- Início

- Conteúdo

O Efeito Rebote Do Coringa E Os Limites Da Empatia

Coluna 828

Compartilhe Este Post

Há muito tempo eu não ia ao cinema. Mas semana passada consegui um vale night e fui conferir o tão polêmico e aclamado Coringa.

Como quase todas as pessoas do mundo, fui altamente impactada. Saí remexida e fiz milhares de correlações com pessoas próximas que são verdadeiramente grandes vítimas do destino, da sociedade e que têm pouquíssima condição de enxergar possibilidades. Enfim, embrulhou o estômago e ampliou o olhar. Li uns 3 ou 4 artigos que reforçavam essa perspectiva e classifiquei o filme como “obrigatório para quem precisa exercitar a empatia no seu sentido mais amplo”.

Ontem tive um outro insight sobre o longa metragem, após ser atacada por haters no LinkedIn. Meu tom provocativo costuma gerar incômodos, mas eu sempre questionei também a falta de empatia com o sucesso, com a sorte, com o dar certo.

É comum as pessoas se compadecerem com o fracasso e invejarem o sucesso.

Eu mesma confesso: sai do filme com uma raivinha do Batman pensando que aquele menino mimado iria combater o pobre coitado do Coringa quando crescesse. Mais alguém?

Ao conhecermos a história do outro, adotamos uma perspectiva diferente sobre suas atitudes. Seja uma história de sucesso ou de fracasso.

Lembro quando, em 2017, discutia-se o fim da Cracolândia, região de São Paulo onde os usuários de drogas se reuniam para comprar, vender e consumir drogas, sendo a principal delas o Crack. A população taxava os frequentadores de “maloqueiros”, “perigosos” e clamavam pelo fim daquele ambiente hostil. No meio dessa gente, encontraram Andreas Albert von Richthofen, irmão de Suzane von Richthofen, que matou seus pais em 2002 e hoje cumpre pena. 

A tragédia do rapaz encontrado sujo e em surto fez com que muitas pessoas passassem a questionar qual seria a história das outras pessoas que ali também estavam e “amolecerem” seus corações ou ampliarem sua capacidade de compreensão e até mudar seu julgamento. Enquanto fazia parte do grupo anônimo Andreas era mais um maloqueiro. Quando foi identificado e todos lembraram de sua história virou coitado.

Minha abordagem aqui é totalmente livre de julgamentos. Meu objetivo é aprofundar a reflexão sobre culpa, responsabilidade, “destino” e empatia.

Porque se alguém não tem culpa de ter nascido pobre, não se tem culpa de ter nascido rico. Se uns não tem culpa de ter azar, outros não tem culpa de ter sorte. Se não há culpa em ser louco, também não há em ser são. Empatia precisa ser praticada em todos os lados.

Quando treino equipes de vendas, vez por outra me deparo com depoimentos de vendedores sobre clientes arrogantes, impacientes ou até grosseiros. Reforço sempre que 

“o cliente sempre tem razão, mas que isso não significa que ele esteja certo”.

O mesmo vale pra vida. Todos têm suas razões, seus motivos para agir como agem, mas isso não significa que suas atitudes sejam corretas. Elas inclusive têm o poder de retroalimentar uma situação ou de quebrar um padrão. Podemos até “julgar” as atitudes, mas há sempre que se fazer um esforço para conhecer a sua razão.

As atitudes retroalimentam a razão ou quebram o padrão. Podemos até “julgar” as atitudes, mas há sempre que se fazer um esforço para conhecer a sua razão.

Uma amiga é advogada criminalista. Certa vez perguntei à ela: como você consegue defender bandidos, assassinos, pessoas sem escrúpulos?A resposta me impressionou: Carol, eu trabalho para que essas pessoas tenham uma pena justa.

Minha intenção não é mergulhar em temas como leis, moral e ética, mas ampliar o significado da empatia.

Ontem, quando comecei a ter esse insight essa resposta veio à tona. Não é porque existe um motivo e/ou porque ele foi compreendido que se pode fazer qualquer coisa. Leis, moral e ética são assuntos muito complexos. Minha intenção não é mergulhar neles, mas, mais uma vez, ampliar o significado da empatia. Sempre haverá dois lados, sempre haverá uma razão. O julgamento não cabe a nós, mas isso não nos impede de agir afastando ou aproximando aquilo que nos causa admiração, estranheza, inveja ou compaixão.

·     O Coringa era o vilão até conhecermos sua história. 

·     A Anita era uma “artista pop pré fabricada” até conhecermos sua história.

As biografias costumam nos dar uma perspectiva diferente de pessoas que admiramos. O quadro “Visitando o Passado” do Programa do Luciano Huck ou “Arquivo Confidencial” do Faustão fazem o mesmo. Conhecer de perto ou mais a fundo a história de alguém muda a história que contamos sobre ela.

Mesmo assim, sempre haverão interpretações diversas. Não dá para conhecer a história inteira se você não a viveu. Será sempre um recorte. 

A empatia é algo que beira a utopia, mas mesmo assim devemos exercitá-la diariamente.

Segundo Daniel Goleman no livro Foco, existem três níveis de empatia:

  1. Empatia cognitiva: é a capacidade de compreender a perspectiva da outra pessoa. Esse tipo de empatia exige que se pense nos sentimentos em lugar de senti-los diretamente. Seu lado sombrio emerge quando utilizada para manipular o outro.
  2. Empatia emocional: é a capacidade de sentir o que a outra pessoa sente. Nosso padrão cerebral liga-se ao dos outros quando os escutamos contarem uma história emocionante. O risco aqui é que o envolvimento emocional pode provocar reações não desejadas.
  3. Preocupação empática: é a capacidade de sentir o que a outra pessoa precisa de você. A preocupação empática requer que controlemos nossa própria angústia sem nos tornar insensíveis à dor dos outros. Ela nos permite ponderarmos deliberadamente sobre o quanto valorizamos o bem-estar do outro e estamos genuinamente interessados em contribuir com seus desafios. Para mim, esse é o nível de empatia mais saudável e com maior probabilidade de beneficiar o outro e ajuda-lo a reverter ou reverberar sua condição.
Uma das reflexões que fiz após esse breve ataque de haters foi “Para quê?”.
Para que serve a empatia?

Acredito que não devemos nos acomodar com respostas como “somos todos humanos”, “gente tem de compreender gente”, “para sermos mais humanos” etc.

Acredito que o ser empático, o exercer a empatia deve estar a serviço de algo.

A partir do momento que me esforço para compreender a história do outro eu preciso agir.

A partir do momento que me esforço para compreender a história do outro, a razão do outro, o motivo do outro eu preciso agir. Agir para consolar, para acolher, para chacoalhar, para ajudar, para comemorar, para aprender, para alguma coisa que faça sentido para nós e para o outro, afinal quem compreende também precisa ser compreendido.

Ao ver os comentários que me agridem eu me esforço (não é fácil, mas eu juro que me esforço) para compreender o que levou alguém a, na minha perspectiva, gratuitamente agir dessa forma. Para mim eles podem não estar certos, mas é fato que eles têm suas razões.

Meu propósito é claro: existo para desafiar pessoas a serem melhores que são porque acredito fortemente que TODOS podem ser melhores. Provocar e incomodar são atitudes que utilizo para acender o desejo por mudança, mas definitivamente incômodo sem protagonismo é reclamação. Só o incômodo acompanhado de protagonismo gera evolução.

Incômodo sem protagonismo é reclamação. Incômodo com protagonismo gera evolução.

Esforce-se para compreender os outros, mas esforce-se também para compreender você e identificar se as razões que fazem você agir como age te afastam ou te aproximam dos seus objetivos.

Mais amor, por favor.

Por Carolina Manciola, sócia diretora da Posiciona Educação & Desenvolvimento. É uma das colunistas do RH Pra Você. O conteúdo dessa coluna representa a opinião do colunista.

Gostou desse post? Compartilhe!