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O Brasil Que (Certamente) Você Não Conhece

Coluna 1638

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No meu trabalho atual, como Presidente da Enactus (www.enactus.org.br) tenho tido a oportunidade de viajar bastante pelo Brasil. Para cidades diferentes daquelas que eu estava acostumada na minha ex-vida corporativa, onde as viagens se restringiam a algumas capitais.

Agora, além de chegar a cidades como Maracanaú no Ceará, Campos dos Goytacazes no Rio de Janeiro, Caruaru em Pernambuco e Pirassununga em São Paulo, também tenho me deparado com um “outro” brasileiro, principalmente, jovens universitários de uma espécie que, sinceramente, eu não conhecia muito bem.

É interessante constatar as peculiaridades das tribos locais em comparação com as das grandes cidades. A minha imagem do jovem brasileiro até então, foi formada e forjada a partir de pesquisas sobre eles e de meu contato mais próximo com os universitários paulistanos, incluindo os da periferia. E devo admitir que meu “pré-conceito” sobre o jovem brasileiro tem se chocado e ficado um tanto quanto abalado quando em contato com jovens de lugares mais afastados deste epicentro.

Tenho interagido com jovens menos apáticos, mais seguros, mais pragmáticos em seu idealismo tipicamente juvenil e, sem dúvida, muitíssimo mais criativos. Falta aqui e ali uma sofisticação; seja no vocabulário, seja no conhecimento de algumas ferramentas ou de linguagens; e, sem dúvida, faltam recursos. Humanos (mentores, por exemplo) e financeiros. Mas isso não parece impactar na maneira como arquitetam seus sonhos. Estes sim, me parecem mais elaborados, mais generosos, mais “holísticos”, para usar uma palavra da moda. Ou seja: pensam em si inseridos num contexto maior, que pode ser só a sua comunidade ou a sua cidade, mas pode ser também o país e até o mundo; estão mais atentos ao seu redor e não concentram seus pensamentos e sonhos num único e próprio umbigo. Por outro lado, são igualmente propensos às angústias e enfermidades mentais modernas: ouço falar de suicídios, depressão, bullying, em escala menor talvez, mas com a mesma preocupação e assombro que constatamos na cidade grande.

Também tenho me surpreendido com a liderança feminina jovem nestes “interiores”, historicamente mais - e ainda muito - machistas. Encontrei Bias, Iaras, Andreias, Thaises e Palomas à frente de grupos de estudantes multi-genêro, fazendo um trabalho de dar orgulho às mais ativistas feministas. Fico pensando que no mundo chamado “adulto”, os dados nos mostram que a liderança feminina ainda é muito sub-representada, seja na esfera política ou corporativa e que este tema, normalmente, dá margem a infindáveis discussões sobre estilo de liderança, cotas, problemas de auto-estima feminina, sobrecarga de funções sociais da mulher, etc. Encontrei essas jovens de 20 e pouquíssimos anos por aí, liderando grupos grandes, sem ter gasto um minuto de seu tempo e energia com essas discussões e representando seus colegas e, se preciso, tomando decisões por eles. Simplesmente admirável. E bem mais eficiente.

Nesta minha imersão pelos rincões do Brasil, também tive oportunidade de estar mais próxima de professores do “interior”. E confesso que me surpreendi ao encontrar uma vida acadêmica prá lá de pujante. Interessante conhecer professores, muitos muito jovens também, que acompanham os estudantes nas atividades extra-curriculares e são plateia incansável nos muitos concursos, campeonatos, olimpíadas do conhecimento, excursões, debates, feiras, eventos, etc. Dá um gosto danado de vê-los praticando intuitivamente a “filosofia maker”. Na minha impressão pessoal, sem nem saber que estão fazendo isso e sem terem teorizado sobre o assunto. Muita colaboração, inovação e mão-na-massa, muita experimentação, discussão e pós-reflexão, que motivam, engajam e que colocam os estudantes no seu verdadeiro papel de protagonista.

Grandes surpresas, gratas descobertas, muitas esperanças no Brasil. Esperança de que vai ser possível progredir e prosperar. Em todas as partes. Só eu que não conhecia este Brasil?

Joana Rudiger, apaixonada pela educação, e Presidente da Enactus. É uma das colunstas do RH Pra você. Foto: Divulgação. O conteúdo dessa coluna representa a opinião do colunista. Foto: Divulgação.

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