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Entenda como a tecnologia afeta a saúde mental das pessoas

Coluna 1288

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A tecnologia aliada ao celular tem transformado nossos comportamentos e a forma como interagimos com as pessoas, encurtando distâncias e facilitando conexões instantâneas. Com acesso ao mundo na palma da mão, nunca pudemos ter acesso tão imediato à informação e estar tão próximos das pessoas por meio das redes sociais e aplicativos. Embora isso possa trazer a ilusão de menos isolamento, mais conexões significativas e mais apoio social, os números e as pesquisas revelam uma outra realidade.

Os transtornos mentais são hoje a terceira causa de afastamento no trabalho e entre adolescentes e jovens a incidência de depressão e de suicídio têm aumentado de forma alarmante em todo o mundo. Segundo dados da OMS (Organização Mundial da Saúde) divulgados em 2017, o Brasil ocupa o primeiro lugar no ranking mundial de transtornos de ansiedade – com um índice três vezes maior do que a média mundial - e o quinto em depressão. Não são claras as causas, mas alguns fatores como desigualdade social, crise financeira e política, pobreza e níveis elevados de estresse parecem contribuir para este índice. Além disto, a internet e o uso dos smartphones podem afetar o nosso bem-estar físico e mental.

Estudos mostram que o uso imoderado da internet pode potencializar a ansiedade. A sensação de ter que estar sempre conectado e por dentro de tudo o que está acontecendo escraviza e gera sofrimento. Já existe até um termo cunhado para isso, FOMO (Fear Of Missing Out). As pessoas sentem necessidade de checar e-mails e as redes sociais obsessivamente e têm sintomas de estresse excessivo e ansiedade elevada. No entanto, quanto mais nos conectamos à internet mais nos afastamos das pessoas e maior é a sensação de isolamento. Quando as pessoas não estão bem, acessar redes sociais online pode aumentar a ansiedade, gerar angustia e afetar negativamente o seu estado emocional. O estudo Seeing Everyone Else's Highlight Reels: How Facebook Usage is Linked to Depressive Symptoms, publicado no Journal of Social Psychology aponta que pessoas que passam muito tempo logadas no facebook têm mais sintomas depressivos. As evidências apontam que isto ocorre pelo fato delas se sentirem piores aos se compararem aos outros.

Parece haver uma correlação entre a utilização excessiva de smartphones e a diminuição da sensação de bem-estar, aumento do estresse, da ansiedade e de sintomas depressivos. Em outro estudo realizado nos Estados Unidos publicado no Clinical Psychological Science, os pesquisadores descobriram que adolescentes que passaram cinco ou mais horas por dia conectados a dispositivos eletrônicos, incluindo redes sociais e smartphones, relatavam mais sintomas como ansiedade ou irritação do que os que passavam mais horas em atividades offline.

Um ponto é incontestável: o tempo é um recurso limitado. Quanto mais tempo é gasto à frente das telas e na internet, menos tempo temos disponível para outras atividades como exercícios, leitura, hobbies, interações sociais e familiares. Somado a isso, o ato de se conectar ao celular a cada segundo em que não estamos “fazendo nada” impossibilita a autorreflexão, fundamental para descobrirmos quem somos, conhecermos as nossas necessidades, angustias, desejos e sonhos... e fazermos planos para o futuro.

Os smartphones também promoveram mudanças na forma de comunicação. Pessoas têm preferido cada vez mais digitar a conversar e a falta interação e de conversas ao vivo prejudica os relacionamentos, o bem-estar, a criatividade e a produtividade. Percebemos que as famílias estão cada vez mais desconectadas: pais não conhecem os seus filhos e ficam sabendo de suas vidas pelas redes sociais; filhos se sentem solitários mas não pedem ajuda; casais se comunicam por mensagens e pouco se olham ou conversam. Pessoas compartilham o mesmo ambiente, mas cada uma conectada ao seu aparelho tecnológico e sem troca e interação com quem está à sua volta. Sherryl Turkle, pesquisadora sobre a interação humano-tecnológica no Instituto de Tecnologia de Massachussets, aponta em seu livro “Alone Together” que esperamos hoje mais da tecnologia do que uns dos outros.

Está claro que o grande problema não é a tecnologia, mas a forma como a utilizamos. No ambiente de trabalho não é diferente. Qual o espaço para aquela parada para o café com o colega, tão salutar?! No café você fica grudado na tela do celular ou olha nos olhos das pessoas e as ouve? Como você tem agido nas reuniões? Usar o celular de forma consciente pode fazer toda a diferença e você pode começar ficando atento aos próprios comportamentos e procurando mudá-los se necessário.

Quando vivemos mais a nossa vida virtual, perdemos oportunidades de interagir e fortalecer as relações com as pessoas que realmente fazem parte da nossa vida. Já está provado que a conexão humana, o afeto e as interações sociais fazem com que o nosso cérebro libere hormônios como a ocitocina, extremamente benéfica para o nosso bem-estar, moderadora do estresse e protetora da nossa saúde cardiovascular. Relações próximas e significativas são construídas na intimidade real, sem edições, recortes ou filtros. Quando a amizade é verdadeira podemos mostrar as nossas fragilidades e vulnerabilidades sem medo de sermos julgados ou criticados, mas na esperança de encontrar a compreensão e o apoio de um ombro amigo.

Precisamos criar oportunidades de conversar, de tocar e ser tocado seja em um abraço ou em nossas emoções... precisamos sentir e experienciar emoções e sensações “reais” no lugar de emoções digitadas ou expressas em emoticons, resgatando e ajudando nossas crianças e jovens a encontrar a humanidade que existe em cada um.

Referências de pesquisas citadas:

https://www.psychologicalscience.org/news/releases/new-research-from-clinical-psychological-science-65.html

http://journals.sagepub.com/doi/full/10.1177/0894439317742611

Rosalina Moura é Psicóloga e Coach. Sócio fundadora da Rumo, empresa que atua no segmento de bem-estar e gerenciamento do estresse. É um das Colunistas do RH Pra Você. Foto: Divulgação

O conteúdo dessa coluna representa a opinião do colunista.