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A Pedagogia Do Erro Está Em Alta

Coluna 785

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Aprender com os erros cometidos é tão importante quanto limitar-se a repetir os passos acertados que culminaram com seus êxitos. Décadas de uma visão perfeccionista na gestão de pessoas levaram grandes universidades e empresas bem sucedidas ao uso quase que exclusivo de “casos de sucesso” para desenvolver seus talentos. Esses cases, em sua maioria, não mostram as etapas equivocadas, e repensadas, pelas quais executivos e seus empreendimentos chegaram a um “final feliz” em sua gestão para um determinado desafio. Afinal, bônus milionários e promoções aconteciam majoritariamente a partir de uma avaliação de desempenho sobre resultados finais, sem levar em conta o processo pelo qual o executivo caminhou antes de acertar o alvo.

Essa postura vem mudando em boa parte pela Revolução Digital na qual grandes sacadas tornam-se negócios bilionários depois de centenas tentativas fracassadas e algumas falências prematuras. Start-ups pipocam às milhares e, no final, a peneira daquelas boas apostas iniciais mostra apenas algumas pepitas de ouro. O que faz o endeusado Vale do Silício, na Califórnia? Um dos eventos mais prestigiados é o FailCon, onde centenas de interessados pagam até 450 dólares para conhecer, ao vivo ou em vídeos realistas, centenas de relatos de insucessos. Para quê? Principalmente para não repetir os erros dos outros...e talvez, para refletir sobre as escolhas dos seus próprios enganos.

Nesta época, mais do que no passado, o auto-desenvolvimento é tão ou mais importante do que a diversidade de meios pedagógicos à disposição do interessado. E o auto-desenvolvimento precisa começar pelo auto-conhecimento. A Dra. Melanie I. Stefen, que lidera um laboratório de pesquisa sobre Memória & Aprendizagem na Universidade de Edinburgh, publicou em 2010, na conceituada revista Nature, artigo em que propõe que devemos ter um currículo com sucessos e competências conseguidos na vida acadêmica e profissional...e outro CV com seus insucessos, para demonstrar como aconteceu, apesar dos percalços, a sua carreira bem-sucedida! Ela diz que chegou a essa decisão surpreendente ao analisar a trajetória do nosso craque Ronaldinho Gaúcho e o fato de que ele não tinha sido relacionado para integrar a Seleção Brasileira para a Copa do Mundo. Será que ele não tinha aprendido com suas curtas fases ruins e voltado a ser um fator decisivo para levar o time ao pódio? Ela diz que seu CV “normal” é seis vezes menor do que aquele de seus insucessos até conseguir os bons resultados em sua carreira vitoriosa.

Um “seguidor” da Dra. Stefen é Johannes Haushofer, professor de Psicologia e Public Affairs da Universidade de Princeton, escola que teve Albert Einstein entre seus mestres. Haushofer sugere que, além de fazer o equivalente ao brasileiro Currículo Lattes - com seus cursos, títulos, artigos e pesquisas publicados-, o profissional pode fazer um CV alternativo com o pedregoso caminho para chegar à sua atual posição de destaque. Algumas das recomendações: “cursos nos quais não ingressei, bolsas e prêmios não conseguidos, artigos recusados em revistas de prestígio acadêmico, empregos em que não fui aceita etc”.

Melanie Stefen e Haushofer estão convictos de que não têm problema em publicar ambas as formas de CV. Afinal, são bem sucedidos na carreira e acham que mostrar as dificuldades sobrepujadas ajudará no seu conceito pessoal e profissional. São ousados em uma cultura acadêmica nem sempre aberta às inovações comportamentais de seus membros. O que se pode aprender com eles na cultura brasileira? Creio que a melhor dica é que podemos fazer o CV alternativo apenas para nosso próprio uso, turbinando o auto-conhecimento e o auto-desenvolvimento.

Aqui no Brasil, em 2003 publiquei mais do que um CV de minhas “pisadas de bola”, pois lancei um livro pela Qualitymak: “Fracassos em RH – e como se transformaram em casos de sucesso”. Hoje esgotado, o livro teve boa acolhida na imprensa “de negócios” e gerou inúmeros convites para palestras em seminários e congressos na seara de RH. Ainda no primeiro semestre deste ano, em um auditório do INSPER, em S. Paulo, falei e debati sobre meus fracassos – e os êxitos que deles seguiram – para os integrantes do Grupo Diógenes, que reúne dezenas de diretores e consultores de RH. Foi interessante porque vários dos participantes também quiseram compartilhar seus sucessos gerados pela análise e correção de etapas desastradas. Boa experiência de troca de experiências em torno desse tema tão “esquecido” por nós.

No próximo artigo falarei desse meu livro, com quinze erros ou fracassos que cometi antes de, após analisar o processo ou revendo as circunstâncias onde ocorreram, terem me levado a etapas de sucesso na carreira.  

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Frase-satélite:

Sobre desafios: “Eu nunca perco. Ou eu ganho ou eu aprendo.”

Nelson Savioli, Consultor/Conselheiro de Instituições do Terceiro Setor Especialista em RH e Desenvolvimento Organizacional Mentoring. É um dos colunistas do RH Pra Você. O conteúdo dessa coluna representa a opinião do colunista. Foto: Divulgação

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