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O que aprendemos sobre o trabalho em casa durante a pandemia

Coluna 1207

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A partir de dezembro de 2019 houve a transmissão de um novo coronavírus que passou a ser denominado SARS-Cov-2 ou COVID-19. A partir dos primeiros casos observados em Wuhan na China, a transmissão do vírus se disseminou rapidamente, particularmente pela globalização, com a facilidade no deslocamento entre países e continentes. Considerando-se que a doença não possui tratamento reconhecido cientificamente, busca-se reduzir as taxas de transmissão pelo isolamento social, identificação precoce das infecções e tratamento médico adequado. Infelizmente, no Brasil, em agosto, superou-se a marca dos 100.000 mortos por esta doença.

Além do impacto sanitário, com esgotamento dos serviços de saúde, houve grande impacto financeiro e social para as famílias e para a sociedade. Com o fechamento dos escritórios das empresas, muitos trabalhadores foram deslocados repentinamente para o trabalho em casa.

Para estudar este fenômeno, o Centro de Pesquisa em Administração em Saúde da Fundação Getulio Vargas (GV Saúde) em parceria com o Institute of Employment Studies (IES) do Reino Unido iniciou uma pesquisa a partir de junho deste ano.

Os dados preliminares, com 533 respondentes, demonstraram que 87,4% das pessoas começaram a trabalhar em casa como resultado da pandemia. Além disso, 46% relataram viver com filhos dependentes menores de 18 anos e 21,2% cuidam de outro adulto ou parente idoso. Além disso, 47,7% dos respondentes compartilham seu espaço em casa com outro adulto. Em resumo, a maioria foi trabalhar em casa em decorrência da pandemia de COVID-19, e muitos tiveram que dividir o seu espaço de trabalho com outro familiar, além de cuidar de crianças e parentes idosos.

Um dado chamou a atenção dos pesquisadores: 84,1% dos respondentes afirmaram que não houve, por parte da empresa, nenhuma avaliação de saúde e segurança em sua estação de trabalho em casa, apesar de 59% afirmarem ter serviços de saúde ocupacional e medicina do trabalho na organização.

As dores e desconfortos no pescoço, nos ombros e nas costas foram relatados com muita frequência (acima de 50%). Outras condições foram muito comuns, a saber, os problemas do sono (55,6%), a fadiga ocular (55%) e as dores de cabeça e enxaquecas (53,3%). Além disso, outras condições físicas foram relatadas, como sensação de fadiga ou cansaço (43%), azia e/ou indigestão (35%) e câimbras nas pernas (12%).

Em decorrência da instabilidade econômica decorrente da pandemia, a maioria dos respondentes relatou que, em pelo menos metade do tempo se preocupa com as questões financeiras pessoais e familiares, além de se preocupar com a estabilidade no trabalho. Além disso, muitas pessoas relataram se sentir isoladas e solitárias e estar ansioso com a saúde de um membro da família.

Os pesquisadores aplicaram um questionário da Organização Mundial da Saúde (denominado WHO-5) que avalia a percepção do estado de humor, vitalidade e interesse geral. Quando o escore (em uma escala de 0 a 25) é menor que 13, indica-se provável índice baixo de bem-estar, recomendando-se o acompanhamento do trabalhador. A média do escore observado no grupo estudado foi 13,67, o que foi considerado relativamente baixo. Os pesquisadores passarão a analisar a influência dos aspectos mentais e emocionais sobre os sintomas físicos relatados. Chama a atenção que 61.6% estão preocupados pois estão fazendo menos atividade física agora que está trabalhando em casa.

Em geral, as pessoas apreciaram a autonomia de trabalhar em casa, tendo inclusive desenvolvido novas maneiras de fazer o trabalho e tem uma compreensão clara do que é esperado no trabalho. A maioria relata ter contato frequente com a chefia imediata e o trabalho tem variedade e é interessante e desafiador. Não relatam ter preocupação de que o trabalho em casa irá prejudicar sua evolução na carreira.

No entanto, 65,3% dos respondentes relataram que, para elas, trabalhar em casa significa trabalhar mais horas e em horários irregulares. E, 49% relataram sentir muita pressão no trabalho com frequência, tornando difícil gerenciar os limites entre a vida pessoal e profissional para 44% dos respondentes. Consequentemente, 34% não estão felizes com o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, sendo que 44,8% disseram gostar de manter o trabalho e vida pessoal muito separados.

Ainda não está claro se as pessoas continuarão a trabalhar em casa ou retornarão para os escritórios. De qualquer modo, as constatações da pesquisa demonstraram a importância da existência de programas e estratégias de recursos humanos e saúde ocupacional visando prevenir doenças, manter a produtividade e o engajamento dos profissionais.

Finalmente, as pesquisas recentes têm demonstrado que a comunicação clara e transparente com os trabalhadores é fundamental. Ela não pressupõe apenas obter o feedback (através da pesquisa de clima organizacional), mas a existência de canais ativos de escuta e a disposição para adequação dos processos de trabalho focando principalmente na qualidade em relação a quantidade produzida.

Por Alberto Ogata, presidente da Associação Internacional de Promoção de Saúde no Ambiente de Trabalho (IAWHP). É um dos colunistas do RH Pra Você. O conteúdo dessa coluna representa a opinião do colunista. Foto: Divulgação.

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