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Minha primeira reflexão do ano

Coluna 385

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Eu havia prometido que não iria falar sobre o ano que se foi, mas, motivada por um amigo, minhas mãos ficaram com uma certa coceira produzida por meu cérebro ativo e cheguei à conclusão de que o Universo talvez nos tenha ajudado, e muito, trazendo a pandemia, o isolamento social e tudo que sabemos nesse 2020.

No ano passado, no dia 04.01.2020, publiquei um texto intitulado “Cinco promessas de início de ano que todo executivo faz e nunca cumpre”.  

Essas promessas são:

  • Equilibrar a vida pessoal e profissional;
  • Cuidar da saúde;
  • Cuidar da saúde emocional, em especial, da ansiedade;
  • Dizer o que pensa;
  • Priorizar o que é importante.

No artigo, eu perguntava: “Por que algumas ou todas essas promessas ficam no esquecimento e só são lembradas no início do próximo ano?! Talvez porque falte nelas um ponto que entendo como o mais importante: o real desejo de concretizá-las, não para o outro, mas para si próprio.

Não adianta querer equilibrar a vida pessoal e profissional apenas para não ter problemas em casa. Na realidade, para muitos executivos, ficar no trabalho até mais tarde é uma grande possibilidade de não “arranjar encrenca” em casa. Portanto, é apenas o desejo verdadeiro de viver esse equilíbrio - e não algo que é imposto de fora para dentro - que torna possível a concretização dessa promessa.”

Pois é, com home office, essa desculpa não colou. Tivemos que ficar em casa e, mesmo assim, há quem não tenha conseguido equilibrar a vida pessoal com a profissional. Será que o problema era ficar até tarde no escritório? Por outro lado, houve uma grande chance de curarmos essa ferida.... será que conseguimos?

E então, o artigo assim continua:

“E assim também se pode falar da saúde física. Muitas vezes o(a) executivo(a) se vangloria de nunca ter precisado ir ao médico. Ora, se esse é um valor, como vai se dispor a fazer um check up? Outro ponto muito em voga é que “não cai bem” ficar afastado em função de alguma doença ou, ainda, fazer um exame em dia e horário de expediente. Assim, o valor está em trabalhar e ser presente em tudo, e não estar ausente e ir ao médico ou à academia. E, como se trabalha muito, é normal um grande desgaste de proporções que impactam tanto a saúde física, como a mental e emocional, que ficam sem ser olhadas por conta do valor externo que se sobrepõe à promessa de cuidar do próprio bem-estar. Assim, justifica-se a falta de tempo para qualquer coisa que não seja o trabalho ou seus derivados, com a seguinte argumentação: e se eu não pagar as contas, como ficam as coisas? No entanto, se sabe que as contas serão pagas, sim, e bem pagas, mesmo se for destinada uma parte do tempo para o cuidado pessoal. O problema não está no trabalho e sim onde se coloca valor, o resto é desculpa.”

Essa situação ficou escancarada nesse 2020. Ir ao médico tornou-se uma questão de vida ou morte, a partir da presença de qualquer sintoma que indicasse a presença do vírus, assim como cuidar da saúde física e mental foi e é o que nos garante a possibilidade de lidar com as demandas físicas e emocionais que estamos vivendo nesse momento. Quanto à ausência no trabalho, é até muito bem-vinda, para não contaminar outras pessoas. Será que, então, conseguimos cuidar da saúde física e mental? Demos valor a isso ou vai ficar para depois, como uma promessa para o próximo ano?

E continuo minha argumentação:

“Podemos continuar fazendo o mesmo raciocínio para a falta de cuidado com a ansiedade, com o nervosismo. E aí o desejo egóico de estar sempre certo(a), de ter sempre razão, de ter grande dificuldade de lidar com a frustração e com o fracasso, os quais tomam conta do(a) profissional, gerando ansiedade e nervosismo. Por incrível que pareça, querer que tudo aconteça da forma como queremos é tão infantil quanto a criança que quer tudo do seu jeito e fica emburrada quando algo sai diferente. Outro ponto típico de quem não consegue conter a ansiedade é a necessidade de controlar tudo e a dificuldade para entender que existem coisas que não estão sob nosso domínio”.

Talvez esse ponto tenha sido crucial em 2020: dar conta da saúde emocional. Com tantos atendimentos online, não foi buscar ajuda quem não quis, quem não se predispôs a sair da sua caixinha, sempre verdadeira e rígida.

“E quando chega-se ao ponto de sermos assertivos e dizer o que pensamos: E se meu chefe não gostar? E se meus pares me entenderem mal? E se eu for mal avaliado pelo Conselho e mal entendido pelo CEO? É melhor concordar e não falar o que penso. Menos risco, mais segurança e conforto. Talvez porque não tenha aprendido o significado do respeito e, mais profundamente, do auto respeito. Entende-se, dessa forma, que é melhor respeitar o outro e não me respeitar, assim como aprendi a abaixar a cabeça para a autoridade que colocasse minha vida em risco. Como cumprir uma promessa que coloca minha vida em risco? Impossível!”

E tivemos telinhas pretas apenas com o nome aparecendo, ao invés de posicionamentos certeiros. Medo de demissão, talvez. Zona de conforto, mais provável.

O que mais se ouviu falar nesse ano é que nunca se trabalhou tanto, nunca tivemos tanta dificuldade de priorizar (desejo do ano passado). E sabemos que quando o volume de trabalho é demasiado, provavelmente o problema está na delegação, na confiança que temos no outro. Ah, mas isso cresceu! Com certeza, não tinha outro caminho.

“E essa coisa de se atualizar, fazer cursos, pensar de forma estratégica?” Nunca houve tantos cursos, lives, informações e formações a um preço tão razoável e até gratuitos. Para esse ponto, não tem desculpa que seja válida.

Será que esse pessoal conseguiu finalmente dar conta dessas promessas?

Você conseguiu?

Se sim, parabéns! Se não, dê uma olhadinha na parte final do artigo.

Parece que tudo se encaixa e tem sempre a mesma raiz: as crenças e os valores internos.

Então vem um daqueles chavões que odeio, mas que não dá para não citar: “nada muda se você não muda”.

Mas o que não é chavão - e é na realidade um grande segredo - é que a mudança começa dentro, e não fora. Cada promessa para o Ano Novo não pode ser motivada por algo externo, seja porque é moda, seja porque a cultura da empresa exige, seja porque o pipeline sugere. Toda promessa depende fundamentalmente de um desejo interno, de algo que move nossa alma, que nos apaixona, que nos faz vibrar pela simples possibilidade de imaginar sua realização.

Assim, para que o ano que se inicia não seja, mais uma vez, coroado com promessas não cumpridas, antes de fazê-las, examine-se, olhe-se, pergunte-se:

- O que de fato eu quero?

- Estou disposto(a) a pagar o preço do que quero alcançar?

- Eu enxergo benefícios claros para mim?

- Sinto meu corpo se entusiasmar por essa promessa?

Se sim, vá em frente. Se não, pense – e se for preciso – repense. Nada de mal vai acontecer a você se começar o  ano pensando no que realmente faz sentido para sua vida.

Se agir assim for muito difícil, lembre-se de que sempre é possível contar com ajuda externa, de profissionais especializados. Não para lhe dizer o que deve fazer, mas para lhe ajudar a pensar. Sim, essa preciosidade que é pensar. Pensar nas promessas que quer fazer a você mesmo(a) e, mais do que pensar e fazer promessas, realizar algo que possa ajudá-lo(a) a caminhar na direção que entende ser sua estrada de evolução.

Profa. Dra. Fátima Motta, Sócia-Diretora da FM Consultores. Coach, Palestrante, Consultora em Desenvolvimento Humano. É uma das colunistas do RH Pra Você. O conteúdo dessa coluna representa a opinião do colunista. Foto: Divulgação.

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