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Assédio moral é 'normal' e 'aceitável' para 18% dos profissionais

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Quando foi contratado para trabalhar no departamento de tecnologia da informação de uma das principais instituições bancárias do país, no início deste ano, o analista de desenvolvimento de sistemas Mario* se viu diante da oportunidade de sua vida. “Sabe quando você tem a chance de alavancar a sua vida financeira? A virada de 2019 para 2020 me abriu essa porta. O ano prometia”. 

Porém, o que parecia promissor não demorou para se tornar um desafio à saúde mental do profissional. “Quando você entra em uma empresa de porte muito alto, de lucro milionário, já existe a expectativa de enfrentar algumas dificuldades. Lideranças egocêntricas, pressão maior por resultados, projetos grandes que exigem uma demanda maior de trabalho, etc.. E quem trabalha com TI, de certa forma, tem um ritmo que vai além do expediente, pois sempre há a necessidade de corrigir bugs e falhas, prestar suporte, atender urgências de clientes. É uma realidade comum de quem está na área. Mas nada disso justifica o que eu precisaria enfrentar após alguns meses dentro da empresa”.

Mario conta que frases como “eu posso facilmente acabar com a carreira de vocês” e ameaças constantes de demissão e retaliação guiavam a sua rotina de trabalho. “Deboches, as cobranças com mensagens, áudios e ligações que chamavam a mim e a meus colegas de ‘fracassados’, ‘inúteis’ e termos mais pesados, ameaças contra nossas carreiras. A cobrança para os projetos saírem do papel se tornou insustentável”.

Para o analista, que já lutou contra a depressão, não foi e continua não sendo fácil aceitar que a vaga tão sonhada se tornou um pesadelo. Mario deixou a instituição na primeira metade de maio e acionou a Justiça. “Sair de lá foi uma das decisões mais dolorosas que já tomei. Todas as noites penso que não terei tão cedo uma nova oportunidade de aumentar o meu padrão de vida. Mas eu já enfrentei uma depressão e sei o quão impotente ela pode te deixar. Senti a pressão das ameaças e coloquei na balança. Troquei o dinheiro por uma mente sã”.

Pandemia: o vírus do assédio moral

Casos como o de Mario estão longe de ser exclusividade no país. Uma realidade tão comum que, para muitos, se tornou um clichê ou assunto que dispensa comoção. Também conhecido como bullying, violência moral, mobbing, psicoterrorismo ou terror psicológico no trabalho, o assédio moral é um conjunto de comportamentos que estabelece um cerco ao assediado, encerrando um conflito (real ou ilusório), exercendo assim um domínio e subjugando a vontade do outro à sua.

Dados de um levantamento conduzido pelo IPRC (Instituto de Pesquisa do Risco Comportamental) indicam que metade dos profissionais brasileiros pratica ou tolera assédio em seu ambiente de trabalho. Foram analisadas as respostas de 2.435 funcionários e candidatos, de 24 empresas privadas situadas no Brasil, que ocupam posições sensíveis em suas organizações, sensibilidade essa que pode estar atrelada à vulnerabilidade das atividades que seu cargo propicia ao lidar com informações confidenciais, bens, dinheiro, negociações, entre outras.

A pesquisa mostra que cerca de um terço (37%) dos profissionais aponta alta resiliência quando se depara com dilemas que envolvem assédio moral, indicando assim que eles tendem a não aceitar a prática que ocorre na organização. No outro extremo, 18% dos profissionais toleram o assédio moral como algo normal e aceitável, muitas vezes acreditando ser o único caminho para o alcance de resultados. Entre estes dois perfis, 41% dos participantes, mesmo vivenciando assédio moral ocorrendo ao seu lado com outros colegas, irão se omitir.

Segundo Renato Santos, especialista em compliance e diretor do IPRC, a melhor opção para combater esse mal que afeta as organizações é uma abordagem transparente e pragmática do assunto, munindo com informações os profissionais que já sofreram ou que estão sofrendo assédio. "Eles devem ser capazes de entender o que de fato está acontecendo – afinal, pior do que sofrer assédio é não conseguir identificá-lo", diz. 

Uma das formas de facilitar essa identificação é a aplicação do teste de integridade. Essa ferramenta consiste na simulação de situações antiéticas com o objetivo de avaliar a predisposição do indivíduo para cometer atos imorais ou ilícitos. "Teste de integridade é um instrumento importante para medir a resiliência do sujeito diante de um dilema ético e, consequentemente, proporciona subsídios para mitigar a fraude na organização. No entanto, não podemos cair em uma visão binária e ingênua ao tentar classificar o avaliado como íntegro ou não íntegro. O ideal, portanto, é demonstrar de que forma as convicções comportamentais do avaliado se distinguem dos valores do avaliador", explica Santos.

Nem tudo são flores no home office

Por conta da pandemia, muitas empresas adotaram o modelo de trabalho remoto como alternativa para manter a segurança de seus colaboradores em meio ao risco de contaminação do vírus. Em contrapartida, a inexperiência de algumas organizações e lideranças em desenvolver um processo adequado de trabalho à distância traz consequências.

Pesquisas recentes mostram que a pressão pela conclusão de demandas fora do expediente é dos grandes males do home office e impactam diretamente na saúde mental dos profissionais. O Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) identificou aumento de 80% na incidência de ansiedade e estresse durante o período de isolamento social. Enquanto a depressão dobrou suas ocorrências.

Jordão Novaes, especialista do escritório Zilveti Advogados, expõe que “com o regime de trabalho remoto colocado em prática de maneira abrupta, as linhas de trabalho/pessoal ficaram mais tênues, proporcionando alguns embates que planejávamos passar apenas daqui algumas décadas”.

O advogado levanta que, durante a quarentena, ações como ameaça de demissão ou redução de salário em virtude da crise, críticas repetidas por meios virtuais (grupos de WhatsApp), ausência de condições básicas para desempenho do trabalho, falta de fornecimento de EPI para funções com exposição ao público, se destacam entre práticas de assédio. “Importante frisar que as pessoas passaram a denunciar mais casos nesse período uma vez que, estão, de fato, sofrendo mais assédio. Não se trata de casos antigos que só vieram à tona no atual momento”.

Diante da obrigação dos negócios em zelar pela integridade física e psicológica de seu time de trabalho, Novaes faz algumas recomendações:

  • Atualização do Regulamento Interno para o momento atual de trabalho remoto, visando caracterizar os atos de assédio moral nesse ambiente;
  • Informar os colaboradores a respeito do assédio moral no período atual;
  • Treinar e capacitar gestores para administrar os conflitos que possam se originar do atual momento;
  • Medir e acompanhar o clima organizacional com frequência, buscando proporcionar um clima mais harmonioso.

Só treinar é solução?

Entre os dias 24 de março e 26 de maio, 11% das denúncias trabalhistas recebidas pelo Ministério Público do Trabalho em São Paulo (MPT/SP) foram decorrentes do assédio moral e de abuso por parte de superiores. Ao todo, 191 denúncias contra a prática foram contabilizadas. Em nota, o órgão divulgou que na pandemia destaca-se que “os funcionários afirmam que são constrangidos a trabalhar sem equipamentos de proteção individual, incluindo álcool em gel”. A instituição acrescentou que muitos gestores que muitos gestores consideram esse tipo de gasto “desnecessário”. 

Renato Santos acredita que as organizações precisam não apenas declarar a intolerância a desvios evidentes e diretos, mas também investir na ampliação da percepção moral do indivíduo, por meio do investimento na instrução. "E a instrução, por sua vez, é mais ampla do que capacitar a equipe exclusivamente para a atividade profissional em sua dimensão técnica. Daí a necessidade de investimento em programas de promoção da ética de forma mais detalhada e aprofundada", enfatiza. 

Para o diretor do IPRC, o assédio pode ser evitado se a organização tratar do tema de maneira mais clara e objetiva, por meio de palestras de conscientização, implantando canais de denúncia anônimos e seguros, criando políticas de consequências e, sobretudo, rechaçando o comportamento de assédio em detrimento aos resultados a curto prazo.

Já de acordo com a especialista em Gestão de Pessoas, Lia Chagas, por mais que seja desafiador, é essencial que as empresas adotem medidas de “reeducação” para ter sucesso na abolição da prática. “É muito comum investir em treinamentos ou apostar em canais de denúncia. Mas o buraco é mais embaixo. O problema do assédio é cultural. Há quem o tenha como raiz de pensamento. Quantas vezes já vimos, por exemplo, mulheres sofrerem assédio em empresas por chorarem, por engravidarem, por serem taxadas como sensíveis ou mais fracas? Você não muda do dia para a noite pensamentos e visões de mundo arcaicas, pois nem todo mundo está disposto a melhorar como pessoa. Eu recomendo que as empresas invistam em uma profunda reeducação jurídica, que implique em orientar sobre as consequências profissionais, pessoais e legais que o assédio moral pode implicar. A ‘normalização’ deixa de existir quando atinge o status e o bolso, nem sempre quando o alvo é o caráter”, finaliza.

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