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“O Modelo Atual De Saúde Está Falido”, Critica Especialista

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Entre 2012 e 2018, ocorreram no Brasil mais de 4,5 milhões de acidentes de trabalho, dos quais em 16.455 casos a vítima veio a óbito. Além disso, no período, a Previdência arcou com um valor de R$ 79 bilhões em gastos com Benefícios Acidentários, enquanto os afastamentos previdenciários e acidentários totalizaram 351,7 milhões de dias de trabalho perdidos. Os dados são do Observatório Digital de Saúde e Segurança do Trabalho.

Até pouco tempo, os afastamentos eram destacados por acidentes ou doenças de caráter físico, o que incluía lesões, fraturas, luxações, dorsalgia, entre outras condições. Contudo, hoje, condições mentais como ansiedade, depressão, pânico e burnout também ganharam força dentro das organizações. Episódios de depressão, por exemplo, foram a décima maior causa de afastamentos no Brasil em 2017, segundo a Previdência Social.

O panorama atual justifica que a saúde tenha se tornado uma preocupação cada vez maior dentro das empresas. Meditação, mesas com alimentos saudáveis, incentivos a melhores práticas de saúde, massagens, ambientes descontraídos, ações esportivas, são algumas das alternativas que os negócios vêm adotando para melhorar a qualidade de vida dos colaboradores.

Ainda assim, o oferecimento de convênios médicos segue como a opção mais adotada em prol da saúde, sendo inclusive um benefício estratégico na retenção de talentos. Porém, ao mesmo tempo em que os planos de saúde são tão procurados por profissionais, eles também representam um verdadeiro desafio para gestores de negócios, uma vez que, segundo levantamentos recentes, sua fatia de custo nas empresas é inferior somente à folha de pagamento.

Cuidado com as tendências e tecnologias! 

Uma das principais discussões entre gestores e líderes de Recursos Humanos é em relação à influência das novas tecnologias e tendências de mercado na rotina das empresas. Sem que haja uma real identificação de suas necessidades, muitos RHs se apegam a cases para definir quais métodos e tecnologias serão aplicados em sua companhia, o que nem sempre tende a funcionar, uma vez que cada negócio e segmento têm diferentes desafios e problemas a serem superados. E o mesmo caminho é trilhado ao se falar de saúde.

De acordo com Viviane Lourenço, Especialista de Desenvolvimento Industrial do SESI, há um debate sobre a incorporação de recursos tecnológicos mais avançados, mas não há uma análise do que está sendo substituído. “Na saúde complementar, sempre há uma novidade. Várias incorporações são feitas. E com isso os custos só vão aumentando. É novo, é moderno, mas também é caro”, comenta. Além disso, Viviane enfatiza que a tecnologia, por si só, pouco será efetiva se não for acompanhada de um mindset voltado à saúde.

“Você tem tecnologias que são focadas na saúde e na segurança, tem recursos que aumentam as capacidades humanas, tem nutricionistas e preparadores físicos com acesso a dados cada vez mais precisos, mas os números pouco importam se não existir uma mudança de comportamento. Há a necessidade do estímulo e da conscientização em torno da saúde. E as tendências precisam fazer sentido, afinal, de que adianta eu aplicar na minha empresa uma tecnologia que eu sei que minha população terá dificuldades para absorver?”, pontua.

Meire Blumen, Gerente de Saúde e Bem-Estar da AVON, abre consideração para o fato da tecnologia ser, muitas vezes, usada como “muleta” pelas organizações. “É muito fácil haver um apego em relacionar a tecnologia com gastos que não param de crescer. Mas, se você investe em um novo aparelho, isso deve passar por uma estratégia para recuperar o valor gasto. Não necessariamente a tecnologia encareceu o processo, o que ocorre é que isso se tornou um negócio. E quando você não tem um modelo de saúde que acompanha isso, é natural que os processos não pareçam se encaixar e problemas comecem a surgir. Na teoria, a tecnologia deveria reduzir custos, não aumentá-los”.

Direto ao ponto, Débora Maia, Diretora de Expansão de Negócios e Qualidade de Vida da 4Health Consultoria, critica o ‘padrão de práticas’ adotado pelos planos de saúde em relação ao tratamento com o paciente. “O modelo de saúde atual está falido. A tecnologia realmente vai permitir que os diagnósticos sejam mais precisos, mas como aproveitar os benefícios dentro do sistema que nós temos hoje? O médico muitas vezes nem sequer olha na cara do paciente e já sai pedindo uma tomografia ou um exame qualquer. Há vezes em que é o próprio paciente quem escolhe o exame que quer fazer e o médico simplesmente atende a solicitação. A mudança sequer passou por aí”, diz.

Evolução ou oportunismo?

Uma pesquisa da Mercer Marsh Benefícios revelou um dado alarmante para as finanças do RH. Nos últimos sete anos, os custos dos planos de saúde aumentaram 149%. Isso, somente a mensalidade padrão. Não é à toa que as empresas trabalham para redesenhar a forma como o benefício saúde é cedido a seus colaboradores.

O cenário financeiro, somado à crítica de Débora, já pautou RHs com a discussão de que há “complôs hospitalares” para que cada vez mais dinheiro seja sugado das organizações. Uma vez que a dificuldade em controlar e precisar o panorama do colaborador existe, muitos negócios sequer sabem pelo que estão pagando quando a conta dos planos chega.

Para Carlos Pappini, Diretor da Unidade de Negócios Speciality Care da ePharma, e professor do iPL, escola de formação de líderes, a palavra complô pode ser um pouco exagerada, mas as empresas devem buscar mecanismos para ter um maior controle para seus gastos médicos, como por exemplo uma consultoria que preste esse auxílio. “Nosso problema muitas vezes é da cultura que se cria. Não há um complô entre as indústrias de fast food e farmacêutica, por exemplo, porque uma produz alimentos que elevam o colesterol e a outra oferece medicamentos que o estabilizam. Contudo, a inovação tecnológica dos hospitais precisa ser conduzida junto com a inovação do mindset. A tecnologia não pode acabar com o sistema por conta dos altos custos que as novidades trazem. Há medicamentos e tratamentos que custam milhões. Que empresa poderia suportar isso? Enquanto a tecnologia encarecer todos os custos, e não podemos negar que isso corre, a tendência é que as empresas procurem – por necessidade – alternativas diferentes para oferecer qualidade de vida a seus colaboradores. E o acompanhamento precisa ser maior. As empresas precisam ter noção de todos os gastos que estão tendo com a saúde”.

Meire traz a consideração de que o modelo de saúde corporativo é, muitas vezes, pensado para megacorporações, e não oferece soluções viáveis para PMEs, o que pode transformar o convênio médico em um grande transtorno financeiro. “Primeiro de tudo, não se pode esquecer do básico: entender as pessoas, conhecer suas necessidades. Há falta de comunicação traz uma cortina de fumaça que ainda torna muitas organizações dependentes dos planos. A ausência de comunicação entre empregado-empregador pode, também, contribuir para a má gestão financeira da saúde”, finaliza.

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