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O Mercado De Trabalho E A Masculinidade Tóxica De Cada Dia

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Idolatrado por muitos, detestado por outros, o Big Brother Brasil está - mais uma vez - na boca do povo. A 20ª edição do reality show global trouxe para as redes sociais, redações e empresas uma enxurrada de discussões sobre o machismo e o feminismo, assuntos cada vez mais em evidência na sociedade, mas nunca antes tão pautados, o que só reforça a importância e o impacto que a TV aberta segue tendo.

Em acordo ou não com o que é feito e mostrado no programa, é justo admitir que as acusações de machismo e masculinidade tóxica por parte do público em relação a participantes da casa vigiada estão causando reflexões, especialmente quando ressaltamos que, o que acontece lá dentro, é somente um pequeno pedaço da realidade que muitas mulheres - e homens, também - enfrentam aqui fora, seja em casa, na rua ou no trabalho.

Masculinidade tóxica não afeta só as mulheres

Embora o termo “masculinidade tóxica” irrite muitos homens, vale ressaltar que ele foi considerado a “expressão do ano” em 2018 pelo dicionário Oxford. E não à toa! O padrão de comportamento da chamada “sociedade patriarcal” relega os homens de direitos básicos reservados a qualquer indivíduo: o de se sentir vulnerável. Tal fenômeno valoriza qualidades como o controle e a dominância, enquanto classifica como fraqueza aspectos como a sensibilidade, carência e até o desejo de chorar.

Para Deva Dasi Abigail, terapeuta tântrica e coach de relacionamento, os homens carregam consigo uma carga muito grande de serem os machões, os bons em tudo”. Todavia, eles também começaram a sentir na pele como a pressão por “se provar macho a todo instante” pode fazer mal. 

“O grande problema é que esses elementos vêm adoecendo homens e mulheres. Eles por não aceitarem o ‘eventual’ fracasso do que é vendido como masculinidade quando ele ocorre, elas por conviverem cada dia com a inflexibilidade de comportamento e situações de machismo, advindas desse fenômeno”, acrescenta.

Uma pesquisa conduzida no ano passado pelo blog “Papo de Homem” deixa claro o quanto o machismo tem raízes fortes na sociedade. No levantamento feito com quase 20 mil homens, 72% alegam que foram ensinados a não parecer e a não se mostrarem frágeis. Além disso, 60% assumiram ter aprendido que não é certo expressar o que sentem.

Em artigo publicado no RH Pra Você, a fundadora e CEO da HerForce, Silaine Stüpp, reforça o quanto um determinado comportamento negativo ser seguido pode ser grave. “O resultado disso tudo [valores como poder, dominância, força, ser ativo sexualmente e reprimir os sentimentos], nós já sabemos: homens emocionalmente restritos que não sabem acessar suas emoções ou aprenderam que lidar com os seus conflitos é inapropriado, causando neles, e em quem estiver por perto, um misto de frustração e opressão. Segundo o documentário ‘O Silêncio dos Homens’, que discute esse assunto de forma brilhante, o índice de suicídio é quatro vezes maior entre os homens do que as mulheres”.

O machismo no mercado de trabalho

“Durante minha faculdade de psicologia, um professor me disse que as mulheres são melhores psicólogas porque são mais sensíveis, choronas e fazem os pacientes pensarem que elas são suas amigas”. O relato da psicóloga e especialista em Recrutamento e Seleção, Bárbara Lima, é um exemplo de como o machismo é enraizado em esfera social.

“As mulheres sempre precisaram e ainda precisam lutar para conquistar aquilo que os homens sempre tiveram direito. E mesmo que a desigualdade de condições nunca tenha deixado de ser explícita, nas últimas décadas ela começou a ser contestada, questionada e combatida. Mas ainda há um longo caminho a ser percorrido à medida que a igualdade e a equidade de gênero colecionam uma longa fila de inimigos”, conta.

Em ambiente de trabalho, o panorama do machismo, do viés inconsciente e da masculinidade tóxica ainda é um poderoso obstáculo a ser superado pelas mulheres. Dados da Organização Internacional do Trabalho revelam que, embora as mulheres trabalhem mais horas que os homens, somente 48% delas atuam em ocupações formais - contra 72% dos profissionais masculinos - e elas lideram a taxa de desemprego.

Bárbara pontua que o machismo em ambiente corporativo torna justificável para alguns homens que situações como assédio não devam ser encaradas como "tempestade em copo da água". "O assédio é perigoso e está não só nas situações mais escandalosas, mas também nos pequenos detalhes, como brincadeiras de mau gosto ou pegar no mouse e nas suas mãos junto para ensinar a fazer algo no computador, destaca.

Uma pesquisa do Vagas.com mostrou que mais da metade dos profissionais brasileiros, de todos os sexos, já foram assediados, porém mais de 80% das vítimas não fizeram nenhuma denúncia. Isso se dá por vários motivos, que vão desde o medo até a falta de um canal eficiente de denúncia".

A vez (e a voz) é de todos, e por igual

Com base no livro Escute o que ela diz, da escritora Joanne Lipman, Lu Magalhães, presidente da Primavera Editorial, diretora do PublishNews e sócia do #coisadelivreiro, elenca doze situações que vão em prol de um ambiente que promova igualdade, diversidade e respeito a todos os indivíduos. São elas:

1 - Interrompa os interruptores: Até as mulheres da Suprema Corte de Justiça são interrompidas com uma frequência três vezes maior que os juízes do sexo masculino. Para combater esse tipo de comportamento, quando uma mulher for interrompida em uma conversa, interrompa o interruptor de uma maneira elegante, mas firme: “Olívia estava falando. Deixe que ela conclua o pensamento dela.”

2 - Use amplificação e propagandistas: As ideias das mulheres não são ouvidas – a menos que sejam repetidas por um homem, que fica com o crédito. A sugestão é usar uma dica das mulheres da administração Obama e amplifique o que outra falou, repetindo a ideia e assegurando de que ela receba o devido crédito e reconhecimento. Mulheres têm que ser propagandistas uma das outras; devem falar sobre as realizações de outras e elogiá-las.

3 - Diversifique os entrevistadores não apenas os postulantes: As empresas estão, cada vez mais, exigindo um leque diversificado de postulantes a ofertas de emprego. Incluir mulheres nessa seleção é somente o primeiro passo; devemos incluir mulheres entre os selecionadores. Ou seja, devemos incluir pessoas que possam ver mulheres candidatas a cargos como “culturalmente adequadas”.

4 - Ela vai melhorar seus resultados: As mulheres são frequentemente excluídas dos empregos ou promoções porque não têm o “perfil adequado”; ou são descartadas como “contratação para preencher cotas”, que são vistas como um sinal de critérios frouxos. A solução é observar os fatos. As mulheres tornam os grupos de trabalho mais criativos; as empresas com diretoras financeiras fazem melhores aquisições que as com diretores. Há muitos outros exemplos que mostram que a receita para o sucesso das empresas está em acrescentar mulheres.

5 - Ela não está “pedindo desculpas”, ela não “teve sorte” e ela não está lhe fazendo uma pergunta: Pesquisadores descobriram que as mulheres usam qualificadores – Desculpe-me por incomodar você, mas... – para parecer menos ameaçadoras. Quando agem de forma assertiva são confundidas com mandonas, arrogantes ou difíceis de trabalhar. Perceba que quando uma mulher termina uma frase com interrogação, na verdade ela está sendo assertiva!

6 - Sim, isso não é um cumprimento: As mulheres são, muitas vezes, submetidas a cumprimentos que, intencionalmente ou não, as depreciam. Algumas das palavras são, inclusive, amáveis. Você se esforçou – por exemplo. Pense se você diria isso a um homem. Se não, provavelmente não deva dizer a uma mulher.

7 - Ela tem certeza de que você não a respeita: Pesquisadores descobriram que os homens são mais respeitados que as mulheres – até quando ocupam exatamente o mesmo cargo. A solução é se manter vigilante contra desconsiderações; ajuste a sua conduta. São comportamentos rotineiros: você encontra um casal e pergunta ao homem como está o trabalho e ignora a mulher; você escuta o que um homem falar em uma reunião, mas confere o celular quando uma mulher começa a falar... Esse é um menosprezo comum, segundo apontam os pesquisadores.

8 - Não decida por ela: Em um ambiente corporativo é comum alguém apontar que uma mulher seria perfeita para o cargo, mas que está grávida – ou tem filhos pequenos. Achar que ela não está apta ao cargo, ou interessada, é um erro comum de gestores, sobretudo de homens. A proposta aqui é não presumir. Pergunte a ela. Mesmo que ela recuse a oferta, no momento, renove-a quando tiver oportunidade.

9 - Não tenha medo de lágrimas: O medo das lágrimas faz com que homens não ofereçam às mulheres o feedback honesto; um retorno necessário para que progrida na carreira. A sugestão é que gestores façam a avaliação dos funcionários – homens e mulheres – de modo igual. Se uma mulher derramar lágrimas, procure descobrir o motivo. Muitas vezes, essa profissional não está triste; ela está frustrada e furiosa. Os homens, quando enraivecidos, costumam gritar; nas mulheres, o choro tem, inúmeras vezes, a mesma função.

10 - Ela está pronta para receber um aumento, mas não quer pedir: Os homens têm quatro vezes mais probabilidades de pedir um aumento do que mulheres. Um bom gestor deve recompensar um bom funcionário, antes que ele peça. Ou seja, quem merece não é quem grita ou manifesta-se primeiro, mas quem realmente merece. Só com isso em mente vamos combater as disparidades salariais.

11 - Contrate mulheres com a idade da sua mãe: Para as mulheres que deram um passo atrás nas suas carreiras – para se dedicar mais aos filhos – os gestores (homens e mulheres) devem dar novas chances. Tenha certeza de que terão profissionais altamente comprometidas com o sucesso da companhia.

12 - Ela merece uma promoção. Só não sabe disso ainda: Os homens costumam se oferecer para trabalhos mais importantes – estejam preparados ou não. Para garantir que homens e mulheres tenham acesso, o gestor deve garantir que as mulheres mais qualificadas estejam entre os mais cotados para as vagas, mesmo que não se manifestem. E deve estar preparado para vencer as resistências!

"O comportamento machista não é uma coisa que vai acabar do dia para a noite. É uma constante descontrução. As pessoas cresceram com o machismo fazendo parte de seus lares, de seu entretenimento, de seus trabalhos, de sua vida como um todo. Portanto, é um processo que exige paciência também de quem já é mais íntimo da causa. O fato é que é uma situação que precisa mudar, pois a sociedade cada vez menos vai aceitar que preconceitos e imposições sejam cotidianas", finaliza Bárbara Lima.

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