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Aprender a aprender: como?

Coluna 443

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Nunca foi tão importante, como neste período tão especial, aprofundarmos essa competência humana primordial que é aprender a aprender.

Vamos aos conceitos! O que é aprender a aprender?  É a competência do momento!!! Se quisermos estar em dia com as competências exigidas pela Quarta Revolução Industrial, que traz no seu bojo a Liderança 4.0, é a ela que devemos recorrer. O conceito da Quarta Revolução Industrial foi criado pelo Dr. Klaus Schwab, fundador do Fórum Econômico Mundial e autor do livro A Quarta Revolução Industrial.

De acordo com Schwab, uma revolução industrial é caracterizada pelo aparecimento de novas tecnologias e novas maneiras de perceber o mundo, que impulsionam uma mudança profunda na economia e na estrutura da sociedade. É nosso caso agora. Estamos entrando na fase de uma expansão tecnológica surpreendente que, segundo o autor, começou na virada deste século, a partir da revolução digital. O que a impulsiona são tecnologias como cloud computing, redes sociais, mobilidade, Internet das Coisas e Inteligência Artificial, em conjunto com maior capacidade computacional e de armazenamento de dados, que conhecemos como Big Data.

Com todas essas mudanças e com a velocidade com que acontecem, o aprender a aprender é um grande desafio, principalmente para os que acham que depois de formados, graduados e pós-graduados não precisam aprender mais nada. Pelo contrário, aprender a aprender é um dos fundamentos básicos do ser humano, e, com certeza, sempre estamos aprendendo com tudo e com todos e não há ninguém, por mais sábio que seja, que não tenha algo a aprender.

Assim, o profissional que não souber aprender, não desenvolver uma metodologia segura para isso, está fora do contexto de qualquer mercado. Mais importante ainda para quem exerce o papel de liderança, uma vez que é a pessoa responsável por estimular todos na escalada do desenvolvimento pessoal e profissional da sua equipe.

Nas crises, aprender a aprender é uma questão de sobrevivência. Temos o desafio de nos adaptarmos rapidamente às circunstâncias, melhorar a comunicação verbal, ter mais disciplina, ouvir melhor as pessoas, priorizar o que realmente importa com tranquilidade, necessidade de praticar a solidariedade, inovar e fazer diferente.

Aprender a aprender parece ser uma competência nova, mas já foi preconizada pela UNESCO nos 4 saberes da educação do século XXI que são: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser. Tudo que estamos vivenciando hoje fundamenta a necessidade de colocarmos na prática o que alguns entendiam como teoria sem importância.

Mas, afinal, o que é APRENDER A APRENDER?

É trazer algo de fora para dentro, é trazer algo para junto de si, mas somente aquilo que se quer guardar no espaço interno. No entanto, sabemos que nada começa de fora para dentro, mas sim de dentro para fora. Então, como é essa história de trazer algo de fora para dentro? Explicando melhor:  para aprender temos que ter algo dentro de nós que nos conduza para fora, é necessário um desejo, uma vontade, enfim, uma motivação que nos impulsione para fora, para aprender algo.

Carlos Cardoso Avellone diz que o aprender é como respirar, trazer para dentro o novo e jogar fora o velho. O aspecto a considerar é a avaliação do que se está trazendo para dentro, porque estamos em um mundo onde o bom, profundo, ético e acadêmico convivem com o mau, superficial, antiético e especulativo. Definir o que aprender, onde, com quem e quando se precisa disponibilizar tempo para um avanço mais consistente, é o primeiro passo,

Aprender a aprender significa também aprender a desaprender, a deixar para trás o que não acrescenta, o que não precisa mais ficar dentro, assim como na respiração, para inspirar há necessidade de expirar, ou seja, para que o novo entre, há necessidade de fazer uma limpeza e desapegar de modelos, pensamentos, antes tidos como verdades absolutas.

Outro detalhe  interessante é que existem algumas leis universais impulsionadoras do aprendizado. A que compartilho, neste momento, é a necessidade que existe de um mestre, de alguém que lhe dê a mão para subir, mas, para que o crescimento aconteça, quem recebe a mão de alguém, precisa dar a sua mão para outro alguém. Como se fosse uma escada, que você só sobe se alguém ficar no seu lugar. Ou seja, para evoluir, precisamos de pessoas, tanto para nos ajudarem a subir, como pessoas para auxiliá-las no mesmo movimento. Essa sabedoria entendi ao ler o livro de Ouspensky, P.D., Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido.

Portanto, o processo de aprendizado precisa de pessoas para aprender e ao mesmo tempo para ensinar. Nesse processo de evolução, enquanto se aprende também se ensina e não existe absolutamente ninguém que não tenha algo para aprender e alguma coisa para ensinar.

Passemos, então, à próxima questão: com quem se aprende? Podemos aprender com qualquer pessoa e não só com os grandes mestres. As crianças ensinam muito, pessoas sem educação formal também, idosos ainda mais, culturas diferentes, cores diferentes, gêneros diferentes. Todos são grandes fontes de ensinamento. Além desses humanos seres, podemos aprender muito com os grandes mestres da natureza, ou seja, com o ar, o fogo, a água, os animais, as plantas, a chuva, a terra, o sol, a lua, as estrelas,  ou seja, estamos sempre aprendendo com tudo e com todos, mas no fundo é somente uma questão de querer, de ter a mente aberta para o novo, entendendo que esse conhecimento - essa sabedoria - está a disposição de todos.

Há muitos e muitos anos atrás, Pitágoras lia o futuro através dos voos dos pássaros; o avião foi desenhado a partir da observação da forma como os pássaros voam. Os rios e as cachoeiras ensinam a fluidez da vida; o fogo sua transformação; a terra a capacidade de germinar. Cada planta, então, é um universo de aprendizado, cada movimento da natureza também.  Ter olhos para aprender é aprender a aprender. Ter ouvidos para aprender é aprender a aprender. A grande máxima de Sócrates talvez possa muito ajudar para essa eterna abertura: “só sei que nada sei”, o que equivale ao gosto permanente da busca.

Claro que as mídias sociais também ajudam muito, a internet traz a todo momento muitas informações, as lives, o youtube, as bibliotecas virtuais, os cursos online, os inúmeros APPs são fontes contínuas de ensinamentos muito importantes e também interessantes que nos ajudam a desenvolver essa competência. Há que se tomar cuidado com dois aspectos: o foco, facilmente perdido quando se navega pela internet e a veracidade e qualidade do que se aprende. Avaliar a fonte e ser absolutamente disciplinado é o que define a possibilidade de aprender através da tecnologia. No entanto, vale ressaltar que a internet é apenas uma forma de desenvolver essa competência e, de maneira nenhuma, a única.

Por tudo que foi trazido até então, pode-se afirmar que  o conhecimento é construído a cada momento e, talvez, alguns direcionamentos sejam importantes. Seguem aqui algumas dicas.

Quando pensamos em aprender, sempre colocamos o foco no que mais gostamos. Talvez não seja a melhor escolha, porque quando aprendemos algo que não apreciamos tanto, tendemos a ampliar nosso universo cognitivo, às vezes mudar nosso modelo mental, uma vez que adquirir capacidades radicalmente diferentes eleva em muito o aprendizado. Portanto, dica 1: buscar aprendizados diferentes dos habituais.

Dica 2: há que se ter desejo de aprender. Ter uma aspiração para nos mover para frente, para nos impulsionar a favor do novo. O início desse desejo é um questionamento de algo desconhecido ou intrigante, cuja solução pode ser positiva e vantajosa para nosso desenvolvimento. Despertar a curiosidade que existe em nós através de questões como: O que? Como? Por que? Onde?

Dica 3: autoconhecimento. Cientes das forças e fragilidades, aproveitando ao máximo os feedbacks recebidos, pode-se adentrar a um aprendizado com imensas ramificações tanto internas como externas. Aprender o que importa e é interessante para seu foco pessoal e profissional e não obrigar-se a aprender o que é determinado por outros. A lente a ser usada para aprender sempre é direcionada pelo encontro com nossas forças (que passam a ser potencializadas), mas, quando voltadas às nossas fraquezas, possibilitam uma oportunidade de resgatá-las e fortalecê-las.

Dica 4: buscar aprender o que não foi inserido no contexto de vida. Para aprender a aprender precisa-se estar vulnerável, saber que não sabe, sentir-se menos em algumas coisas. Quando se tem medo da vulnerabilidade nunca será possível aprender, pois sente-se o perigo da humilhação advinda de ficar na posição do não-saber.

Dica 5: aprender a se relacionar com pessoas diferentes e de modo diferente. Nada é mais verdade do que isso, nesse isolamento social em que estamos vivendo. Precisamos aprender a aprender sem olho no olho, sem abraço, sem contato. Reuniões e alinhamentos via zoom e whatsapp determinam uma nova forma de relacionamento. O fundamental desse aprendizado é conseguir manter a mesma qualidade de contato e estabelecer a empatia, simpatia e entusiasmo nesta outra forma de relacionamento. Conexões diferentes, com pessoas diferentes, privilegiando todo tipo de diversidade

Dica 6: cultivar o tempo para reflexões, uma vez que é no tempo que se dá para a nossa mente que as perguntas vêm, que o aprendizado acontece, que o olhar se alarga para o novo. Vale ao final do dia uma simples pergunta: O que eu aprendi hoje? No silêncio da resposta, pode-se sustentar um conhecimento adquirido, as vezes nem considerado como válido, já que na correria pode-se simplesmente desprezar valiosos aprendizados.

Dica 7: Considerar o aprendizado uma diversão, mantendo sempre o bom humor quando eventualmente o erro acontece, celebrando os acertos, tornando leve e estimulante a atividade de aprender a aprender.

Finalizando essa breve reflexão, o aprendizado só ocorre de fato se for colocado na prática, se sua execução tornar-se algo de valor, lembrando sempre que a doação do que se aprende, sua utilização e o compartilhamento de toda e qualquer sabedoria é o que dá sentido à vida.

Por Profa. Dra. Fátima Motta, Sócia-Diretora da FM Consultores. É uma das colunistas do RH Pra Você. O conteúdo dessa coluna representa a opinião do colunista. Foto: Divulgação.

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