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A Responsabilidade Do Rh Com A Saúde

SAÚDE E QUALIDADE DE VIDA

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Ao RH, alguns “extremos” são concedidos. Se antes ao setor era atribuído o papel de carrasco sob uma ótica punitiva e depreciativa, hoje à área é designada a função de ser “pai” ou “mãe” dos profissionais, uma vez que todos os debates e iniciativas empresariais sobre saúde, da física à mental, adentram sua sala e clamam por sua chamada da responsabilidade. Entretanto, no ponto de vista de especialistas do assunto, o quanto efetivamente a área de Recursos Humanos é ou não responsável pela saúde de seus colaboradores?

De acordo com Fábio Gonçalves, Diretor Técnico da ASAP Saúde e Diretor Executivo de Valor e Acesso na Hospital Care, antes de entrar na questão da responsabilidade é necessário pensar na integridade. O especialista ressalta que, seja por parte do RH, da liderança ou da gestão, ainda existe uma significativa distância entre o que é dito e o que é feito.

“Quando nós falamos de líderes, de RH, nós estamos falando de pessoas que decidem aquilo que vai ser feito dentro das empresas. Contudo, há uma contaminação em seu mindset, o famoso ‘eu sei que isso é legal, é importante, mas eu não faço’. Esse é o ponto que questiono. Se eu defendo, promovo ou tento incentivar algo, mas eu próprio não acredito ou não faço, isso enviesa todo o sistema”.

Segundo Gonçalves, as empresas sabem que o custo da saúde aumenta absurdamente, que as pessoas estão cada vez mais doentes, mas, ainda assim, mesmo até quando algumas iniciativas de saúde são realizadas, se trabalha pensando na doença e não na prevenção. “Eu não como direito, não faço atividades físicas, não cuido da minha saúde mental. É o básico, mas não faço. E se não faço, como convenço?”, completa.

Para Renato Andrade, HR Business Partner da SumUp, mesmo que exista a integridade cobrada por Fábio, o “buraco é mais embaixo”, principalmente quando a sintonia  entre RH e liderança não existe.

“Se a liderança da organização define que não quer algo, o RH não faz. Não adianta os Recursos Humanos brigarem, baterem na porta, gritarem, porque se não tiver um bom poder de convencimento ou se os líderes não forem abertos às sugestões e iniciativas, nada acontece. É simples assim. Muitos não são suscetíveis a ouvir ou aceitar que problemas existem e estão acontecendo. Só que não existe solução se você não está a par do que está errado. Para poder trabalhar em ações, em conscientização da saúde, eu preciso de uma liderança que seja atuante junto comigo e que entenda que é um tópico que leva tempo e esforço”.

Sheila Hojda, Sócia-Diretora da 4health Consultoria, pontua que, antes de se dividir responsabilidades ou determinar quem deve fazer o quê, é preciso que haja consciência nas ações. “Seja o RH ou a gestão, muitas vezes a sensação passada é que se espera que soluções mágicas caiam do ar e que problemas desapareceram. O ‘feijão com arroz’, o básico, é se comunicar, o que é certo ou errado deve ser transmitido. A falta de comunicação trava aquele organismo”.

A ausência de consciência e comunicação trazidas por Sheila justifica que gestores tenham visões irreais sobre o cenário de saúde em sua empresa. Lilian Guedes, Nutricionista de Gestão de Risco e Saúde do Grupo Geia, faz de um exemplo uma reflexão. “Atuo ao lado de pessoas divertidas e leves. Por conta desse espírito, meu líder fez o seguinte comentário: aqui ninguém tem enxaqueca. Alguns dias depois, durante um almoço, perguntamos: ‘quem aqui tem enxaqueca?’ Cerca de dez pessoas levantaram a mão e o líder ficou sem reação, pois ele realmente acreditava que era um problema que lá não existia. Logo, a importância de notificar e trabalhar com dados, porque isso diminui a complexidade do papel do RH”.

Trabalhar a saúde corporativa não é mais luxo ou diferencial competitivo das organizações, mas sim uma necessidade reforçada por números. Pensando em doenças que atingem a saúde mental, por exemplo, é estimado que a depressão atinja 350 milhões de pessoas no mundo. Só no Brasil, em 2016, segundo o INSS, a condição foi responsável por 30% dos afastamentos nas empresas. Já quando se fala em enfermidades físicas, somente os acidentes de trabalho afastaram mais colaboradores no país do que dor nas costas e má postura. Isso sem contar uma série de transtornos e doenças que assumem lugares cativos nesse ranking, como estresse, lesões por esforço repetitivo, dentre outros.

Diante dos dados, a Gerente de Saúde e Bem-Estar da AVON, Meire Blumen, faz o alerta para a urgência do trabalho de saúde corporativa e corrobora a fala de Renato ao levantar que, seja qual for a responsabilidade do RH no processo, a liderança deve estar presente.

“O trabalho do RH é ser um facilitador de canais. E, para introduzir a liderança nas iniciativas, é necessário objetividade. É preciso dizer ‘eu tenho esse problema’, mas igualmente apontar que ‘posso ter uma solução’. Além disso, por mais que o papel da liderança e de qualquer outro setor seja primordial, reforço que a cultura da saúde precisa existir dentro da organização. A saúde deve ser enxergada como algo estratégico, porque, de fato, sem ela não há produtividade, engajamento, motivação, e a empresa só tende a perder”.

Uma vez que a prevenção é trabalhada de forma satisfatória, os ‘gastos’ em programas de saúde rapidamente se convertem em ‘investimentos’, uma vez que ajudam, inclusive, a economizar com planos de saúde, um dos grandes “vilões financeiros” dos negócios, mas, ao mesmo tempo, um dos benefícios mais buscados pelos colaboradores. Uma pesquisa recente do SESI indica que os planos de saúde representam, em média, 13,1% da folha de pagamento da indústria do país. Em palestra promovida pela ABPRH-SP, Alexandre Rosé, Chief Medical Officer (CMO) da Amil, pontuou que “incorporações de tecnologia em saúde não costumam ser substitutivas, mas complementares, o que faz o custo hospitalar aumentar, o reajuste no plano crescer e o resultado nem sempre ser o esperado”.

Estudos indicam que organizações que promovem ações de qualidade de vida valorizam até 325%, 3x mais do que aquelas que não incorporam medidas de saúde e prevenção em sua rotina. Viviane Lourenço, Especialista de Desenvolvimento Industrial do SESI, destaca que “há a crença de que tudo que está sendo promovido precisa ter um ROI, mas a realidade não carece disso”.

A especialista explica que um comitê de saúde nas empresas seria uma medida importante, já que o “RH não pode caminhar sozinho diante de uma responsabilidade tão grande, e a integração entre profissionais e áreas em um comitê traria uma organização maior, um cuidado mais efetivo, custos mais baixos e iniciativas melhores”.

A busca por funcionários felizes e saudáveis motiva organizações de todos os portes a apostarem em ideias criativas. Espaços de descompressão, ioga, meditação, corridas, disposição de alimentos saudáveis, abertura para deixar os próprios funcionários escolherem as atividades que os manteriam satisfeitos e ambiente pet friendly são apenas algumas das iniciativas vistas para engajar equipes e mantê-las com a saúde física e mental em dia, além da ação de consultorias e softwares no auxílio ao acompanhamento da saúde dos colaboradores, assim potencializando o controle e fortalecendo a gestão e os cuidados a serem tomados antes e não só depois de uma doença ou condição se manifestar.

Nessa linha, Carlos Pappini, Diretor da Unidade de Negócios Speciality Care da ePharma e professor do iPL, vai direto ao ponto ao levantar que o modelo do plano de saúde pode ser interpretado hoje como um fracasso. “Há mais de dez anos você tinha um meio de pagamento, comprava hotelaria, e pronto. E hoje permanece idêntico. Não evoluiu. E o custo aumenta à medida que outras empresas são responsáveis por adicionais. Em outras palavras, pense na compra de um carro. Se você quiser um retrovisor novo, um sistema de som, você precisa procurar o serviço de empresas diferentes. Saúde, na minha visão, como apontou a Meire, precisa fazer parte da cultura empresarial. É necessária uma reflexão para readequar todo o processo nas organizações. Principalmente em casos em que o CEO é resistente em acreditar que saúde é importante”.

Débora Maia, Diretora de Expansão de Negócios e Qualidade de Vida da 4health Consultoria, acrescenta que, por mais que a promoção da saúde seja um trabalho em conjunto, um RH bem preparado é um diferencial. “Um RH que ocupa a cadeira confortavelmente, que entende o seu desafio, que tem autorresponsabilidade, consegue sensibilizar lideranças. O profissional de RH vem perdendo espaço em empresas que já o substitui por pessoas de outras áreas, e ele precisa mostrar que tem condições não apenas de manter o seu espaço, mas de apresentar soluções efetivas”.

O modelo de saúde apontado por Carlos apresenta falhas que vão além somente dos planos. Eduardo Farah, professor e CEO da Invok, faz uma importante ressalva ao falar sobre a inutilidade de algumas medidas adotadas. “Sobre a saúde ser responsabilidade do RH, digo que sim, mas não unicamente dele. E retomo o que foi falado antes sobre integridade. Exemplo: tem a NR-7, que consta a obrigatoriedade do exame periódico, mas quase sempre ele não serve para absolutamente nada. O médico tira a pressão, faz algumas perguntas, cujas respostas o paciente vai, muitas vezes, mentir para não se ver em risco em relação ao emprego, e fica por conta disso. O RH precisa buscar ações reais, de empoderamento, de entendimento do seu papel”.

Eduardo e Carlos ressaltam, ainda, que no caso em específico da NR-7 o custo é uma dificuldade a ser contornada, já que uma anamnese real seria mais cara – e mais demorada também. Contudo, não deixa de ser uma oportunidade para um trabalho de gestão mais efetivo do verdadeiro quadro de saúde dos funcionários.

A crítica feita pelos especialistas ganha voz também no que diz Mariana Campello, Sales Executive na Zenklub. “Uma realidade que tanto eu quanto muitos de vocês já vivenciaram é: as idas dos colaboradores ao pronto-socorro, e não só deles, para pegar antibiótico e não à unidade hospitalar, de fato, para tratar da doença. E muitos planos de saúde se acomodaram a trabalhar com essa limitação, principalmente, também, porque muitas pessoas fizeram disso uma zona de conforto. Pego meu atestado, a receita e problema resolvido. E não é assim!”

Os comentários realizados pelos especialistas fizeram parte do debate sobre Saúde Corporativa promovido pelo RH Pra Você, na sede do iPL, em São Paulo, sob moderação do Diretor de Conteúdo do Grupo TopRH, Daniel Consani.

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