- Início

- Conteúdo

O RH sofre uma crise de identidade?

Compartilhe Este Post

Direto ao ponto, respondendo a provocação feita no título deste texto: "O RH sofre uma crise de identidade". É o que diz Marco Ornellas, psicólogo especializado em Comportamento Organizacional pela California American University. A área, fruto da Segunda Revolução Industrial, teve como sua primeira finalidade cuidar do contrato de trabalho e da confirmação absoluta do poder, além de mediar a adaptação passiva do funcionário ao sistema da empresa. 

Mas hoje, muito além das atividades técnicas, as empresas precisam de um RH como designer organizacional, defende o autor do livro DesigRHns para um novo mundo – Como transformar o RH em um designer organizacional. A sensibilidade ao entorno, o uso da tecnologia como aliada e o posicionamento do indivíduo como protagonista, não mais como objeto passivo, são elencadas por ele como as principais características de um RH voltado para o futuro.

O mundo VUCA (volátil, incerto, complexo e ambíguo), que caracteriza nosso momento histórico, transformou diversas práticas antigas em passado. "A grande maioria das soluções que tínhamos outrora não dão mais conta de atender e resolver os paradoxos deixados pelas crises de valores, crise do modelo econômico e a crise de sustentabilidade. Mais do que uma era de mudança, estamos vivendo uma mudança de era, em que todos os modelos estão sendo questionados e colocados à prova", explica Ornellas.

Com os Recursos Humanos não é diferente. Segundo o especialista, velhas técnicas da área estão sendo substituídas pela tecnologia - nas mãos de aplicativos ágeis, acessíveis e que trazem na sua concepção uma experiência de valor para líderes e colaboradores. "As velhas planilhas precisam dar espaço para os dados de última geração (HR analytics); o gostar de pessoas precisa ser um olhar para o humano dentro do sistema organizacional; e a crença sobre a harmonia, bem estar, de um lugar de gente feliz precisa ser abandonada por uma postura mais provocativa e de criação de incômodos que possam gerar movimento e mudança", defende.

Com o olhar voltado para fora, o profissional de RH e, em conjunto, todos dentro da organização devem buscar reconhecer o cenário e os padrões emergentes. Internamente, é preciso avaliar a capacidade da companhia de sobreviver e se adaptar, redesenhar constantemente os seus sistemas. Depois disso, vem a transformação, a capacidade de se antecipar às mudanças e de fazer escolhas positivas para as organizações, as comunidades e o mundo. "Klaus Schwab no livro a Quarta Revolução Industrial diz com toda a contundência que a questão não é mais se essa revolução vai afetar ou não o seu negócio, mas sim quando e com que profundidade essa transformação vai impactar".

Marco Ornellas diz que, para se tornar um ator produtivo do sistema ou um designer organizacional, o profissional deve fazer três movimentos essenciais:

1) Desapegar: "Primeiro, enterrar definitivamente as atividades operacionais e o título de Recursos Humanos. Libertar-se da burocracia e de um banco de dados rico mas subaproveitado e promover definitivamente a transformação digital em RH. Há um gap considerável entre as tecnologias disponíveis hoje e a curva dos negócios. Ainda há poucas empresas tirando proveito da inteligência artificial. O RH precisa abrir mão do que o teórico Dave Ulrich chamou de 'zelador da infraestrutura'".

2) Doar: "O segundo movimento é o de se entregar à tecnologia ou mesmo às pessoas - líderes e colaboradores -, à gestão das pessoas. A gestão dos recursos humanos não é mais uma fronteira de RH. É chegada a hora de reconhecer e confiar no protagonismo das pessoas. Não faz mais sentido o RH com o papel que Ulrich denominou de administrador da 'contribuição das pessoas'. A cultura taylorista ficou no passado, estamos na era do propósito, das transformações digitais e da essência do ser humano".

3) Descobrir: "O designer organizacional é o profissional curioso que enxerga os problemas complexos como parte do seu dia-a-dia, que explora cenários, simplifica os dilemas e constrói projetos centrados nas pessoas, a partir de conceitos e premissas das novas escolas do conhecimento. Designer organizacional rompe a bolha e abandona o mindset viciado ao tornar a empatia, a colaboração e a experimentação como os core skills para propor disrupção ou mesmo se disruptar".

A apropriação da gestão das pessoas

Para concluir seu pensamento, Marco Ornellas cita Brain Solis, analista da consultoria futurista Altimeter. “Agora é o momento do investimento em algo mais do que preço, desempenho e valor. O futuro do negócio é sobre a criação de experiência, produtos, programas e processos que evocam o esplendor e reativam a interação sincera e significativa e o crescimento”, diz ele. 

E Ornellas completa: "Não faz mais sentido esse processo de gestão ser delegado ou ocupado pela área de RH e tampouco ser desprezado diante da gestão do negócio. Não é exagerado dizer que o momento requer novas práticas e para que possam desenhar novas práticas é preciso olhar os problemas com um outro mindset".