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Desengajamento Moral: O Lado Negro Das Organizações

Coluna 611

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Por que, apesar de tantos escândalos envolvendo empresas reconhecidas pelo mercado, seguimos assistindo ao mesmo discurso de minimização e distorção das consequências?

Muito tem sido estudado, ao longo dos últimos 30 anos, pelo menos, sobre organizações e práticas de gestão. Ensaios, pesquisas, artigos acadêmicos e inúmeras matérias publicadas pelas revistas de negócios, tratando sobre o mundo das modernas empresas e dos seus atores executivos, frequentemente enaltecidos como celebridades.

Apesar de tanto conhecimento, pouco tem sido divulgado sobre o que se denomina como sendo o “lado negro” das organizações, caracterizado por práticas que acontecem dentro dos limites de tais instituições, não sendo externos a essas. Incluem-se, neste campo, os crimes corporativos, via de regra, praticados por executivos, de acordo com os procedimentos operacionais adotados, normas culturais da organização e, com claro objetivo de beneficiar a própria empresa.

A meu ver, uma sofisticação dos termos e definições das narrativas perante a opinião pública, por parte das empresas, quando envolvidas em práticas de crimes corporativos. Tal sofisticação visa persuadir o público quanto à não culpabilidade destas, ou, o que os acadêmicos definem como desengajamento moral, que consiste no “desligamento seletivo de autossanções morais da conduta transgressora.”

Há um amplo universo de transgressões que tem atingido grandes empresas brasileiras, no âmbito dos crimes ambientais e, daqueles de corrupção contra o Estado, para citar dois campos bem conhecidos dos noticiários brasileiros, pelo menos, de forma frequente, a partir de 2009, quando foi deflagrada a Operação Lava Jato.

Mesmo diante do espanto e, da indignação dos cidadãos, fica evidente a prática dissimulada da narrativa empresarial, assentada no desengajamento moral dos seus responsáveis, como temos visto nos pronunciamentos corporativos. Fica, então, a pergunta, por que as empresas buscam dissuadir a sociedade quanto à sua responsabilidade em situações de transgressão?

A orientação das organizações para a maximização dos lucros, leva a uma preocupação exagerada quanto à sua saúde financeira, negligenciando a saúde moral.

O desinteresse pela saúde moral das empresas, resulta em variadas condutas antiéticas, imorais e ilegais, tais como os crimes corporativos.

A qualificação de ação consciente por parte dos agentes de direção das empresas, sugere que o crime corporativo ocorre no contexto de processos, estruturas e ambiente da organização, sendo, então, possível de ser evitado, porém a um custo que as empresas não querem assumir, preferindo outras práticas, como o lobby, que deslocam esse custo para a sociedade em geral, que pouco associa a palavra crime aos acontecimentos do ambiente corporativo.

Os crimes ou, transgressões corporativos, não são cometidos por infratores comuns, mas, por membros importantes da comunidade empresarial, visando aos seus próprios interesses e/ou de suas empresas.

O desengajamento moral se caracteriza pela violação dos princípios morais pessoais para justificar uma decisão ou comportamento, estando relacionado às decisões e aos comportamentos antiéticos no local de trabalho, sendo, ainda, um fator que amplifica o comportamento ilegal ou criminal.

Comportamento ético e comportamento moral se situam em campos diferentes. Ética está relacionada a obediências a regras, enquanto moral diz respeito a agir de acordo com valores que vão além do interesse próprio. No contexto das organizações, ocorre um distanciamento da moral.

Os mecanismos de desengajamento moral, são capazes de desativar, no indivíduo, o processo de autorregulação de sua conduta quando esse pretende agir de forma inadequada; desse modo, o sentimento de culpa ou a pressão por autocensura decorrente de transgressões cometidas são desativados mediante a reconstrução, de forma discursiva, da realidade.

Parece haver, penso, um certo paradoxo vivido pelas empresas, na medida em que desejam parecer importar-se com sustentabilidade e propósito, ao mesmo tempo que seus dirigentes se comportam de forma desengajada moralmente. Necessário, portanto, enfrentar a raiz dos problemas de comportamento empresarial amoral, que seguem impactando a vida de milhares de pessoas. Empresas bem-sucedidas serão aquelas que forem percebidas, também, como exemplos de comportamento moral.

Por Américo Figueiredo, Conselheiro Consultivo, Professor Educação Executiva em Gestão de Pessoas, Governança e Organizações, Mentor de Carreira. É um dos colunistas do RH Pra Você. O conteúdo dessa coluna representa a opinião do colunista. Foto: Divulgação.

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