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É preciso falar sobre a saúde mental no ambiente de trabalho [Parte I]

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Em junho de 2018, a programadora Madalyn Parker compartilhou em sua rede social uma conversa entre ela e o CEO da empresa em que trabalha. Poucas horas depois, a postagem no Twitter já ultrapassava trinta mil curtidas. Com o assunto “Onde está Madalyn?”, a jovem enviou um e-mail à equipe dizendo que iria tirar dois dias de folga para focar em sua saúde mental e esperava voltar na próxima semana renovada e 100% pronta para o trabalho.

“Oi, Madalyn. Eu gostaria de te agradecer pessoalmente por mandar um e-mail como este. Toda vez que você o faz, eu os uso como lembretes da importância de usar dias de folga também para a saúde mental. Eu não acredito que isso não seja uma prática comum em todas as companhias. Você é um exemplo para todos nós, ajudando a cortar o estigma para que seja possível para todos nós darmos 100% no trabalho”, disse o CEO Ben Congleton. 

O teor da resposta chamou atenção justamente pela maneira com que lidou frente à saúde mental – um tema ainda cercado de tabu e estigma dentro e fora das organizações. Especificamente sobre o segundo, nove em cada dez brasileiros no mercado de trabalho apresentam sintomas de ansiedade, do grau mais leve ao incapacitante. 

Segundo a última pesquisa da International Stress Management Association do Brasil (ISMA-BR), organização sem fins lucrativos dedicada ao tema, metade dos profissionais ativos (47%) sofrem de algum nível de depressão, recorrente em 14% dos casos. 

Os transtornos mentais e emocionais são a segunda causa de afastamento do serviço. Nos últimos dez anos, a concessão de auxílio-doença acidentário devido às doenças em questão aumentou em quase em vinte vezes, segundo o Ministério da Previdência Social. Com frequência, essas pessoas ficam mais de cem dias longe de suas funções. 

Em todo o mundo, os gastos relacionados a transtornos emocionais e psicológicos podem chegar a seis trilhões de dólares até 2030, mais do que a soma dos custos com diabetes, doenças respiratórias e câncer, apontam estimativas do Fórum Econômico Mundial.  

De acordo com Ana Maria Rossi, presidente da ISMA-BR, ainda existe um estigma muito grande em relação à saúde mental, sendo que a compreensão é diferente se comparada com uma doença biológica e/ou física. Preconceito e desinformação são fatores que contribuem para o cenário. 

“Muitas vezes a pessoa discrimina a própria doença por medo ou vergonha. Há também o olhar discriminatório dos outros. Isso termina gerando mais problema, porque internalizam aquilo e daí vão piorando, o que faz com que se agrave”, destaca Ana Maria.

 Em uma pesquisa feita pelo instituto britânico de saúde mental Mind, descobriu-se que 90% dos profissionais que ficaram longe do trabalho devido ao estresse não citaram o verdadeiro motivo como razão de sua ausência. Na verdade, a maioria deles elencou como justificativa um problema físico, uma dor de cabeça, por exemplo. 

O termo psicofobia foi criado para designar o estigma e preconceito contra as pessoas com doenças ou transtornos mentais. Tramita no Senado o Projeto de Lei nº 74, de 2014, que prevê a sua criminalização. Há, inclusive, um dia dedicado ao enfrentamento da questão. Idealizada pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), a data 12 de abril foi escolhida em alusão ao nascimento do ator e humorista Chico Anysio, apoiador da luta contra o preconceito, e que sofreu de depressão. 

Sintomas

A pesquisa da ISMA-BR indicou os sintomas mais comuns entre as pessoas ativas no mercado de trabalho. Eles podem ser de origem comportamental, emocional ou físico, sendo possível que se manifestem mais de um ao mesmo tempo. 

Físico: Dores musculares (91%), incluindo dor de cabeça, distúrbios do sono e problemas gastrointestinais. 

Emocional: ansiedade (87%), angústia (81%) e preocupação (68%). 

Comportamental: consumo de drogas ou álcool (63%), agressividade (58%) e mudanças de apetite (38%).

De acordo com Ana Maria, os sintomas, se não cuidados, podem desencadear doenças ­– desde dor crônica, inclusive a fibromialgia, insônia, úlcera, gastrite, diarreia e constipação. Dentre os emocionais, o alto nível de ansiedade pode gerar fobia e síndrome do pânico.

Enquanto a fobia possui um fator desencadeante, como medo de avião, lugares fechados, falar em público etc, sendo que, em muitas vezes, a pessoa pode se deparar com a fobia apenas no momento em que tem contato com o fator gatilho, a síndrome do pânico ocorre quando há um acúmulo de pressões e demandas que se tornam intoleráveis. 

Ana Maria pontua que esse sentimento excessivo pode se transformar em Transtorno da Ansiedade Generalizada (TAG). “Pode ter problema ao estar em um espaço aberto, dar uma palestra, fazer uma apresentação. Há profissionais que acabam se demitindo de um cargo porque teriam que falar em público”. 

Em relação aos sintomas comportamentais, a presidente da ISMA-BR ressalta o aumento do consumo de álcool e drogas prescritas ou de rua entre os profissionais brasileiros. “Não significa que são indivíduos descomprometidos, mas consomem como uma forma de se anestesiarem. Isso tem aumentado”. Além disso, chama atenção para a agressividade, notável em situações de trânsito, por exemplo. “Demonstra que as pessoas estão mais agressivas e algumas se descontrolando em função disso”, completa. 

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, o Brasil é considerado o país mais ansioso e estressado da América Latina. Nos últimos dez anos o número de pessoas com depressão aumentou 18,4%, isso corresponde a 322 milhões de indivíduos. No Brasil, 5,8% dos habitantes – a maior taxa do continente latino-americano – sofrem com o problema.  

O país também lidera em relação à ansiedade, com 9,3% da população. Esse problema engloba efeitos como fobia, transtorno obsessivo-compulsivo, estresse pós-traumático e ataques de pânico. As mulheres sofrem mais com a ansiedade: cerca de 7,7% das mulheres são ansiosas e 5,1%, deprimidas. Já entre os homens, o número cai para 3,6% nos dois casos. 

Outra situação comum no Brasil é a síndrome de Burnout, que já afeta 32% da população economicamente ativa do País, sendo o segundo índice mais alto no mundo, perdendo apenas para o Japão. De acordo com Ana Maria, ela chega a ser confundida com a depressão, porém se diferencia por estar sempre relacionada ao trabalho. 

Também denominada como esgotamento profissional, a síndrome tem como principais características o estresse crônico, tensão, despersonalização e o esgotamento físico e emocional. 

“Ela tem diversas causas: sobrecarga, falta de controle, desajuste, diferença entre esforço e recompensa, falta de justiça, por exemplo, profissionais recebendo promoção porque são mais próximos dos gestores e não pela qualidade do trabalho ou conhecimento. Às vezes conflitos de valor, atuar em situações que discordam totalmente”, explica Ana Maria. 

Há, ainda, o custo do presenteísmo — quando o funcionário vai trabalhar, mas está com a cabeça em outro lugar. Segundo a presidente da ISMA-BR, 96% das pessoas que têm burnout se sentem incapacitadas para trabalhar. Mesmo assim, 92% continuam indo para a empresa, com medo de serem demitidas ou de se afastarem e não conseguirem voltar.

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