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Felicidade se constrói?

Coluna 1541

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Todos nós desenvolvemos vários hábitos, os quais nem ao menos percebemos sua existência, como por exemplo a forma como dormimos, como nos alimentamos, como falamos ou como dirigimos. Além desses hábitos mais visíveis, desenvolvemos hábitos mais sutis, que definem a forma como pensamos e sentimos e que influenciam nossos comportamentos. Podemos dizer, então, que temos muitas manias, inclusive, manias na forma de pensar, manias na forma de sentir. Mas esses hábitos são tão sutis que por vezes não nos damos conta do quanto existem e nos tornamos, sem querer, deles prisioneiros.

Para ficar mais claro, é só lembrar dos pensamentos repetitivos. Por exemplo, o que pensamos assim que acordamos? O que pensamos de um dia de trabalho? O que pensamos quando temos que fazer uma apresentação, e quando precisamos fazer uma viagem a trabalho? Ou quando temos que falar em outro idioma, ou quando temos que justificar nossos resultados, ou alguém nos chama para um feedback? Pode ser que, ao responder a algumas dessas perguntas, encontremos pensamentos repetitivos, hábitos que desenvolvemos no decorrer da vida.

Esses pensamentos determinam a forma como respondemos a determinadas situações e, como são sutis, podem engessar, tornar rígida a relação que temos conosco, com os outros, com a empresa e, de um ponto de vista mais amplo, com o mundo.

Mas o leitor deve estar se perguntando: qual a relação, então, dos hábitos com a felicidade? Como, por vezes, não temos consciência de nossos hábitos na forma de pensar, podemos disparar, sem querer, sentimentos de ansiedade, preocupação, angústia, irritação, o que nos afasta da felicidade.

Se, por um lado, nossos hábitos mentais podem nos afastar da felicidade, por outro, podemos desenvolver hábitos mentais que nos aproximem da felicidade.  Claro que existem momentos onde nos sentimos felizes sem nenhum esforço, mas, mesmo nesses momentos, se investigarmos mais profundamente nosso estado, poderemos reconhecer uma predisposição interna muito grande para viver o momento, a situação de maneira positiva. Já que esses momentos não acontecem sempre, como trabalhar com nossos hábitos para que impulsionem a felicidade?

O primeiro passo para responder a essa pergunta é ter autoconsciência desses hábitos e perceber quais deles trazem um bom sentimento e quais trazem desconforto. Exemplificando: pode ser que, para uma pessoa, o hábito de tomar café ao chegar na empresa é prazeroso, gera um sentimento de felicidade, mas o hábito de falar com o líder no primeiro horário gera tensão e ansiedade. Pensar em um trabalho bem feito, no elogio do líder, no sucesso de uma apresentação gera felicidade. No entanto, pode ser que se passe muito menos tempo pensando no que nos impulsiona à felicidade e muito mais tempo pensando no que nos preocupa, entristece, angustia etc.

Assim, o segundo passo, depois de reconhecer os pensamentos que geram felicidade, é, conscientemente trazê-los o máximo tempo possível para nossa tela mental. Pensar no que nos faz feliz é um exercício importante para o cérebro, segundo pesquisas de neurocientistas, porque habitua nosso cérebro a reconhecer o que é bom e isso abre portas para que se construa a felicidade nas ações diárias, mantendo-nos mais adaptativos, criativos e motivados, pois, ficamos mais abertos para oportunidades que nos beneficiem, tanto no trabalho, como no lazer.

Schawn Achor, professor de Harvard e autor do livro O jeito Harvard de ser feliz, ancora essa premissa, na forma como se aprende a jogar vídeo games: quanto mais exercitamos o cérebro a buscar um determinado estímulo, mais rapidamente ele o encontrará e daremos uma resposta positiva ao estímulo a qual treinamos nosso cérebro. Assim, se treinarmos nosso cérebro a encontrar o positivo nas diversas situações, se nosso hábito mental for treinado, direcionando-o à busca de aspectos positivos, estará mais aberto para situações variadas e a felicidade será mais facilmente construída.

Para exercitar o cérebro no positivo, Schawn dá uma sugestão bastante prática e eficaz, que eu colocaria como o terceiro passo, dando continuidade aos dois anteriores citados: elaborar, todos os dias, de preferência no mesmo horário, uma lista de 3 coisas boas que aconteceram durante o dia. O cérebro será forçado a rever as últimas 24 horas em busca de elementos positivos.

Este exercício atua como um treinamento para o cérebro a perceber e se focar melhor nas possibilidades de crescimento pessoal e profissional e a aproveitar as oportunidades de concretizar essas possibilidades, segundo o autor, que também afirma que esta prática leva a resultados duradouros, gerando sustentação na felicidade e níveis mais elevados de otimismo.

Resta, então, simplesmente entender que cada um pode construir sua felicidade, identificando, avaliando e trabalhando nos seus hábitos mentais. Mas, se para todas as pessoas essa constatação é importante, para os líderes essas constatações se potencializam de forma geométrica. O líder tem uma responsabilidade imensa no que diz respeito à sua energia mental, aos seus hábitos mentais.

Sua negatividade se expande de forma vertiginosa pela equipe toda, assim como sua positividade. Assim, cabe ao líder construir sua felicidade e ajudar a sua equipe também nessas práticas. A felicidade em uma empresa é o motor para o desempenho e para a produtividade. É o que abre as portas para a excelência, para o comprometimento e para os resultados sustentáveis, fatores tão importantes e requeridos no mundo corporativo atual. Ser líder, então, requer um profundo trabalho de autoconsciência e transformação, além de um exercício mental, um treinamento cerebral, que direcione a mente no sentido do positivo e da felicidade.

Com certeza, o benefício disso repercute de forma positiva para o próprio líder, para sua equipe, para sua família, para a empresa, enfim, para uma grande rede que interage com cada líder e com cada profissional a ele interligado.

Finalizando, seja você líder ou não, que tal começar a construir sua felicidade? Que tal cultivar hábitos mentais que construam sua felicidade diária? Se antes isso soava como autoajuda, agora é uma descoberta séria que talvez seja um dos fatores mais poderosos para que consigamos lidar com todos os desafios que o mundo atual nos presenteia.

Por Fátima Motta, Profa. Dra. Fátima Motta, Sócia-Diretora da FM Consultores. É uma das colunistas do RH Pra Você. O conteúdo dessa coluna representa a opinião do colunista. Foto: Divulgação. O conteúdo dessa coluna representa a opinião do colunista.