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Acumulando E Traumatizando

Coluna 4239

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Por que deveríamos nos atentar ao trauma? Por que ele é silencioso em muitas formas de se expressar. Vivenciamos uma quantidade enorme de experiências diárias potencialmente traumáticas e nem se quer nos damos conta disso.

Somos inteligentes, um Homo Sapiens capaz de raciocinar, filosofar, criar maravilhosamente. Mas, desaprendemos a ouvir o nosso corpo, nosso sistema através do qual colhemos todas as informações que usamos em nosso sistema nervoso para criar, para julgar e decidir.

Passamos a ser uma espécie absolutamente lógica, fria e racional. Pelo menos ao que parece em primeira análise. Na verdade somos guiados pelo nosso ego e ele nos usa para sua satisfação lançando mão de habilidades incríveis, inclusive a de contar histórias que de tanto serem repetidas e reforçadas se tornam verdades.

Somos complexos e nesta complexidade criamos mais distância entre nossa mente e nosso corpo, ao ponto de termos a sensação de que nosso cérebro é quase uma entidade separada de nosso corpo. Parece familiar?

A cada evento potencialmente traumatizante acumulamos, o que o doutor Levine chama de energia não dissipada. Tal evento gera em nosso sistema nervoso uma quantidade de energia (podemos aqui inclusive fazer uma relação com as químicas e pulsos elétricos de nosso corpo, por mais sutis que possam ser) que desaprendemos a liberar e ao mantê-la retida em nosso corpo, temos como consequência efeitos danosos. Nos tornamos sucetíveis a gatilhos que despertam esse ponto traumatizado e geram reações inadequadas para uma vida de qualidade. O medo pode se instalar de forma anormal, a recusa ou um ciclo continuo de decisões iguais. Levine nos contou diversas histórias.

Em uma delas, uma paciente tinha uma série de sintomas, como taquicardia, sudorese, ataques de pânico! Deixou de ter uma vida livre, tornando-se refém de reações somáticas (corpo) que a impediam de viver uma vida “normal”. Pegar um carro, sair a pé, sair sozinha. A causa disso? Um acidente de trânsito que se transformou em um acúmulo em seu sistema nervoso, em sua psique.

A acúmulo de energia em nosso corpo acaba sendo melhor trabalhado pelo próprio corpo, se assim deixarmos. Porém, não deixamos. Veja este exemplo: em uma empresa pode ser que exista um chefe autoritário, grosso ou grossa. Suas ordens mais parecem trovões rolando pelo céu afora. Em um contexto corporativo, principalmente, esses rompantes de puro desrespeito ao outro são engolidos pelos seus subordinados. Literalmente engolidos e assim acumulados no interior destes seres humanos, que passam a carregar uma dose alta e desnecessária de energia não dissipada. Burnout, stress, ataques de pânico, noites sem dormir. Não porque estão realizando seu sonho, mas por estarem completamente desconectadas de suas missões e subjugadas por tiranos, que estão liberando suas cargas acumuladas em outras pessoas.

Passa a ser essencial a lidar com essas situações. Não sei se você já vivenciou, vivencia ou testemunhou situação similar em sua companhia. Mas, sempre bom estar preparado para lidar com tais eventos. Cuidar e preparar-se para tanto não é tarefa simples. Mas, podemos estar atentos aos sintomas que apresentamos. Para isso observe o que seu corpo está dizendo sempre que você se relaciona ou pensa em se relacionar com certas pessoas e contextos.

Sim, pode ter muita coisa em jogo, sua carreira, sua família, sua vida. Mas, se você estiver trabalhando para realizar sua missão, seja ela grandiosa ou não, isso é apenas a opinião dos outros. Se sua missão é sua, para você será sempre grande, sempre importante. Assim, como vemos todos os dias em diferentes posts nas redes sociais, temos sim que buscar o que é nosso, ter nossos sonhos, nossas metas, nosso querer, mas alinhados ao nosso ser e nosso fazer. Este é um bom caminho para que tenhamos maior potência para lidar com os eventos silenciosamente traumáticos que nos visitam quase que todos os dias.

Ouça sua voz interior, seu corpo e seus sonhos. Realize por você para um bem maior.

Nota: Este texto faz parte da "Missão em Esalen, Califórnia 2019." Encontre mais em minha rede
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Por Tiago Petreca, diretor fundador e curador chefe da Kuratore - consultoria de educação corporativa. É um dos colunistas do RH Pra Você. Foto: Divulgação O conteúdo dessa coluna representa a opinião do colunista.

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