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Gestão desumana de pessoas

Coluna 398

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Na edição de fevereiro, a revista Você S/A deu destaque a um dos temas mais aflitivos que temos vivido no ambiente empresarial dos últimos tempos, o assédio moral e a pressão psicológica sobre as pessoas.

O título da Você S/A é bem sugestivo e demonstra a que ponto chegamos na hipocrisia sobre gestão de pessoas: As Piores Empresas para Trabalhar.

A meu ver, um paradoxo temos vivido na denominada moderna gestão empresarial; uso intenso da tecnologia a desafiar os modelos de negócios, o surgimento de novas oportunidades de mercado, a emergência, a partir do Fórum Econômico de Davos, do conceito ESG, na sigla em inglês Environment, Social and Governance – ambiente, social e governança, o qual refere-se aos três fatores centrais na medição de sustentabilidade e impacto social de investimentos de empresas. Se queremos definir se uma empresa é bem-sucedida, deveríamos considerar essas três dimensões. Ser apenas lucrativa é um olhar; via de regra, lucro deveria ser consequência de empresas sustentavelmente bem geridas, não fim em si mesmo, a qualquer preço.

Recebo, semanalmente, uma profusão de publicações especializadas, e-books e artigos,  abordando temas contemporâneos sobre a gestão de pessoas, tais como agile, people analytics, liderança e propósito, modelos mentais, experiência do colaborador, holocracia, scrum & scale, gestão baseada em dados e evidências, times multifuncionais, life long learning, organizações de aprendizagem, co-criação, re-sekilling, entregar valor ao negócio e por aí vai...

O pop management ou, gestão mais superficial e imediatista, de forte apelo midiático, parece ter ganhado ainda maior destaque com o advento das redes sociais, em que pese que a realidade se recusa a comportar-se tal qual a ficção quer nos fazer acreditar. Parece que os executivos que dirigem as empresas, estão como que deslumbrados com a exposição permanente e os efeitos narcotizantes, por assim dizer, do pseudo sucesso instantâneo, produzido por suas efêmeras publicações diárias.

Conforme nos ensina o filósofo sul coreano Byung-Chul Han, cada época possui suas enfermidades fundamentais. Visto a partir da perspectiva patológica, o começo do século XXI não é definido como bacteriológico nem viral, mas neuronal. Doenças neuronais como a depressão, transtorno de déficit de atenção como síndrome de hiperatividade (TDAH), transtorno de personalidade limítrofe (TPL) ou a síndrome de burnout determinam a paisagem patológica do começo do século XXI. Não são infecções, mas enfartos, provocados não pela negatividade de algo imunologicamente diverso, mas pelo excesso de positividade. Assim, eles escapam a qualquer técnica imunológica, que tem a função de afastar a negatividade daquilo que é estranho. Adoecimentos neuronais do século XXI seguem, por seu turno, sua dialética, não a dialética da negatividade, mas a da positividade. São estados patológicos devidos a um exagero de positividade. O esgotamento, a exaustão e o sufocamento frente à demasia são reações imunológicas. Todas essas são manifestações de uma violência neuronal, que não é de natureza viral.

A positividade do mundo faz surgir novas formas de violência, tais quais temos assistido diariamente nas empresas. A violência da positividade não é privativa, mas saturante; não excludente, mas exaustiva. Trata-se de uma violência sistêmica; tanto a depressão quanto o burnout ou, a síndrome de hiperatividade (TDAH) apontam para um excesso de positividade.

Estamos vivendo em uma sociedade do desempenho. A sociedade disciplinar ainda é dominada pelo não. Sua negatividade gera loucos e delinquentes. A sociedade do desempenho, por sua vez, produz depressivos e fracassados. A positividade do poder é bem mais eficiente que a negatividade do dever.

Inspirado em Nietzsche, por falta de atenção ao que é humano, nossas empresas caminham para uma nova barbárie, descaracterizando a individualidade e o legítimo direito de ser humano. A que ponto chegamos.

Meu convite aos colegas que atuam no campo da gestão de pessoas, para reverem seus modelos de operação e liderarem, com coragem, uma agenda de transformação que devolva a dignidade para as suas empresas, com políticas que, de verdade, coloquem as pessoas no centro da estratégia dos negócios, com respeito à individualidade, ao que é humano, que promovam paz de espírito e o legítimo direito ao descanso, ao lazer, ao desenvolvimento integral das pessoas.

Coragem para fugir dos modismos e do pop management, para ajudar a construir empresas que respeitem a natureza humana. Na sociedade atual, segundo o falecido psicanalista Claudio Naranjo, a qual denominamos de civilização, predomina o cérebro racional e tem lugar o imperialismo da razão sobre o emocional e o instintivo.

Devemos voltar às raízes da educação como autoconhecimento, como busca do “conhece-te a ti mesmo” de Sócrates. Ao conhecimento transformador que possibilita a mudança.

É preciso integrar processos de autoconhecimento transformador. Não há mudança possível sem passar pelo autoconhecimento individual.

A educação resiste a integrar o transcendental-espiritual e o terapêutico e segue considerando-os um campo a parte porque, se não fosse assim, as coisas se complicariam. E é certo que se complicariam um pouco, porque significaria permitir que as pessoas pensem por si mesmas. Então, não se assume o risco. Claro que não se calcula o preço disto.

O ócio está ligado ao crescimento e ao espírito, já que nos oferece a oportunidade de estarmos conosco mesmos.

Precisamos de respostas mais profundas que nos levem a fazer mudanças significativas no modo como tem sido caracterizada a dita, moderna gestão de pessoas.

Por Américo Figueiredo, Conselheiro Consultivo, Professor Educação Executiva em Gestão de Pessoas, Governança e Organizações, Mentor de Carreira. É um dos colunistas do RH Pra Você. O conteúdo dessa coluna representa a opinião do colunista. Foto: Divulgação.