorrência, fiquem tranquilos! Ainda vai demorar, mas não se acomodem tanto, pois todos nós vamos aprender algo de valor com este surto. Diversos desses cisnes negros serão nosso novo normal e quem não se adaptar, empresas e pessoas, talvez fiquem em grande desvantagem nesse futuro.

Por Mateus Piveta, Sócio Diretor de Novos Negócios da Surya, empresa voltada à educação digital de líderes

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