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A perigosa romantização do excesso de trabalho

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“Em 2018, estava com um dinheiro sobrando e fiz um curso online de empreendedorismo. Estava com planos de, em até três anos, abrir o meu negócio. Nas aulas, eles eram bem enfáticos: ‘para vencer em um negócio próprio, esqueça descanso, esqueça lazer, esqueça até família, você tem que gostar de trabalhar e estar disposto a fazer isso por 24 horas’. Eu sei que quando você empreende, é preciso dedicar um tempo a mais ao negócio, ainda mais no começo quando você não está estabelecido, mas ouvir que ‘se você está pensando na sua folga, o seu negócio já está morto’, não é um pouco exagerado? É claro que eu quero passar tempo com meus filhos, minha família.”

O relato do supervisor de logística de 52 anos, Roberto Guerra, expõe uma realidade que não é incomum no mercado de trabalho: a romantização do excesso de trabalho. O famoso “estude, enquanto eles dormem; trabalhe, enquanto eles se divertem…”, se tornou mantra de muitos executivos. E, na prática, quem “paga a conta” dos exageros não são somente eles, mas também os colaboradores.

Excesso de trabalho… e de doenças!

De acordo com Marcia Glomb, advogada especialista em Direito do Trabalho no Glomb & Advogados Associados, “trabalhar excessivamente pode aumentar o risco de diversas doenças, como hipertensão e diabetes, e inúmeras síndromes e transtornos, como Lesão por Esforço Repetitivo (LER) e Síndrome de Burnout. A saúde mental é bastante impactada por uma rotina frenética. Longas jornadas de trabalho com poucas pausas para descanso, turnos alternados e ritmos intensos fazem com que os funcionários sintam-se ansiosos, estressados, exaustos e desanimados, o que pode desencadear casos graves de depressão”.

Também formada em administração de empresas, ela esclarece que, com a pandemia do novo coronavírus, as empresas precisam se atentar ainda mais à saúde de sua equipe de trabalho. Na rotina em home office, muitos colaboradores relatam “não ter mais um horário definido de trabalho”, se sentindo na necessidade de estarem à disposição mesmo após o final do seu expediente e cumprindo horas adicionais sem remuneração.

“No início [da pandemia], diversos profissionais dos mais variados setores tiveram de aderir ao trabalho remoto, a distância, longe das dependências do escritório ou empresa, o que pode ter sido benéfico para quem soube se adaptar e administrar o tempo para cumprir suas funções profissionais e o tempo para descansar. Em abril deste ano, uma pesquisa realizada pelo LinkedIn com dois mil profissionais em home office apontou que 68% dos entrevistados têm trabalhado pelo menos uma hora a mais por dia (21% até quatro horas a mais). O estudo ainda revelou que 62% estão mais estressados e ansiosos com o trabalho do que antes da pandemia”.

Traduzido em números, o excesso de trabalho no Brasil apresenta proporções preocupantes. O país é o segundo no mundo em casos de pessoas com a Síndrome de Burnout - também conhecida como Síndrome do Esgotamento Profissional -, líder em casos de ansiedade e o 5º lugar quando se trata de vítimas da depressão. Os dados são da International Stress Management Association (ISMA-BR) e da Organização Mundial da Saúde (OMS). Segundo a psicoterapeuta Denise Costa, é preciso quebrar o estigma de que somente o ‘workaholic’ é capaz de vencer no mundo corporativo.

“Todo desequilíbrio faz mal. E quando você assume para si o status de workaholic, você faz parte de um. Trabalhar em excesso causa doenças físicas e mentais, além de proporcionar um desgaste que é sentido por quem está ao redor. É mais do que essencial ter um tempo de descanso, de lazer, com a família, e qualquer pessoa que pregar contra isso está fazendo muito mais mal do que bem”, pontua.

Universo corporativo: sobrevivência ou morte?

Denise explica que os malefícios que o ambiente corporativo pode provocar à saúde não se limitam ao excesso de trabalho. Situações de abuso, comportamentos tóxicos por parte de líderes, pressão excessiva, constantes feedbacks negativos, ameaças e sentimento de desvalorização podem desencadear doenças.

“Quando falamos de doenças, especialmente as mentais, não podemos em hipótese alguma subestimar o seu potencial destrutivo. No Japão, por exemplo, há um fenômeno chamado ‘Karoshi’, termo utilizado para suicídios ligados ao trabalho. Lá, há casos de pessoas que trabalham até 18 horas por dia, que fecham o mês com mais de 100 horas extras, que até mesmo dormem na empresa. E há correntes que defendem uma realidade próxima dessa no Brasil, que vendem o trabalho como algo que deve estar ‘acima de tudo’. A dignificação do trabalho ganhou tons excessivos. Para alguns, quem não trabalha nem cidadão é”.

A especialista defende não só que haja um rigor no cumprimento de leis trabalhistas, como também maiores cuidados com a saúde dos colaboradores e maior sensibilidade, inclusive, com quem está em busca de recolocação.

“Setembro é um prato cheio para as empresas ganharem pontos com a sociedade. Fazem textos sobre o setembro amarelo, divulgam campanhas, mas será que na prática, no interno, há cuidados para evitar que seus funcionários adoeçam? Há algum tipo de ajuda ou acolhimento para quem já sofre de ansiedade, depressão ou algo do tipo? Já perdi a conta de quantos pacientes atendi que foram demitidos ao demonstrar sinais de tristeza, que muitas vezes sequer tinham relação com o trabalho. A saúde mental ainda é tabu no universo corporativo. E o alerta vale não só para líderes e RH, como também para quem recruta. Vocês se recordam do caso da menina Vicky Harrison? Está longe de ser um caso isolado”, diz.

O caso citado pela psicoterapeuta aconteceu em 2010, na Inglaterra. Uma adolescente de 21 anos tirou a própria vida após ser rejeitada por mais de cem empresas durante dois anos à procura de trabalho, relatou o pai, na época.

“O trabalho é supervalorizado na nossa sociedade. Obviamente não estou dizendo que ele não é importante, mas que nós usamos o trabalho como justificativa para atribuir valor a alguém. Por isso é importante ter sensibilidade. Mesmo em uma recusa de trabalho, converse com a pessoa, dê dicas, orientações, agradeça pelo seu esforço e diga a ela quais são seus pontos positivos e em quais pontos ela pode evoluir. A empatia não pode se perder pelo caminho”, finaliza Denise.

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