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O Desemprego Te Pegou?

Mercado de trabalho

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Em um país com quase 13 milhões de desempregados, é bem provável que esse texto chegue a alguém que está sem um emprego formal. Tecnicamente, o IBGE considera desempregada a pessoa sem registro formal de trabalho e que está buscando emprego há mais de um mês. Nessa condição, enquanto estiver buscando um emprego, essa pessoa é considerada desempregada. Caso desista de procurar emprego, mesmo que não tenha conseguido um, essa pessoa deixa de ser considerada diretamente nas estatísticas de desemprego. Passa a integrar a massa de pessoas fora da força de trabalho, sendo considerada uma "força de trabalho potencial". Pela última PNAD, essa força representa um número de mais de 8 milhões de pessoas. Ou seja, totalizou, nesse momento, mais de 20 milhões de pessoas sem emprego formal, das quais quase 13 milhões ainda busca emprego. Isso sem contar os mais de 7 milhões de trabalhadores que têm jornada parcial, sendo subutilizados.

Mesmo com o discreto aumento no número de pessoas empregadas divulgados na última PNAD, uma em cada quatro pessoas está buscando um emprego há mais de dois anos. Isso significa que mais de 3 milhões de pessoas não desistiram de procurar um emprego formal, apesar de todo esse tempo na busca.

Temos cerca de 115 milhões de pessoas compondo nossa força de trabalho, das quais mais de 20 milhões está sem emprego formal. Como um país ainda funciona tendo 17% de sua força de trabalho nessa situação? Funciona porque falta emprego formal mas não falta trabalho, e várias pessoas acabam atuando na informalidade, seja como empregado, seja como autônomo. E é isso que ainda mantém a economia do país e a autoestima de milhões de pessoas: são quase 19 milhões de pessoas atuando por conta própria sem CNPJ. Isso sem contar que parte dos mais de 4 milhões de empreendedores (incluindo inacreditáveis 900 mil empregadores sem CNPJ) provavelmente foram alçados a essa condições por um eventual desemprego.

Temos cerca de 115 milhões de pessoas compondo nossa força de trabalho, das quais mais de 20 milhões está sem emprego formal.

Trata-se de uma tragédia social e econômica, mas o que essa saraivada de números arredondados pode dizer sobre a circunstância específica vivida por cada desempregado? Porque se por um lado o desemprego conduz a uma série de análises econômicas, por outro lado também uma série de análises sociais, inclusive no âmbito individual. Sim, temos muitos desempregados, mas lembremos que a imanes maioria das pessoas acima de 14 anos está trabalhando, são quase 91 milhões de pessoas. Ou seja, quem está desempregado certamente não está só, mas quem está empregado representa a maioria. Muitos dos que estão empregados em contrato formal consideram distante a ideia do desemprego, mesmo que tenha ocorrido com alguém próximo. "O que é tão terrível só acontece com os outros", dizia um rock-protesto dos anos 1980. Será? Terrível é o erro de pensar assim, pois exceto concursados em serviço público, o desemprego pode ocorrer a qualquer um, a qualquer momento. E quando chega na vida de alguém, o estrago pode ser grande. Trata-se de uma tragédia social e econômica.

Existem várias pessoas ajudando as outras a se recolocar no mercado formal de trabalho, algumas fazendo isso com seriedade, outras em evidente oportunismo. Se ficar desempregado é ruim, ficar desempregado por muito tempo é pior ainda, e pode deixar irreconhecíveis ótimos profissionais. É crucial selecionar adequadamente as pessoas ou entidades capazes de apoiar tecnicamente neste momento difícil, além de não menosprezar o apoio da família e de amigos, seja por vergonha, seja por orgulho. Assim, após 38 anos trabalhando em áreas de negócios, dos quais a maior parte selecionando, contratando e gerindo pessoas, tomo a liberdade de elencar a seguir cinco sugestões, que talvez ajudem a quem está passando por esse momento.

  1. Não esperar por justiça: a sensação de que foi injustiçado pelo empregador, por um colega ou mesmo pela vida pode até ser legítima, mas dificilmente vai ajudar em uma recolocação. Será muito mais útil analisar os motivos do desligamento da forma mais fria possível, sem se vitimizar e muito menos transferir a culpa, para que esse aprendizado possa ajudar na jornada de recolocação. Ativar o autoconhecimento e ir em busca do apoio de amigos e profissionais pode ajudar a manter a frieza necessária para lidar com esse momento. Esse sentimento de injustiça provavelmente vai transparecer ao participar em processos seletivos, ainda que de maneira inconsciente, e pode sabotar o processo. O livro "Justiça - o que é fazer a coisa certa", de Michel Sandel, talvez ajude a atenuar a sensação de injustiça;
  2. Autoconhecimento só vale se virar ação: é fundamental fazer uma análise crítica de si mesmo e sobre o ocorrido, comparar com situações similares que tenham ocorrido anteriormente, eventualmente contando com ajuda de profissional especializado. Mas é mais fundamental ainda definir ações, o que e como será feito a partir daí, principalmente se exigir mudanças de comportamento. Por exemplo, se a pessoa sistematicamente apresentou problemas com seus chefes ao longo da carreira, as chances são grandes do problema não estar nos chefes, e sim na pessoa. O livro "Como trabalhar para um idiota", de John Hoover, pode ajudar a entender melhor questões desse tipo;
  3. Ser absolutamente profissional: quando desempregada, a pessoa se vê na obrigação de focar na venda de algo diferente do habitual: ela mesma, carregando um conjunto de competências. E fazer isso pode ser uma das coisas mais difíceis na condição de desemprego, na qual a autoestima provavelmente estará comprometida, em maior ou menor intensidade. Mas lembre-se que poucas pessoas se sentem seguras para comprar algo de um vendedor não parece ser profissional, que é capaz de agregar valor. Como comprar as competências de alguém que ficou falando mal de seu chefe anterior; que mentiu em seu CV; que confirmou a participação em uma entrevista mas não apareceu; que vai para um entrevista sem nada saber sobre a empresa contratante. E por aí vai. É fato que os RHs das empresas também podem ser mais profissionais nesse processo, mas o mais importante aqui é o candidato mostrar seu profissionalismo, independentemente de qualquer outra coisa.
  4. Não se apressar, mas não perder tempo: nem sempre a primeira oportunidade de emprego que surgir será a mais adequada pode ser perigoso aceitá-la logo de cara. Mas ficar aguardando indefinidamente pela oportunidade ideal é tão perigoso ou mais, porque quanto mais tempo fora do mercado formal, mais o valor do profissional tende a se reduzir. Fora o impacto emocional de não estar se sentindo útil e produtivo, abalando a autoestima e seu convívio social. Avaliar o cenário geral ajuda muito, pois em situações de baixo emprego, esperar muito pode ser fatal; em situações de pleno emprego, pegar a primeira oportunidade pode gerar frustração e desgaste em uma saída prematura. Sem dúvida pode ser muito difícil tomar esse tipo de decisão, e o livro "Rápido e Devagar - duas formas de pensar", de Daniel Kahneman, traz luz sobre nossos mecanismos para tomada de decisão;
  5. Cuidar-se bem: assim como orientam nas decolagens dos aviões, "em caso de despressurização máscaras de oxigênio cairão à sua frente: puxe uma para si e depois ajude a pessoa ao seu lado". Ou seja é fundamental se cuidar, estar bem para poder fazer o bem. Cuidar do corpo, iniciar ou retomar alguma atividade física pode ajudar muito, inclusive mentalmente. O livro "Correr", do Dráuzio Varela, pode incentivar. Iniciativas como frequentar eventos ligados ao seu setor, intensificar o networking positivo (não aquele que só aparece esporadicamente e para pedir emprego) e fazer um curso podem ser adotadas. Para sentir-se útil, pode-se buscar algum trabalho voluntário, capaz de ajudar muito o psicológico e a sociedade. Pode-se também buscar um trabalho temporário ou mesmo uma consultoria, enquanto busca um novo emprego. Vai que numa dessas a pessoa descobre e constrói um novo caminho? Empreender pode ser alternativa, mas é o investimento financeiro mais arriscado que existe, não recomendo logo de início, a não ser que seja algo que já vinha sendo gestado, pois pode abalar ainda mais as finanças e a autoestima. O livro "Encontrei o emprego", do Sami Boulos, pode trazer alguma luz quanto ao processo de recolocação.

Obviamente essas sugestões acima podem ser encaradas como pontos adicionais, dentre tantos outros, por quem está na busca por emprego. Acompanhei e acompanho várias pessoas conhecidas nessa situação, e sei bem como pode ser desesperador. Já tive conhecidos que não contaram à família que foram demitidos, e saiam de casa diariamente no mesmo horário, fingindo ir trabalhar. Outros estão desempregados há anos, porque não aceitaram propostas um pouco abaixo da remuneração anterior, o tempo passou e acabaram desvalorizados. Há algum tempo a presidente de uma empresa me ligou um dia perguntando se eu conhecia fulano, que havia mencionado meu nome em uma entrevista. Eu disse que sim e que o recomendava, mas ela disse "estranho uma pessoa tão qualificada estar desempregada há mais de um ano, deve ter algo errado, não?" Fora os inúmeros casos de fluência em inglês e Excel avançado que não se materializam fora do CV. 

Então, se o desemprego te pegou, ou a alguém com quem você se importa, minha expectativa, de coração, é que esse artigo ajude.

Sucesso a todos!

Por Ivan Correa, sócio-diretor da Posiciona

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