- Início

- Conteúdo

Errar é humano, julgar também o é?

Coluna 902

Compartilhe Este Post

O ser humano erra demais porque julga demais! Não digo apenas por dizer, é a mais singela constatação do que tenho visto ao longo da minha vida e agora se torna mais clara à medida que vou compreendendo a história e estudando as relações entre as pessoas, sociedades e nações.

A minha percepção é que recebemos o livre arbítrio tão de repente que não houve tempo de nos tornarmos conscientes do seu significado, e no mesmo momento em que o recebemos começamos a utilizá-lo sem saber o que tínhamos nas mãos, ou na mente, ou na consciência! Como crianças brincando com o fogo começamos a criar um mundo cheio de perigos e dúvidas, onde a realidade que se forma oscila de acordo com os desejos e sensações de todos nós que mal conhecemos o real significado de liberdade.

Já mencionei em artigos anteriores que o ser humano tem a capacidade de criar e cocriar direcionando os seus pensamentos e sentimentos. Mas, para criar ou mudar uma realidade é preciso alcançar uma outra dimensão de consciência, caso contrário o resultado será o mesmo de sempre: do caos a desilusões, ou seja, erros e mais erros oriundos dos infindáveis julgamentos...

O pensamento mecanicista ou racional, postulado por René Descartes, nos ensina que para compreendermos algo complexo devemos separar o todo em partes e entendê-las separadamente para, por fim, compreender o todo. Esta tem sido uma enganosa forma de pensar por que nos leva a julgar fatos que não se coadunam e nos ilude, induzindo-nos ao erro. Quando separamos sujeito e objeto no ato de conhecer não produzimos conhecimento algum. A realidade exterior não é percebida pelo nosso eu interior e a nossa capacidade de aprender com ela, a ponto de entendê-la, fica simplesmente adormecida. E, portanto, perdemos a oportunidade de interagir com a vida e dar a ela novos significados.  

Pensadores como Rudolf Steiner, Edgar Morin, Gilbert Durand e os mais recentes Peter Senge e Otto Scharmer apresentam similitudes na forma de observar, aprender e pensar utilizando-se de conceitos que levam o espaço cognitivo a um outro patamar de importância.

Este espaço cognitivo inicia-se logo após o despertar da mente e do ver coletivamente e está relacionado à capacidade de acessar um outro tipo de inteligência, a emocional. A capacidade de compartilhar sentimentos com outros, de se ajustar a diferentes contextos e de se colocar no lugar de outra pessoa.

Dado a infinita possibilidade de se criar realidades, não é minimamente possível fazê-la com o uso do livre arbítrio a partir do centro do próprio campo de conhecimento, que invariavelmente é limitado e escasso. É preciso construir uma inteligência coletiva e interagir com ela para que a nossa capacidade de discernimento e de aprendizagem se expanda, alcançando novas dimensões de consciência. Isto só é possível quando conseguimos manter o nosso coração disposto a sentir e vivenciar a realidade como o outro a sente.

Lembrando a Teoria U que mencionei no meu artigo anterior, uma vez dominada a voz do julgamento entra-se na voz do coração, onde a empatia generativa é o balsamo que cura todas as relações.

Ao ocorrer esta mudança, a fronteira entre o observador e o que é observado entra em colapso, o sujeito e o objeto não estão mais separados, e o observador começa a ver o sistema de um ponto de vista profundamente diferente; um ponto de vista que inclui a si próprio como parte do sistema que está sendo observado. Isto é pura física quântica!

Por ora, não interessa saber como viemos parar na Terra, mas sim, como vamos trabalhar com os dons que recebemos. O livre arbítrio é uma liberdade dada para construirmos o melhor dos mundos, mas convenhamos ainda não conquistamos este nível de maturidade. Discernimento é um dos caminhos e vamos crescendo gradualmente a partir da inteligência coletiva que criamos e vivenciamos juntos. O mundo não é mais o mesmo, sempre à procura de um herói! O mundo somos nós construindo coletivamente o futuro que nos interessa!

Se fossemos elaborar um mapa mental do tema deste artigo teríamos uma sequência lógica muito próxima a esta:

  • Livre arbítrio sem discernimento gera erros.
  • Erros geram julgamentos que geram mais erros. 
  • Livre arbítrio exige discernimento.
  • Discernimento é o ato consciente de escolher entre o bem e o mal.
  • Crescer em discernimento demanda pensar antes de julgar.
  • Pensar gera o conhecimento que gera o sentir que gera um novo pensar.
  • Separar sujeito do objeto no ato de conhecer e sentir não gera aprendizado algum.
  • O pensamento com discernimento cala a voz do julgamento.
  • Quanto mais puro o pensamento mais puro o sentimento.
  • O sentimento elevado desperta o coração.
  • O coração desperto gera a empatia generativa.
  • A empatia cura as relações.
  • Relações mais saudáveis produzem melhores interações e alimentam o discernimento.
  • Discernimento plenificado constrói livre arbítrio consciente.
  • Livre arbítrio consciente cria realidades conscientes.
  • Criar um mundo melhor é a missão de todos nós!

Por Vicente Picarelli, fundador da Picarelli Human Consulting e professor e consultor da Fundação Dom Cabral. É um dos Colunistas do RH Pra Você. O conteúdo dessa coluna representa a opinião do colunista. Foto: Divulgação.

Você também vai gostar