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Inclusão E Diversidade Dá Lucro Sim!

Coluna 1044

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Quando fiquei na cadeira de rodas em 1998 logo percebi que a minha nova limitação de locomoção não havia me transformado em uma nova pessoa, eu continuava sendo a mesma.

Uma das atividades que me faziam espairecer era passear em algum shopping, talvez porque eram ambientes mais acessíveis e favoráveis à minha nova condição como cadeirante, mas também porque eu adorava fazer umas comprinhas.

Que mulher não gosta de um novo sapato, uma bolsa, uma blusinha, uma coisinha qualquer que vemos na vitrine?

Entretanto, lá em 1998 não eram todos os shoppings que tinham acessibilidade. Muitos não tinham nem sanitário adaptado, mas havia uma rede de shoppings, a Rede Plaza, que havia criado um programa de atendimento para pessoas com necessidades especiais.

Eles ofereciam estacionamento gratuito na área VIP, disponibilizavam cadeiras de roda motorizada, sanitários adaptados, mas além disso, demonstravam cuidado, atenção e preocupação com esses clientes.

Eles entenderam que independente da necessidade especial, ou específica, pessoas com deficiência e idosos eram clientes que consumiam em suas dependências.

E eu entendi também que era uma cliente, uma consumidora, mas que não era bem atendida na maioria dos lugares.

Eu passei a frequentar muito os shoppings dessa rede e deixei de frequentar estabelecimentos que não ofereciam acessibilidade, atendimento preferencial e que não demonstravam interesse em me atender, a mesma Andrea de sempre, mas agora sentada em uma cadeira de rodas.

E junto comigo trazia meu namorado, meus familiares, meus amigos, ou seja, percebi que era uma cliente poderosa, que influenciava outros consumidores, porque os lugares que escolhíamos – e que continuamos escolhendo - para frequentar são aqueles que atendem às minhas necessidades específicas de locomoção, ou seja, aqueles que são acessíveis.

Foram essas experiências que me trouxeram o insight de escrever o primeiro guia da cidade de São Paulo voltado para pessoas com deficiência, o Guia São Paulo Adaptada.

Me lembro que imaginei uma área do guia denominada “The Best” que pretendia colocar os lugares mais acessíveis e que ofereciam um atendimento de excelência para pessoas com deficiência, mas na época, há 20 anos atrás não encontrei nem 10 locais, considerando os 4 shoppings da Rede Plaza.

Hoje a situação é diferente, mas ainda é muito embrionária. Faltam muitos serviços e produtos voltados às necessidades específicas das pessoas com deficiência.

Na verdade o que falta é uma maior consciência de que esse público é consumidor, que ao encontrar um serviço ou produto de qualidade que atenda às suas necessidades específicas, eles são facilmente fidelizados e influenciam outros consumidores ao seu redor.

Outro dia mesmo, em palestra que estava fazendo para a liderança de uma empresa surgiu esse tema. Uma das gestoras levantou a questão sobre a dificuldade de uma pessoa com deficiência que necessita de auxílio para viajar de avião conseguir comprar a passagem de seu acompanhante com 70% de desconto, que é um direito garantido por lei.

Eu mesma nunca consegui acessar esse direito tamanha a burocracia e procedimentos necessários que as companhias aéreas nos impõe.

Certamente a primeira companhia aérea que simplificar esse procedimento fidelizará esse público, mas ainda falta essa visão, de que pessoas com deficiência também consomem e podem trazer lucro para as empresas.

Eu vejo que nos últimos 15 anos milhares de pessoas com deficiência entraram no mercado de trabalho via Lei de Cotas e aumentaram significativamente seu poder aquisitivo. Já são mais de 418.000 pessoas com deficiência no mercado formal de trabalho.

Mas ainda poucos percebem isso.

Tenho certeza que à medida que as pessoas com deficiência comecem a ocupar cargos mais altos na hierarquia organizacional, com poderes para tomar decisões e administrar orçamentos, maior será essa consciência e a oferta de produtos e serviços pensados para todos será ampliada significativamente.

Este é apenas um dos pontos que provam o valor da diversidade nas organizações.

Ninguém precisa de favor, mas sim de oportunidades e, quanto maior for a convivência entre pessoas com experiência e visões de mundo diferentes melhor para todos.

Afinal inclusão e diversidade trazem lucro. Você que não percebeu isso, ainda.

Por Andrea Schwarz, idealizadora da i.Social. É uma das colunistas do RH Pra Você. O conteúdo dessa coluna representa a opinião do colunista. Foto: Divulgação

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