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A Indústria 4.0 E O Modelo De Gestão Do Tempo Das Cavernas

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Fico maravilhado quando leio sobre a Indústria 4.0.

É incrível ver o que a Internet das Coisas (IoT) e M2M (Máquina para Máquina) podem fazer conectando equipamentos e máquinas com modernos sensores e transmissores através de redes sem fio. No mais básico, disponibilizam informações que permitem, por exemplo, ajustar a produção (o clássico PCP - Planejamento e Controle da Produção) usando análises do impacto do clima, das ações dos concorrentes, fornecedores e até decisões do governo... tudo isso processados por um Big Data e Inteligência Artificial... sem a interferência do homem. Uau! É incrível!

Entretanto, depois de ler sobre todas essas possibilidades e assistir palestras com renomados especialistas, volto à realidade pesquisando o efeito da qualidade dos gestores e da cultura organizacional sobre os blue-collar (operadores e supervisores que atuam na base das indústrias) e entro em choque.

Uma quantidade enorme de pessoas vive sob a sombra do medo, de ameaças diretas e veladas de seus gestores que agem como se ainda estivessem no tempo das cavernas, no qual o tacape é o seu principal instrumento de gestão.

Nas salas com seus chefes, esses gestores parecem cordeiros obedientes que não questionam, mas ao chegarem no chão da operação se transformam em lobos e sentem um certo conforto, para não falar prazer, com o efeito assustador de sua presença na área. Um exemplo desse não-questionamento bovino dos gerentes sobre a demanda dos seus diretores ouvi recentemente de um gerente: “minha equipe gasta mais da metade do tempo preparando relatórios com minúcias de detalhes que talvez o meu gerente geral precise se talvez o diretor o chamar para falar na reunião com o CEO e VPs”. E eu perguntei: mas eles usam essa informação que tirou o seu time da área? E a resposta dele me chocou: “muito raramente. Trabalhamos para protegê-los de um possível questionamento que os diretores não querem correr o risco de não ter os dados na hora que perguntam, por isso fazemos mais powerpoints do que nossos produtos (evito falar qual o produto para não identificar internamente a fonte).

Em outras palavras, a organização está desenhada para proteger os gerentes de uma possível pergunta do seu gerente geral, que por sua vez não quer ficar sem resposta sobre detalhes diante do seu diretor, que não quer parecer “não ter todos os detalhes de sua operação”. Por isso há menos pessoas na área com os operadores e mais pessoas fazendo relatórios. O ciclo se fecha quando, por ter menos líderes maduros na área, há falhas na produção e mais acidentes... o que demandam mais e mais relatórios.

As empresas aumentam a quantidade de relatórios, mas não a segurança operacional. Será que os CEO e VPs têm noção do custo de sua atitude? Será que enxergam que para fazer esses relatórios os gerentes e supervisores saem da área onde muitos terceirizados e jovens sem experiência estão em risco?

Além da cobrança pelos detalhes, também há falha na formação em matemática dos líderes que demandam que suas equipes aumentem os resultados, com qualidade, com segurança, mas com menos recursos, menos treinamento, menos manutenção e peças de reposição. Como fazer o que eles estão pedindo e manter o emprego? Isso é mais dramático em cidades pequenas onde a indústria é a única ou quase única opção de trabalho.

São assustadores os índices de afastamento por motivos psiquiátricos, conhecidos como “F” pelo Código Internacional de Doenças, o CID 10, inclui os quadros relativos à ansiedade e depressão. São doenças de difícil tratamento que desembocam no Burnout. Ano que vem, 2020, sai o novo CID (11) e já inclui o Burnout como doença do trabalho. Seu tratamento é longo e caro. Seu impacto é devastador e com essa categorização as empresas serão responsabilizadas como são no caso de acidentes do trabalho.

Precisamos sair da passividade silenciosa que protege os líderes tóxicos que conseguem resultados no curto prazo. Precisamos evidenciar e denunciar pessoas que deixam um rastro de medo e ansiedade por onde passam e falar “basta”.

Vemos países que prosperam com um ritmo de trabalho e sofrimento menor, mas uma produtividade maior. A tecnologia deixou a sociedade mais conectada e o que estava escondido, aparece na internet. Há pouco tempo soube de um gestor estilo tacape que fez um clássico discurso humilhando um supervisor e seu time que não entregaram o resultado esperado. Ele gritou, xingou, ameaçou e usou suas ferramentas de medo. Entretanto, ele não sabia que uma pessoa estava com o celular no bolso filmando aquele seu momento “íntimo” com uma de suas equipes. Resultado: demissão por justa causa e processo por assédio moral sobre ele e a empresa que permitia esse tipo de gestor em seu quadro.

Os tempos estão mudando. Lembrando uma frase conhecida de Jack Welch “se a taxa de mudança interna é menor do que a taxa de mudança externa, então o fim está próximo”

Gestores, acelerem sua taxa de mudança. O século XXI aguarda vocês: suas máquinas e suas equipes já estão aqui esperando vocês. Boa viagem.

Por Roberto Aylmer, médico, Ph.D. pela Rennes School of Business, França, professor internacional da Fundação Dom Cabral e consultor em gestão estratégica de pessoas

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