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O novo e o normal: caminhos para encruzilhada sustentável pós-pandemia

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Em tempos de pandemia e de olho nos seus possíveis desdobramentos para nossa sociedade, governos, empresas e cidadãos têm se deparado com uma coleção de prognósticos e exercícios de futurologia na esteira do chamado ‘novo normal’.

Me somo a tantos outros que encaram essa expressão com bastante incômodo. Entre o ‘novo’ e o ‘normal’, prefiro o ‘novo’ que, como veremos, já é bem conhecido por todos nós. Mas, independentemente do nome (eu prefiro ‘pós-pandemia', me soa mais honesto), podemos sintetizar em 5, cenários e tendências que vêm ganhando força nos radares de empresas, organizações da sociedade civil e cidadãos. Minha lente aqui é a partir da atuação dos campos da sustentabilidade, filantropia, impacto socioambiental.

Investimentos que gerem menos dano ou que fomentem impactos positivos?

Temos visto o ‘boom’ dos investimentos ESG que, às vezes, são tratados como sinônimos de investimento de impacto. Sem entrar nesta discussão conceitual, mas deixando claro que não são sinônimos, o aumento na oferta destes produtos mostra que há aumento na sua procura. Resta indagar se esse boom ocorre porque a agenda sustentável ganhou espaço durante a pandemia e/ou por conta da queda sucessiva da taxa de juros?

Talvez a questão central que deveríamos fazer é: faz sentido seguir gerando dinheiro sem qualquer contribuição efetiva para uma sociedade mais justa e um planeta mais sustentável?

Recorde de doações: sociedade brasileira é solidária?

Temos acompanhado o recorde de doações de recursos – mais de 6 bilhões de reais segundo o belo trabalho do Monitor das Doações da ABCR.

Junto com a necessária e óbvia celebração diversas narrativas e reflexões tentam também concluir que esse recorde é reflexo do quão solidária a sociedade brasileira se revelou, se contrapondo a certa visão de que o Brasil é um país pouco doador.

O ponto central é se faz sentido que pessoas e organizações sigam ausentes de seu papel cidadão, para além de ‘pagadores de impostos’. Se quisermos mesmo seguir evoluindo como civilização, não seria razoável destravarmos nosso potencial como cidadãos? Seria sonhar de mais pensar numa cidadania ativa em pleno século 21?

Economia colaborativa ou do compartilhamento?

Quando entregadores de app se mobilizaram em prol de melhor remuneração e de condições mais justas de trabalho, fica a pergunta: será que isso poderia ser chamado de economia colaborativa?

Tendo a concordar com a tese do livro Uberização de Tom Slee que argumenta que essa economia é muito mais ‘do compartilhamento’ do que ‘colaborativa’. Em outras palavras, ela está mais interessada em gerar negócios e receita a partir do uso compartilhado de bens e serviços do que em fomentar colaboração e transformação positiva entre todos os envolvidos nesta cadeia.

Sem dúvida, plataformas, soluções tecnológicas e apps de ‘compartilhamento’ devem seguir em alta no pós-pandemia, e espera-se que busquem endereçar questões sociais e ambientais e de forma mais colaborativa e inclusiva, onde todos – investidores, fundadores, colaboradores, usuários, trabalhadores, sociedade, planeta - possam, efetivamente, se beneficiar destas soluções e não apenas alguns. A conferir.

Quem enfrenta questões socioambientais sairá mais fortalecido?

Sem dúvida, toda a diversidade de organizações e modos de enfrentar questões socioambientais – ONGs, negócios sociais, etc – mostraram o quão fundamentais são para amenizar impactos negativos que a pandemia tem gerado na sociedade.

Sejam as ‘ONGs e a filantropia ultrapassadas’, sejam os ‘queridinhos’ negócios de impacto social, o fato é que esse conjunto diverso de organizações também têm tido dificuldade para manterem-se vivos e ativos.

Embora o recorde de recursos seja uma realidade, é também realidade que boa parte destes recursos não têm chegado a grande parte das organizações sociais, em especial, para ajuda-las a custear despesas administrativas.

Daí poderíamos refletir se essas organizações sairão enfraquecidas após a pandemia, afinal não estariam ‘queimando musculatura’ para amenizar impactos negativos da pandemia?

Preocupação ambiental ou vergonha?

Toda a discussão sobre o desmatamento na Amazônia poderia simbolizar essa tendência, de suposta revalorização da questão ambiental. Talvez pelo fato de que parte do mercado tenha percebido que seguir apostando na degradação ambiental é seguir perdendo dinheiro e encolhendo espaço no mercado com essa visão ultrapassada. Por outro lado, o contexto atual de aumento no desmatamento na Amazônia, queimadas no Pantanal, mudanças climáticas, desmontes na agenda ambiental em âmbito nacional e estadual, etc, parece indicar que a despeito do crescimento da preocupação ambiental há também uma sensação de que esse ‘buraco’ é mais embaixo.

Se quisermos fazer uma transição para modelos mais sustentáveis em nossa sociedade e economia, será fundamental encarar talvez nossa última janela de oportunidade.

Parece haver mais consciência sobre a necessidade desta agenda, mais recursos, mais atores envolvidos. Estamos longe dela ser um amplo consenso, no entanto, talvez nunca estivemos tão pertos de sentir na pele uma infinidade de efeitos trágicos que nossa omissão ambiental e climática pode nos oferecer. 

Portanto, entre o ‘novo’ e o ‘normal’ prefiro ficar com o ‘novo’ que, como sabemos, já é bem conhecido por todos nós. Seu receituário é amplamente conhecido, resta apenas colocá-lo em prática. E é justamente aí que se encontra nosso maior desafio. Ou oportunidade. Como preferir.

Por Fábio Deboni (capa), Gerente Executivo do Instituto Sabin

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