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Álcool e drogas: empresas estão prontas para combater vícios e tabus?

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O mês de fevereiro traz duas datas muito importantes na conscientização e no combate a vícios químicos. O dia 18 representa o Dia Nacional de Combate ao Alcoolismo, enquanto no dia 20, a lembrança é do Dia Nacional de Combate às Drogas e Alcoolismo.

Ainda cercadas de tabus, as pautas referentes às dependências química e alcoólica ainda carecem de fortalecimento tanto dentro do mercado de trabalho quanto na sociedade como um todo, especialmente por conta da desinformação e do preconceito envolvidos.

Conscientizar é, antes, compreender: o que é o vício?

O psicanalista Alexandre Pedro, Hipnoterapeuta filiado ao International Board of Hipnosys e ao National Guild of Hipnotists, pontua que um vício, seja ele químico ou comportamental, é caracterizado pela compulsão. Ou seja, é um ato sem controle e, em muitos casos, indesejado.

“O vício (ou dependência) apresenta três aspectos: o desejo intenso (‘fissura’ ou ‘craving’) pelo elemento do vício; a abstinência, com sintomas como ansiedade; agitação; irritabilidade devido à falta do elemento do vício; e tolerância, quando a pessoa precisa de doses cada vez mais altas (ou atos cada vez mais intensos ou frequentes) para obter a mesma sensação de prazer. A pessoa pode se viciar em algo quando, ao experimentar o elemento (droga ou jogo), o cérebro ativa um circuito neuronal chamado ‘sistema de recompensa’”, explica o especialista.

Pedro acrescenta, ainda, que “a repetição deste circuito retroalimenta o desejo de estimulá-lo, gerando o vício. Aspectos psicossociais e culturais podem influenciar no comportamento da pessoa viciada (dependente), perpetuando o círculo vicioso da dependência, seja química ou comportamental”.

Desinformação e preconceito: os piores vícios

Para muitos públicos, não é preciso muito para que o mercado de trabalho se mostre um ambiente hostil. Àqueles que enfrentam algum tipo de dependência, o cenário é ainda mais complicado.

Ex-alcoólatra e ex-usuário de cocaína, Valdo Dias, paulistano de 44 anos que trabalha com contabilidade, conta que, por conta dos vícios, já “comeu o pão que o diabo amassou” mesmo em empresas que vendem saúde.

“Há dois anos não consumo drogas ou coloco uma gota de álcool na boca, mas há apenas quatro meus vícios me dominavam. Estava trabalhando em uma startup, ironicamente de saúde, e lutava para minhas dependências não interferirem no meu trabalho. Bebia, mas tentava não chegar bêbado, consumia drogas, mas tentava não chegar alterado. Até que, após completar um ano na empresa, houve um dia em que, pela primeira vez, cheguei um pouco alcoolizado, em nível que já era possível perceber. O RH e o dono, curiosamente todos mais novos do que eu, me chamaram para conversar. Repetiram várias vezes que isso não poderia voltar a ocorrer, falaram sobre como isso pegava mal, imagem da empresa, produtividade, relacionamento com os meus colegas, fizeram um dossiê de como meus problemas poderiam prejudicá-los. Mas teve algo que verdadeiramente me marcou: nenhum deles perguntou se eu precisava de ajuda.”

Dias revela que após o incidente se repetir, poucos meses depois, a empresa o desligou, momento que representou um ponto de virada em sua vida.

“Penso que hoje, em uma conversa informal, se perguntarem para eles quem eu fui, dirão que era um bêbado ou drogado. Nessas horas o nosso trabalho, o que fazemos pela empresa, pouco importa. Quando eu saí, poderia ter entrado na Justiça, mas não queria mais um problema na minha vida. Abri mão dos meus direitos para buscar outra coisa: acordar. Essa não foi a primeira vez que perdi um emprego por conta dos meus vícios ou me senti discriminado, mas foi a primeira vez, depois de 20 anos de dependência, que me senti um nada, um ninguém, um zero. Ali percebi: não importa quem você seja, o seu vício é o seu rótulo. Não importa que tipo de pessoa ou profissional você seja, para todos os outros você será o bêbado ou o drogado. E eu não queria mais ser nenhum dos dois”, conta.

O que o mercado de trabalho pode (e o que não pode) fazer?

Segundo a especialista e consultora em Recursos Humanos, Célia Lourenço, as dependências estão no topo dos casos de absenteísmo, queda de produtividade e problemas de relacionamento entre equipes. Para ela, o tabagismo é o chamado “vício tolerável”, aquele com o qual as empresas já aprenderam a lidar, mas o buraco acaba sendo um pouco mais fundo quando se fala de outras drogas e do álcool.

“O que torna algo um tabu? Você não querer falar sobre ou, principalmente, achar que ninguém deve falar sobre. Ainda é real no mercado de trabalho gestores e líderes acreditarem que dependentes não podem ter oportunidades, pois quando se fala em acolher, ajudar, incentivar a lutar contra o vício e estender a mão, o famoso ‘aqui ninguém tem que ser babá de ninguém’ ainda se prolifera. Inclusive, o que é o mais preocupante, entre RHs, que deveriam ser a base de apoio mental dentro da organização”, comenta.

Legalmente falando, há alguns pontos importantes a se levantar quanto ao cenário de demissão como escolha para as empresas. Alcoolismo e dependência química são tratados pela OMS como doenças, portanto, é importante ter em mente que a Justiça busca tratamento e não punição. De forma resumida, pessoas diagnosticadas com a dependência devem ser tratadas e não podem ser dispensadas, especialmente por justa causa. A compreensão judicial, porém, compreende que as empresas podem realizar a demissão caso haja negativa do colaborador no desejo ou na busca por um tratamento.

Estatísticas que preocupam

De acordo com o Relatório Mundial Sobre Drogas 2019, divulgado pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), cerca de 35 milhões de pessoas sofrem com a dependência química

Quanto ao alcoolismo, o Relatório Global Sobre Álcool e Saúde 2018, divulgado pela OMS, identificou que o uso de álcool esteve ligado a 5,3% das mortes globais em 2016 (cerca de 3 milhões de óbitos). Além disso, o estudo destaca que o álcool é um dos principais fatores de risco para mortalidade, morbidade e incapacidade. A estimativa é que no Brasil 10% da população sofra com o alcoolismo. Segundo especialistas, embora não haja ainda pesquisas concretas, a estimativa é que a pandemia da Covid-19, somada ao isolamento social, possam ter agravado os casos de alcoolismo e dependência química, incluindo impacto negativo em tratamentos de pessoas que demonstravam progresso.

“O período pandêmico potencializou a ansiedade, a tristeza, o sentimento de incerteza, a depressão, o que fragilizou muito a saúde mental das pessoas. Consequência disso, em muitos casos, é o indivíduo buscar refúgio em algum vício. Mais do que nunca é necessário conscientizar e acolher”, diz Célia.

Um app que pode ajudar

Christian Montgomery sofreu com a dependência química ativa por 20 anos, João Lima, por 22. Ambos se viram perto da morte por conta do vício, mas conseguiram se reerguer e hoje estão limpos. Um dos motivos: o apoio psicológico de especialistas e de pessoas que entendem o que eles passaram e ainda passam.

Umas das recomendações essenciais para quem está em recuperação da dependência química é evitar a solidão. É por isso que os grupos de apoio são tão essenciais. Mas em época de isolamento social, como fazer isso?

A pandemia do novo coronavírus afetou a vida de todos. Casos de depressão, ansiedade e estresse aumentaram, ao mesmo em tempo que o consumo de álcool e cigarro, por exemplo, também cresceram. E agora, quando achávamos que a situação estava sob controle, os casos de Covid-19 voltaram a aumentar. Novamente, a principal recomendação é a de distanciamento social.

Uma coincidência positiva foi o lançamento do aplicativo gratuito Anonymo, lançado pouco tempo antes da quarentena ser decretada no Brasil. Ele é uma comunidade digital de milhares pessoas que se ajudam diariamente na luta contra dependências: álcool, drogas, cigarro, jogos, comida, pornografia, por exemplo.

A ideia de criar um meio de apoio que esteja disponível para as pessoas 24 horas por dia, 7 dias da semana, foi de Christian, que tem a certeza de que os grupos de apoio foram essenciais para sua recuperação. A única diferença do Anonymo é que esse apoio ocorre de forma virtual. O app não substitui os encontros presenciais e o tratamento com especialista, mas é uma forma de mostrar aos adictos e outros dependentes que eles não estão sozinhos, mesmo quando isolados ou distantes.

Além de motivar a pessoa a continuar no processo de recuperação, o aplicativo também possui exercícios práticos com base em reuniões digitais diárias sobre diversos temas relacionados à dependência. Além disso, os usuários do app também podem participar das reuniões sem expor a identidade.

João já está limpo há mais de três anos, mas se interessou pelo aplicativo e começou a acompanhá-lo desde o começo. Gostou tanto da ideia que se ofereceu para ser coordenador. Hoje, ele é responsável por três reuniões por dia no Anonymo.

Sua experiência de vida prova como esse apoio é essencial para a vida dos adictos. Seus mais de 20 anos de dependência ativa o levaram até para o chamado “tribunal do crime”. Ali, na frente de seus familiares, decidiram se Lima iria continuar a viver ou morrer. O espancaram quase até a morte. Esse episódio fez com que Lima decidisse parar. Após conseguir ficar limpo, passou também a ajudar outros com dependência. Viu no app Anonymo mais um meio de conseguir demonstrar apoio àqueles em recuperação, e encontrou nele uma ponte para também ser ajudado.

A dependência química não escolhe cor ou classe social, e, inspirado pela história de Lima, um dos participantes da comunidade digital com melhor situação econômica decidiu ajudá-lo a se formar na escola ao pagar seus estudos. Após conseguir ficar limpo, após se dedicar a ajudar outras pessoas, agora, Lima vai também terminar o Ensino Médio.

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