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O Episódio Carrefour E A Banalização Do Mal Como Prática Gerencial

Coluna 2974

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Causou-me muita indignação e tristeza o episódio envolvendo o envenenamento e o  espancamento de um cão nas dependências da loja da rede Carrefour, em Osasco, na grande São Paulo, ocorrido no dia 30 de novembro de 2018 por um funcionário terceirizado.

Desde então, esse lamentável episódio não sai da minha cabeça e preferi esperar um pouco até escrever esse artigo, tentando entender por que tal ato de imensa brutalidade foi cometido. Vivemos, a meu ver, uma polaridade; os Estados Unidos pousam uma nave para explorar o solo em Marte e aqui no Brasil, vivemos tempos medievais de brutalidade, desonestidade, práticas antiéticas e toda a sorte de comportamentos que me fazem sentir vergonha mas, sobretudo, frustrado por tamanho desleixo com o tipo de nação que escolhemos ser.

O que teria levado a um funcionário terceirizado, prestador de serviços para a rede Carrefour, a cometer tamanho ato covarde?

Fui buscar inspiração em Nádia Souki, no seu livro Hannah Arendt e a banalidade do mal para ajudar na minha reflexão. Ela pondera que “ a vontade é necessária, o arbítrio é livre para obedecer ou não à lei. É exatamente, nessa possibilidade do arbítrio humano que se inscreve o problema do mal radical.”

Pelo que foi noticiado por vários veículos de comunicação Brasil afora, tal funcionário recebeu uma ordem da administração do Carrefour para eliminar o pobre e indefeso cãozinho, pois que a loja receberia a visita de diretores da matriz e não queriam o cãozinho por lá. Ainda segundo Nádia Souki, “se o homem aceita a determinação vinda de fora, ele está eliminando sua vontade como vontade, isto é, como faculdade do homem de determinar-se a si mesmo para a ação: em outras palavras, sua autonomia.”

A vontade humana tem a propriedade de ser, ela própria, a sua lei, e o homem realiza sua essência quando obedece à lei moral.

Vivemos em tempos amorais. Isso fica evidenciado no ato covarde praticado pelo funcionário terceirizado e, mais indigno, ainda, a ordem emanada da administração da rede Carrefour, para eliminar o cãozinho.

Como é possível uma organização do porte do Carrefour, com milhares de colaboradores e impacto em uma enorme cadeia de stakeholders, possuir, no seu modelo mental, a subserviência estética e higienista apenas e tão somente para impressionar os diretores da matriz? Que pobreza de consciência, compatível com os níveis tribais de consciência que ainda se nota nas regiões menos civilizadas do mundo.

Infelizmente, para a satisfação hedonista do homem, ainda se pratica o extermínio de milhares de animais todos os anos e, de certa forma isso, a meu ver, na medida em que vamos elevando nosso nível de consciência sobre o respeito a todos os seres vivos, tende a melhorar e chegará um dia em que nenhum animal será sacrificado para satisfazer caprichos humanos.

Espero que a rede Carrefour aprenda com tão grotesco episódio e aproveite a oportunidade para elevar o nível de consciência do seu corpo diretivo, disseminando e agindo em prol de práticas modernas e compatíveis com a sustentabilidade de organizações modernas, o que inclui a imperiosa necessidade de se respeitar os animais. Que seja uma prática percebida e não mais um discurso vago.

Por Américo Figueiredo, Conselheiro Consultivo, Professor Educação Executiva em Gestão de Pessoas, Governança e Organizações, Mentor de Carreira. É um dos colunistas do RH Pra Você. O conteúdo dessa coluna representa a opinião do colunista. Foto: Divulgação.

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